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21 July 2018 Written by 

Lameirinha e Nariz do Mundo

Numa altura em que o país parece ter despertado de um tempo de abandono assumido do interior, seguimos rumo a Norte em busca de uma portugalidade interior que se vai reinventando para escapar a um certo destino litoral. Pretendíamos visitar a mítica Casa do Penedo, no salto da Lameirinha, e o não menos conhecido Nariz do Mundo, em Cabeceiras de Basto.

Passámos por Fafe e seguimos na direção da serra. Logo depois chegámos à Lameirinha (GC16670), local do famoso salto do rally. No alto da colina avistámos a Casa do Penedo, cujo terreno estava rodeado por uma vedação. Passámos suavemente pela rampa e estacionámos logo depois. Aproximou-se então um senhor, que viemos a descobrir ser vigilante, e ficámos a saber que era possível visitar o interior do terreno. Após fotos e mais fotos da casa, descemos um pouco a colina e estacionámos na pequena piscina cravada no granito. Ainda nos sentimos tentados a perguntar se poderíamos aproveitar o verão, mas acabámos apenas tirar mais algumas fotos. Entretanto, ficámos a conhecer melhor a história da casa, exemplo de comunhão de construção humana e natureza. Mais além, a paisagem estendia-se por colinas sobrepostas até ao horizonte.

Da Casa do Penedo seguimos para Moscoso em busca do Nariz do Mundo. Com a aproximação da hora do almoço resolvemos repensar os planos. Já tínhamos ouvido falar do restaurante homónimo, bastante famoso no Norte, mas desconhecíamos o que iríamos encontrar. Percebemos de imediato que deveríamos ter reservado a presença, mas ainda conseguimos arranjar um cantinho. Seguiu-se uma das melhores e mais peculiares experiências gastronómicas que já tivemos. Quando chegámos à mesa já lá estava uma garrafa de vinho a convidar a escolha imediata; o generoso bife grelhado de vitela estava fantástico e já nem considerámos a oferta para provarmos a chanfana; “sobremesa? não é preciso ementa, tomem lá esta travessa de doces tracionais e sirvam-se à vontade”. Pelo meio, fomos misturados na festa/encontro anual da família Leite e quando nos apercebemos já andávamos a celebrar com desconhecidos. E tudo por menos do que pensávamos. Enquanto uns se entretêm com estrelas Michelin a saber a pouco, ali cultiva-se a arte de cozinhar e encantar com sabores que o tempo apurou.

Finda a refeição, seguimos ao encontro do Nariz do Mundo, o original (GC4HTX1). Trata-se de um cabeço proeminente sobre o vale de Moscoso. Porém, para lá chegar é preciso caminhar e desgastar. Seguimos pelo caminho mais longo e fomos descendo a encosta do lado direito do rio. À medida que fomos descendo, a vegetação envolvente foi crescendo. Mais abaixo fomos envolvidos por um arvoredo de faias, cedros e carvalhos que a tudo resiste, desde o tempo aos incêndios. Ao chegarmos ao rio aproveitámos para tomarmos um banho reconfortante e seguimos depois pela subida da outra encosta. Sempre com os olhos no vale, contornámos o monte e iniciámos a subida pela outra vertente que nos haveria de levar à antiga casa florestal, que vai mantendo as janelas e as portas emparedadas à espera de melhores dias.

Já com vistas largas para Moscoso, descemos pelo trilho que nos haveria de levar finalmente ao Nariz do Mundo. De cada lado, vales cavados que chegam ao fundo de quantas eras ali se fizeram. Em dias de nevoeiro o pico deve parecer a proa de um navio a zarpar pelo mar. Em dias de bom tempo, o lugar oferece umas vistas triunfantes sobre o horizonte. A civilização apenas ali chegou para colocar uma placa informativa e tudo o resto é natureza. Fomos guardando os vislumbres em fotos vertiginosas e retomámos depois o caminho. Mais abaixo, o rio corria de cascata em lagoa e convidava a novo banho, mas o sol já se tinha escondido do fundo do vale. Cruzámos o rio e ainda fomos espreitar a Cascata das Relvas, antes de reencontrarmos o merecido descanso em Moscoso. No total, os cerca de 10 km foram percorridos em pouco menos de 5 horas (ver track). Do Nariz do Mundo trouxemos memórias de uma paisagem grandiosa e uma experiência gastronómica para recordar. Até ali e até qualquer dia, por essa portugalidade interior reencontrada, Basto num regresso!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 



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