25de Junho,2022

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ValenteCruz

ValenteCruz

Sunday, 13 March 2022 17:00

Da Pena Amarela às Goelas do Mundo

Regresso ao fantástico vale da Pena Amarela, na Serra da Freita, para revisitar o percurso superior da ribeira, desde Cando até às minas da Rota do Ouro Negro. A primeira visita ocorreu há mais de uma década, numa série de três aventuras que contemplaram uma ida à base da cascata superior, a descida até às minas e a subida desde a ponte de Bouceguedim pelo leito da ribeira. Numa escala de inconsciências do que não voltaria a fazer pelo acrescento natural de juízo pelo avançar da idade, esta experiência ficará apenas atrás da subida da Fraga das Pastorinhas.

Estacionei em Cando entre as brumas de um dia novo, onde já estavam o João, o José e o Fábio. Na viagem, a partir de Arouca, alguns pingos de chuva começaram a levantar suspeitas sobre se seria possível fazer o percurso. Lá cima, perto dos mil metros de altitude, os pingos tinham-se transformado em farrapos de neve, que caíam com maior frequência. Apesar das dúvidas, mas preparados para a meteorologia, decidimos manter os planos e iniciámos o percurso na direção à crista montanhosa que divide o vale da Pena Amarela e o vale de Rio de Frades. Os farrapos de céu mantiveram-se em toda a descida, mas passaram de neve a chuva miudinha. Pelo meio fizemos um pequeno desvio para acedermos a um miradouro sobre o vale e a cascata superior da Pena Amarela. E só por esta descida panorâmica já teria valido a pena.

Chegados às minas, junto à ribeira, aproveitámos para ir um pouco mais adiante na Rota do Ouro Negro e para uma primeira paragem de alimentação. Iniciámos depois a subida pela ribeira em direção às Goelas do Mundo. Esta parte do percurso excedeu as melhores expetativas, cujas recordações já estavam um pouco adormecidas. Talvez pelo seu isolamento e pelo leito da ribeira ser suficientemente cavado e luxuriante para não permitir incêndios, parece ter-se mantido intocável ao longo das eras. Alternando entre as margens, o trilho está bem marcado e é relativamente fácil de intuir. Apesar de ser um percurso técnico, os obstáculos não são difíceis de ultrapassar, sendo que em algumas partes existem cordas a auxiliar as passagens, como na lagoa que antecede a subida pela crista das Goelas do Mundo. Algures a meio do percurso deixou de pingar e as roupas foram secando naturalmente.

Saindo da ribeira, iniciámos a subida pela crista da encosta, com uma ascensão de mais de 400 metros de altitude em menos de 1 km. Antes de mais, é de notar o impressionante trabalho de limpeza que foi realizado. Apesar da tecnicidade natural para progredir, não é muito difícil, sendo que a ausência de alternativas pela vegetação densa torna fácil perceber por onde segue o trilho. Pelo meio ainda fizemos um desvio para aceder à cascata em escadaria da ribeira e logo depois aproveitámos para almoçar. Ao longo da subida, à medida que ganhávamos uma vista mais inteira do vale, deu para relembrar outros locais por onde tinha passado na primeira incursão. Ao chegarmos ao miradouro ainda estivemos a conversar com uma habitante de Cando, que nos viu partir e ficou curiosa no nosso regresso. Deu ainda para conhecer melhor a nomenclatura dos locais visitados.

Para o final da aventura estava reservada uma tentativa de acesso à base da cascata superior da Pena Amarela. Acabou mesmo por ser apenas uma tentativa, visto que as condições mudaram um pouco pelo último incêndio. Dado o terreno muito inclinado e escorregadio, havendo menos arvoredo, nomeadamente giestas, torna-se mais difícil descer. Assim, resolvemos não arriscar. Ao voltarmos para trás apanhámos o trilho que nos haveria de levar a Cando, com mais uma agradável surpresa na descoberta de mais uma cascata junto à aldeia. Apesar de limpo, o percurso não está sinalizado (ver/descarregar o trilho aqui). Sem ser demasiado difícil, é desafiante o suficiente e verdadeiramente fantástico pela natureza envolvente. Foi um prazer regressar à Pena Amarela em excelente companhia.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Saturday, 14 August 2021 17:00

sunrise@CântaroMagro_21

Num ano em que a paternidade redefiniu as prioridades, o sunrise@CântaroMagro_21 foi adiado do habitual período de solstício de verão e considerado apenas mediante disponibilidade. O alinhamento celeste acabou por permiti-lo no primeiro dia de agosto. Dadas as circunstâncias e o contexto de pandemia, e já depois de no ano passado este nascer do sol ter tido uma versão familiar, desta vez surgiu a possibilidade de concretizar a vontade antiga de uma versão solitária.

Como habitualmente, e para aproveitar a ida à Estrela, o dia de sábado serviu para fazer uma caminhada pela serra. Comecei na Torre e segui pela cumeada da Alvoaça, descendo depois para Alvoco. Durante a tarde fiz a subida de regresso à Torre pela Rota do Pastoreio, repisando a mítica aventura da Oh Meu Deus – Ultra Trail Serra da Estrela. O dia terminou tal como tinha começado, com muito vento e um nevoeiro sebastiânico.

Ainda na Torre, enquanto fazia contas ao desânimo, tornou-se óbvio que com aquele tempo não fazia sentido ficar para o nascer do sol. Não obstante, antes de regressar a casa teria sempre de passar pelo Cântaro Magro e, se viável, subir ao seu cume. Foi então que a serra mostrou, mais uma vez, as suas especificidades meteorológicas. Ao chegar ao estacionamento do cântaro percebi que o nevoeiro apenas dominava a metade poente da serra. A partir da depressão do Covão Cimeiro o nevoeiro esfumava-se, como se algo tivesse erguido ali uma barreira invisível. Com o horizonte nascente pintado de azul, reformulei o plano e preparei-me para a estadia.

Mesmo depois de várias subidas continua a ser impressionante contemplar e vencer a sensação de inacessibilidade que se tem do estacionamento. Parece que é impossível lá chegar, mas basta saber como. A subida ao Cântaro Magro decorreu sem sobressaltos, palmilhando o trilho escondido, num reencontro entre o granito do maciço e as mãos. Lá em cima fui percorrendo calmamente os recantos e as memórias, nomeadamente na revisitação ao manuscrito d’O tempo inquieto. Desta vez não tive direito a por-do-sol, mas a visão do mar de nevoeiro a descer em farrapos de nuvens sobre o Covão Cimeiro foi igualmente fascinante.

Após um jantar reconfortante falei com as princesas e brindei à vida no pico do cântaro. A noite caíra entretanto, mas o quarto minguante lunar ainda permitia ver com alguma clarividência. Aliás, não cheguei a usar luz artificial durante todo o tempo que lá estive. Devido ao vento forte, a sensação térmica aproximou-se dos zero graus centígrados, pelo que foi importante ir preparado. Deitado sob um manto infinito de estrelas aproveitei então para descansar. Porém, o corpo estranhou a dormida e passei a noite num sono leve, divagando pelo prazer da experiência, abrir os olhos e contemplar o céu estrelado.

Acordei às seis horas, peguei na máquina e segui para o pico rochoso. No horizonte rubro subsistia uma tira de nuvens um pouco acima, mas a zona onde o sol haveria de aparecer estava liberta. Um vento frio assobiava no cume serrano e aproveitei para me resguardar um pouco, enquanto ia registando os momentos. O sol aparece todos os dias e em todo o lado, mas ali é diferente. O momento é verdadeiramente mágico e transcendente! Após ter surgido inteiro, o sol escondeu-se na tira de nuvens e reapareceu depois em definitivo. Foi tempo então de arrumar as coisas, despedir-me do Cântaro e voltar a casa.

Com esta experiência solitária fechei um ciclo de dez anos a ver nascer o sol no topo do Cântaro Magro. Começou como uma experiência reservada para servir de inspiração, passou por um evento em que estiveram presentes até cerca de oitenta pessoas (o que levanta várias questões, dúvidas e ansiedades) e transformou-se em algo identitário, como se fosse uma necessidade intrínseca. Fica a vontade de regressar em cada ano e a perspetiva que volte a ser algo mais reservado. Dez anos depois, creio que o primeiro dia do ano no meu mundo passou definitivamente a ser este nascer do sol. O deste ano foi ainda mais especial pela paternidade, que embora longe estava ao alcance da primeira luz, sob o brilho do melhor lado da vida e do sonho. E assim se passaram dez anos a ver nascer o sol no Cântaro Magro.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

   

Sunday, 27 June 2021 17:00

Ruta del Cares Xtrem

Depois de uma entrada fascinante nos Picos de Europa pelo Pico Gilbo, seguimos para a Cantábria em busca de mais experiências fabulosas. Para o primeiro dia estava destinado este percurso, porventura um dos mais famosos. Agora, entre o sossego de grandes recordações, achamos que a dificuldade em descrever as nossas vivências por lá são tão grandes e belas e como aquelas montanhas. Persiste a sensação de que tudo o que se possa dizer pareça pouco. Ainda assim, aqui ficam estas palavras, à espera e com a esperança que o tempo as possa apurar.

A Ruta del Cares é um percurso linear com cerca de 12 km, entre as localidades de Poncebos e Cain, aberto literalmente nas encostas e escarpas rochosas do rio Cares. O percurso foi criado para acompanhar a construção de um canal de água de aproveitamento hidroelétrico. Antes de mais importa agradecer às pessoas que ali trabalharam e criaram uma grande obra de engenharia. Sendo um percurso linear, e como a viagem por estrada é grande, a distância total da caminhada passa então para os 24 km. Com cerca de 700 metros de desnível, o trilho apresenta uma subida mais acentuada no início, mas depois vai-se tornando plano. Pelo terreno irregular e pela distância é importante selecionar um bom calçado. Como o percurso é bastante concorrido e os lugares de estacionamento não são muitos, ir um pouco mais cedo pode fazer a diferença entre começar próximo do início ou acrescentar mais alguns quilómetros à contagem.

Ao chegarmos ao estacionamento, em Poncebos, e depois de nos certificámos que tínhamos tudo o que precisaríamos para a viagem, carregados de expetativas, fizemo-nos ao caminho. À nossa volta, os picos erguiam-se, senhores de toda a vida que por ali passa. Percebe-se porque os cristãos tenham encontrado aqui o seu último refúgio de liberdade na antiga Hispânia contra o avanço muçulmano. Vencida a subida inicial chegamos ao grande anfiteatro do Cares que se estendia a montante. As encostas tornaram-se ainda maiores e escarpadas e no horizonte montanhoso era percetível o trilho escarpado. Mais à frente, o percurso fura pelas paredes verticais, acompanhando o canal e o rio.

Um pouco antes de chegarmos a Cain decidimos apimentar a aventura e descemos ao rio com o intuito de subirmos ao planalto na outra margem. Durante a descida vislumbrámos, lá em baixo, a pequena ponte sobre um azul intenso, que corria desfiladeiro abaixo, capaz de fazer inveja ao céu. Facilmente percebemos por onde deveríamos descer para ter acesso ao rio e seguimos pelo trilho, que desce a encosta em ziguezagues constantes. Sabíamos de antemão que a água estaria fria, mas não esperávamos que fosse a mais gelada.

Iniciámos de seguida a subida Cares Xtrem até ao prado altivo da outra margem. E se a descer todos os santos ajudam, a subida fez jus ao nome da experiência. A ascensão foi realizada em ziguezagues constantes de uma verticalidade respeitável. A dado momento fomos por um atalho que nos dificultou ainda mais a subida, junto à parede da fraga. Ao chegarmos ao prado tivemos uma enorme sensação de pequenez. É impressionante a quanto estas montanhas nos reduzem! Descemos depois até aos escombros de uma cabana, onde completámos a descoberta. Ali, entre dois burros que pastavam, alheios a tudo, fizemos o registo da nossa passagem pelo local. Não será fácil encontrar outra paisagem tão grandiosa para escrever alguns rabiscos, por certo insignificantes quando comparados com o cenário.

Na descida descortinámos o trilho que deveríamos ter seguido na subida e o cruzamento do engano. Criámos por lá uma mariola, para que outros não tenham o mesmo imprevisto. Passámos pela ponte em ritmo acelerado e, depois da subida da encosta na outra margem, reencontrámos a Ruta del Cares. Retomámos a rota e passámos pelos sucessivos túneis e pontes até chegarmos à repesa de Cain, que marcou o meio da nossa aventura. Ao chegarmos, fomos de imediato até à ponte mais acima e passámos para a outra margem, onde aproveitámos para descansar e almoçar. Fomos depois revisitar a repesa e, depois de um café, encetámos a viagem de regresso, revivendo as paisagens maravilhosas de um dos percursos mais majestosos que se pode fazer.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

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