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DraveTrail_20 Featured
02 July 2020 Written by 

DraveTrail_20

Para além de alguns eventos mais esporádicos na serra do Gerês, existem dois eventos de realização anual que se tornaram num lugar comum para mim (quiçá uma necessidade espiritual): o DraveTrail e o sunrise@CântaroMagro. Este ano, a pandemia Covid-19 acabou por tornar inviável a realização dos eventos, mas tal não significa que os mesmos não possam ocorrer noutros moldes. E se não convém que existam ajuntamentos de pessoas, que seja então em modo solitário.

O DraveTrail ocorria em meados de maio, quando as encostas da serra da Arada estavam pintadas numa ternura púrpura. Por adiamentos vários, apenas consegui fazer a minha visita anual à mágica Drave no final de junho. O percurso escolhido foi o mesmo de 2015, mas com início em Cabreiros e descida ao rio Paivô. Saindo da aldeia, apanhei o Caminho do Carteiro e desci acelerado em direção ao vale mineiro. Passei pelo misterioso Poço Oito e prossegui depois para o rio. Cruzei a mina e cumprimentei de relance Rio de Frades, ainda adormecida.

O percurso objetivo abandonava o alcatrão e entrava numa encosta do rio. Porém, quando já andava a rastejar, tive de abortar o plano porque o trilho estava fechado pela vegetação. Cruzei a ponte e desci para o rio Paivô, um pouco antes da mistura das águas com o rio de Frades. Seguiram-se cerca de três quilómetros de rio, de pedra em pedra ou pela água. Em algumas passagens mais técnicas, nos rochedos sobre as lagoas, existem cabos de segurança que tornam a progressão ainda mais espetacular. Numa das lagoas, e como a manhã já ia quente, aproveitei para o primeiro banho do dia.

Perto de chegar à saída do rio, apanhei a boleia de uma ribeira e fui conhecer a aldeia de Emproa, que já esteve à venda. Desabitada há várias anos, as casas de xisto estão a ser recuperadas e a estrada está a ser aberta. Passei ao lado de Covêlo do Paivô e aproveitei uma paragem para o segundo-pequeno almoço. Fiz-me depois na Senda do Paivô em direção a Regoufe. Fosse pela falta de treino de montanha ou pelo calor excessivo, notei que o corpo estava em desgaste excessivo e optei por descansar alguns minutos à sombra de uma árvore solitária.

Regressei ao caminho, suspenso na encosta sobre o rio, com melhores expetativas e cheguei por fim a Regoufe, onde aproveitei para abastecer de água. Vencido aquele primeiro quilómetro de pedra solta, o resto do caminho para a Drave fez-se sem problemas, mas por esta altura já tinha deixado a corrida e estava a fazer uma gestão de esforço do tendão de Aquiles. A visão, em mirarem, para a Garra, do outro lado do vale, era simultaneamente maravilhosa e assustadora.

Ver surgir a aldeia da Drave, encravada entre as encostas íngremes da serra da Arada, é sempre especial. Também como já é habitual, havia alguns veraneantes por lá, em especial na lagoa. Aproveitei para descansar um pouco no centro escutista, espreitei a nova casa do silêncio e retomei a caminhada pelo rio. Seguiram-se cerca de seis quilómetros pelo leito da ribeira da Drave e depois pelo rio Paivô. Pelo meio aproveitei para mais um banho numa das muitas lagoas límpidas e transparentes. Na passagem pelo lugar do Pêgo descobri que a grande lagoa tinha desaparecido por quebra da barragem de pedra. A caminhada no rio acabou por ser bastante desgastante, tanto física como mentalmente. Porém, sabia o que se seguia, o que ia servindo para enganar a mente.

Cheguei por fim a local de saída do rio e iniciei a longa subida da terrível Garra. Ao longe, visto do Alto de Regoufe, parece uma simples linha pela cumeada. Ao perto, já cansado, é excruciante. Serviram-me os bastões e a certeza que tinha de chegar a horas para o jantar. Como todas as boas subidas, quando olhamos para cima e vemos um topo, acreditamos que a subida terminará ali. Porém, lá chegados, há sempre mais para subir. Assim é a subida da Garra.

Passei depois na zona dos antigos Três Pinheiros, que atualmente está reduzido a um e com os dias contados. Ali as árvores também morrem de pé, com os braços moribundos estendidos ao céu árido da Arada. Entrei então no Trilho Inca, esculpido habilmente em lajes de xisto na encosta abrupta, ladeado por belas vistas sobre o vale. Passei de soslaio por Póvoa das Leiras, uma aldeia criada no topo dos socalcos que lhe alimentaram o povo durante séculos, e entrei na rota das Bétulas. A partir do ribeiro o trilho está coberto de sombra pelo arvoredo que se espalha pela ladeira. Depois da subida pela aldeia do Candal, a distância plana e alcatroada até Cabreiros foi vencida sem problemas.

Um DraveTrail solitário, com cerca de 32 km difíceis em cerca de 11 horas de montanha. O trilho pode ser visto aqui. A tecnicidade dos percursos da serra da Arada pode ser extenuante, enquanto se desafia o corpo e a mente. Mas a espetacularidade e beleza dos trilhos fazem também com que seja uma experiência incrível de comunhão com a Natureza. Quanto à Drave, a aldeia continua a fascinar-me a cada regresso. Sai-o de lá sempre com a sensação de ter estado num lugar especial, cheio de recantos e histórias, de um Portugal interior, inacessível e esquecido, mas que de alguma forma nos criou a todos.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt



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