“Há sítios do Mundo que são como certas existências humanas: tudo se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição. Este Gerês é um deles. Acumulam-se e harmonizam-se aqui tais forças e contraste, tão variados elementos de beleza e de expressão, que o resultado lembra-me sempre uma espécie de genialidade da natureza.” Miguel Torga, Diário VII

O Gerês ou o Parque Nacional da Peneda-Gerês, na sua expressão mais lata, permanecerá para todo o sempre associado à prosa e poesia de Miguel Torga, exímio mestre alquimista, hábil no acto de transformar em palavras a inefável beleza das imensas serranias destas montanhas. O encantamento e deslumbre não será difícil de entender, pois todo aquele que, tal como o mestre, ouse cirandar pelos seus intemporais trilhos, certamente perder-se-á em palavras de arrebatadoras visões e indiscritíveis sensações.
Divagando pelas suas entranhas, deixando-nos levar pela brisa do vento, a alma parece reencontrar o corpo simples e despido por entre o nu da rocha calva característica destes granitos. Na dureza das suas quase que infindáveis expressões, dominando a linha do horizonte erguem-se caprichosas formas da erosão, afirmando-se em incontáveis picos, entre os quais, a 1238 metros de altitude, eleva-se o imponente Pé de Cabril, a “pétrea majestade” de Torga.
O emblemático rochedo desde há muito que se assume como “local de peregrinação” de vultos de renome da cultura nacional, arrogando destaque na literatura de Torga ou na pintura naturalista de Artur Loureiro. O desejo de dominar as suas formas desde sempre seduziu o homem que na sua insignificante e efémera existência almejava conquistar o seu topo. Assim, não é de estranhar que este tenha sido um dos berços da escalada em Portugal, modalidade que nos anos 30 deu alguns dos seus primeiros passos na parede oriental deste icónico colosso.
Inevitavelmente o fascínio da indelével obra da natureza, prorrogar-se-ia até ao nosso dias, clamando por contínuas conquistas, mais que não fosse pelo alcançar dum cobiçado plástico, simples contentor de experiências e superações plantado num cenário de transcendente beleza. Todavia, não seria antes do agora longínquo Outubro de 2006 que, pelas mãos da lendária equipa d’Os Cacheiros Viajantes (Cache-a-lote, Cachapim, Ouriços Cacheiros e Robin da Mata), surgiria o tesouro que assinalaria no panorama do Geocaching nacional o domo granítico do Pé de Cabril.

A equipa, muito antes de se estrear no Geocaching, cedo deu início ao contacto próximo com a montanha. No caso do Cache-a-lote e do Cachapim, principais responsáveis pela colocação da cache, a prática da caminhada e do campismo selvagem teve início no seu tempo de estudantes algures na Serra da Freita e Arouca, a sua “praia iniciática de montanha”. Todavia, não obstante o grupo ter feito anteriormente uma ou outra incursão pelo PNPG, como foi o caso da Fenda da Calcedónia [GCGZCK], foi só com a descoberta de vários locais dados a conhecer pelo Geocaching – entre os quais se destaca a cache Stairway to Heaven [GC640F] dos GreenShades – que surgiria a ideia de assinalarem a sua presença na imensidão geresiana.
E assim, tendo como missão primordial a “(…) partilha de lugares que podíamos fazer chegar a outros, na exacta medida em que também nós ambos (Cache-a-lote e Cachapim), recém-chegados a essa actividade, nos víamos a agradecer por alguns lugares que outros nos deram a ver (…)”, nascia a ideia de assinalar o topo do Pé de Cabril.
O local seria descoberto pelo Cachapim cuja “(…) primeira referência surgiu numa pesquisa que referia os poucos degraus metálicos cravados na parede como exemplo de via ferrata em Portugal (…)”. Depois, naturalmente, surgiram as demais referências à escalada e ao fascínio que o afloramento rochoso exercera sobre alguns artistas nacionais, circunstâncias a que se aliava um irresistível chamamento de conquista.
Porém, a demanda, tal como qualquer grande aventura por entre vales e encostas montanhosas, começa bem antes de se alcançar o almejado topo, sendo que as alternativas para aí se chegar são diversas.
Assim, de entre as várias opções, possivelmente a forma mais fácil e directa de aceder à base do gigante é aquela que parte desde a Portela de Leonte [GC4W2EP], seguindo o trilho que sobe em direcção à encosta, com início junto à antiga casa do guarda. O percurso com cerca de 2,5 quilómetros marcado por algumas mariolas, apesar do declive acumulado, não apresenta dificuldades de maior e em pouco mais de uma hora conduz-nos ao início da ascensão propriamente dita. Em alternativa, poderá iniciar-se a caminhada na casa do guarda da Junceda, num percurso cujos quilómetros iniciais acompanham de perto a pequena rota do Trilho Interpretativo das Silhas dos Ursos [GCYHJ1], seguindo depois em direcção ao apelidado planalto do “Planeta dos Macacos” até atingir o Covelo, num total aproximado de cerca de 5 quilómetros.

Foi precisamente este último trajecto o escolhido pela equipa (representada pelo Cachapim e o Cache-a-lote) para, numa primeira abordagem, visitarem o local. Visita que apesar de longínqua não foi esquecida, permanecendo bem gravada na mente destes expedicionários. Tal como refere o Cache-a-lote: “ainda lembro que para a colocarmos, eu e o Miguel/Cachapim, que não conhecíamos o local, tomamos o caminho que não mais repetimos, o caminho no qual se vê o Pé de Cabril, não de frente mas por trás, sendo difícil imaginar aquilo que da estrada se vê ao longe, cuja lenta aproximação foi sendo um lento deslumbramento pela geologia e paisagem daquela zona.”
De qualquer modo, independentemente do caminho que se escolha, esse deslumbramento estará sempre presente nestes trilhos. Percorrê-los é, quiçá, o maior dos encantos destas paragens. Aqui cada passo significa muito mais do que simples centímetros, metros ou quilómetros. Cada passada é uma decisão! Uma manifestação do livre arbítrio. Um encontro rumo à liberdade apenas alcançável na natureza bruta destas paisagens.
Ainda assim, não obstante cada recanto reservar uma infindável panóplia de visões e sentimentos, a experiência, tal como a paisagem, ver-se-á para sempre dominada pelas formas austeras daquele pico. Este, na sua eterna perenidade, quebrando a serenidade daquelas encostas, assume-se como rei e senhor do horizonte, alto e imponente como que gritando: “Estou aqui! Venerem-me! Curvem-se a meus pés em submissa glória!”. Mandamentos que, após a chegada às raízes do seu corpo, ganham uma nova expressão. Aí, a submissão, perante a imensa verticalidade da sua figura, será imediata, esmagando-nos em dúvidas e incertezas, levando-nos a questionar se existirá forma possível de domar o seu ego. Felizmente, seguindo o rasto das pisadas indicadas pelos owners, eis que se revela o sinuoso trilho, abrindo caminho rumo à conquista da (quase) impenetrável fortaleza.

Passo a passo, percorrendo as acidentadas rugas da criatura, com alguma determinação, rapidamente chegamos à profundeza das suas entranhas. Aí, eis chegada a hora da devida vénia, rastejando pelo âmago da sua robustez disforme em busca da ténue luz que do outro lado espera à sombra do moribundo carvalho. Ultrapassada a escura fenda, seguindo pela rocha, o caminho torna-se cada vez mais evidente conduzindo-nos com relativa segurança até à outra margem, onde, num só golpe, estendendo-se em inúmeros vales ofuscados pelo cintilante espelho d’água da albufeira da Caniçada [GC31B13], a magnitude da paisagem anuncia-se em todo o seu esplendor.
Neste ponto, com o topo à distância de três delicados e vertiginosos passos, o ferrugento metal cravado na rocha, assume-se como o objectivo final da ascensão, "la pièce de résistance" da sublime obra (cfr. log do prodrive). Porém, ainda que os singelos passos rodeados pelo abismo abrupto não se avizinhem fáceis, o hipnotizante apelo de conquista falará mais alto, seduzindo--nos num inexplicável assomo de força e coragem que, tal qual chamamento absoluto, rasgará os céus em odes de glória, clamando a hercúlea conquista do incrível colosso!
Chegados ao topo, na transcendência inebriante do momento, a sensação de conquista, emoldurada pelo singular quadro natural, compensará todo e qualquer receio. Desde o cume, contemplando o horizonte, na vastidão de altos e baixos da paisagem é possível avistar outros emblemáticos picos destas paragens. Assim, entre os relevos, tendo como pano de fundo o casario de Covide e do Campo do Gerês, ergue-se a Calcedónia e o Tonel [GC4TYKJ], isto enquanto, na outra encosta, acima do verdejante vale dominado pela Mata de Albergaria [GC1Q4DP], assoma-se o Borrageiro [GC1471Q], senhor do coração geresiano. Como se tal não bastasse, como que desafiando a esguia figura da albufeira da Caniçada, e por entre as formações rochosas, dum inconfundível azul, irrompem os contornos da albufeira de Vilarinho das Furnas [GC34ZRP] delimitada pelas encostas da Serra Amarela, eterna guardiã da aldeia subaquática [GC1220J].
No fundo, a sublime visão aliada ao sentimento de conquista e superação, será o grande tesouro deste caixote, cuja lenda perdurará no tempo, lado a lado, com a intemporal beleza destas montanhas, reino mágico de mil e uma formas graníticas. Circunstâncias que tornam o secular tesouro num dos mais carismáticos deste Parque, ao qual a comunidade atribuiu o privilégio de figurar entre as caches nomeadas aos Prémios GPS da Década. Agora, desafiem-se e deixem-se levar até ao topo desta desmedida necessidade de ir mais além, conquistando o imenso colosso de pedra que, “na margem de lá, (…) solene,” parece esperar “(…) o abraço duma ascensão.” (Miguel Torga, Portugal)
Texto: José Sampaio (ZéSampa), Carlos M. Silva (Cache-a-lote) e Miguel Alexandre Salgado (Cachapim)
Fotografia: José Sampaio (ZéSampa)

Artigo publicado na GeoMagazine#17.


