15de Junho,2021

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12 October 2010 Written by 

Romaria ao Caminito del Rey em 4 dias... 1/2

Dia 1 - A partida

Lembro-me de ver um vídeo algures no fórum geocaching-pt à muito muito tempo sobre um caminho vertiginoso ali para os lados de Málaga - Espanha. Lembro-me que a realização estava a cargo de um gajo demente, sem qualquer protecção, que percorreu todo o trajecto acidentado, perigoso, com uma câmara de vídeo na mão. Lembro-me de ter ficado colado à cadeira como se disso dependesse a minha vida, e não fosse cair os míseros 60cm que me separavam do chão. Lembro-me de ter dito qualquer coisa como "ora aí está uma das 10 coisas que quero fazer antes de morrer!"

Apesar das vertigens que assumidamente tenho, que não são mais do que distúrbios da mente, sempre tive o secreto desejo de percorrer aquele pedaço de trilho, podre, perigoso e estupidamente alto. Relatos, sites, youtube... tudo foi lido. Depois começaram a aparecer os relatos dos Tugas que já se tinham aventurado, e a vontade de lá ir era cada vez maior. Seria um chamado? Eu já há muito tempo que congeminava um ataque com a malta do costume...

Em Junho aparece uma ideia peregrina: ir ao MegaEvento de Lloret del Mar e com uma "surpresa". Este podia ser o empurrão necessário para avançar. Os "peregrinos" aparentemente só queriam cheirar, e o evento seria o objectivo. Os malucos que estavam comigo preferiam o inverso e começou então o desenho do plano. Levar carro? Acampar? Alugar equipamento? Tirar férias? Toda uma logística que nos daria uma carga de trabalhos durante os próximos tempos.

Não se esperava porém que Lloret del Mar ficasse tão longe de Malaga. Isto daria um verdadeiro contra-relógio, muitas horas ao volante e provavelmente um desfrutar relativo dos amigos, das paisagens, da aventura... estamos habituados a fazer a coisa como deve ser! Projecto cancelado, tinha sido encostado para canto temporariamente.

Mas a ideia e vontade continuava lá. Era preciso encontrar alternativas, era preciso arranjar vontade e tempo (aquele que não se controla). E se fossemos ao Camino e ficássemos por Sevilha também com visita à Isla Mágica para descompressão da Adrenalina de andar em escarpas acima de 100m de um rio pouco fundo? E tal fénix, o projecto renasce, agora com mais força para ir em frente. Pelo menos eu estava determinado em leva-lo até ao fim, apesar de alguns avisos relativos à incerteza do estado do tempo no mês de Outubro. A data, pois a data. Essa manteve-se da ideia original... vindos de um casamento ao estilo GeoWedding, nada melhor do que tirar umas férias e ir com os amigos, aqueles a sério, terroristas com A maiúsculo. Bendito feriado a meio da semana.

Começou a maratona. Tínhamos o plano, faltava tudo o resto. Quantos íamos? É logo o primeiro problema à partida, pelo que se lançou o convite e definimos a data limite. 9? Perfeito, aluga-se uma carrinha e vamos todos juntos, sem preocupação com pneus, revisões e afins. Alojamento? E que tal uma casa, um HQ para as 3 noites, num local mais ou menos central entre El Chorro e Sevilha? Done... tínhamos uma casa para 9 pessoas, completamente equipada, e com uma piscina que fez as nossas delicias depois do stress do camino del Rey. Logisticamente só faltava mesmo o material de segurança. Um kit composto por capacete, harnes e cordelete. Para evitar ir mais espaço ocupado no carro, acabamos por alugar grande parte numa loja da especialidade em El Chorro. Estava tudo pronto para a aventura, faltava agora só a colaboração da meteorologia

Dia de viagem até Moron de La Frontera, HQ definido por nós, começou bem chuvoso em Portugal. Apesar de a ideia inicial ser sair às 8h, com o transito e acidentes que ocorreram por cá, eram 10h quando finalmente nos fizemos à estrada. Pelo caminho fomos parando apenas nas One4theRoad da A25 e A23. Era mesmo a desculpa ideal para esticar as pernas, pois animação não faltava dentro da Transporter. Esta carrinha tinha sido alvo de um ritual Voodoo, mas a verdade é que o único problema que nos apresentou nos 2300km foi a manete da janela traseira... uma pena!

Depois de Almoçar em Castelo Branco, definimos que pararíamos em duas caches até Elvas, e aí poderíamos visitar os fortes. Depois de mais uma One4theRoad, paramos na Earthcache do Cogumelo, na Senhora da Penha em Portalegre, e seguimos nonstop até Elvas, passando pela sempre simpática Arronches que ainda não tem caches! Chegando a Elvas, a única cache que faltava a todos os membros desta comitiva era o Forte da Graça, pelo que decidimos ser o primeiro ponto de paragem. Em boa hora o fizemos... que local fantástico. Estivemos por ali uma valente hora, que não tomamos em nada por perdida. O interior do forte é fantástico e carregado de história, quase labiríntico, permite-nos fazer ali uma bela pausa para descobrir o nosso passado. Vi-mos cada uma das casernas, cozinha, masmorras, serralharia, refeitório, alto do posto de comando... vistas fantásticas sobre a planície alentejana. E, Badajoz já à vista... Descobrimos até uma porta no chão que nos levaria aos corredores inundados do forte do qual apenas descemos as escadas, sob pena de ficar molhado até à cintura. O eco que ali se conseguia reproduzir era fantástico. Foi unânime: a cache do dia! Ah, e ainda não tínhamos encontrado o container, que naquele lugar era mesmo o secundário. Se o espaço podia ser aproveitado, reformulado, etc? Podia, mas não era a mesma coisa!



Com tudo isto, o dia começava a fugir-nos. Visitamos o Aqueduto e mais uma fortificação, e decidimos avançar mais uma vez de forma nonstop até Sevilha onde jantaríamos... mas... ainda faltava mais de 2horas de viagem, e aquelas estradas em Espanha são muito estranhas. Certamente chegarão multas para pagar à minha caixa de correio, mas como é possível fazer 300km em auto-estrada com uma Transporter e não ser quase nunca ultrapassado. Os espanhóis cumprem criteriosamente os limites de velocidade. Já perto de Sevilha, o dono da casa ligava a pedir que nos despachássemos, afinal de contas o fuso horário tinha mudado e acabávamos de perder uma hora ao passar a fronteira. Adiamos o nosso jantar, e acabamos por chegar às 23h espanholas a Moron de La Frontera, onde recebemos a chave e fugimos em busca de um local onde fosse possível comer ainda. Encontramos, a 10min da meia noite, um Chino, que não negou um prato de sopa ao Délio, e muito mais comida gordurosa aos restantes. Apesar de tudo, tínhamos ganho o dia. Tínhamos jantado, já estavamos no HQ, e tínhamos ali uma cache no castelo para a digestão! Perfeito... e para mais perfeito ainda uma partidinha de pingpong, bilhar e cama - amanhã seria o dia D!

Dia 2 - Dia D

O despertador tocava cedo. Não é que tivesse dormido muito, mas pelo menos não custou a adormecer, nem mesmo a ansiedade de vencer o medo às vertigens, ou conquistar provavelmente a aventura da minha vida. O dia anterior tinha sido farto em kms percorridos. Hoje esse capitulo seria mais soft, mas esperava nos emoções fortes, a todos os níveis.

Os 120km que separavam Moron de La Frontera de El Chorro não eram propriamente só Autovias, então custou a chegar lá. Mas a certa altura a paisagem começava a mudar radicalmente. As planícies davam lugar a grandes penhascos e que certamente no nosso rectângulo à beira mar plantado, estariam referenciados com um tupperware. Por cá não, e conseguimos ir até El chorro sem que o radar se manifestasse. E assim como que de repente, já a poucos kms do ponto de paragem, a visão que todos ansiavam... a garganta de El Chorro, e as plaquinhas horizontais que formavam o Caminito del Rey. A ponte como referência e a hidroeléctrica em baixo. Já por lá andava alguém. Avançamos rapidamente para resgatar o equipamento que já tinha sido apalavrado anteriormente para aluguer. Os horários de almoço e sesta são uma anedota... o que vale é que depois também trabalham até mais tarde.

Carro estacionado junto da entrada da Hidroelectrica, surgiram aquelas dúvidas fantásticas de quem está a menos de 500m de um ponto, mas não sabe como alcançá-lo. Se do outro lado do rio parecia haver estrada até à central, a verdade é que o acesso estava cortado. Já para não falar que no meio do percurso, parte da estrada estava abatida... por este lado tudo abate?

Enquanto preparavamos o material chegou um casal, que aparentemente ía ao mesmo que nós, pelo que um dos nossos relações publicas saca do seu melhor portinhol para perguntar como se alcançava o Camino del Rey... e a resposta veio em tuga. Um Português que estava em Marbelha e que todos os anos faz o caminito del Rey. Ficamos alguns minutos à conversa a trocar algumas dicas... Já quando levantamos o material na loja de material de escalada, quando perguntamos pelo camino a resposta foi "Peligroso"... estes camaradas acharam é que não estariamos demasiadamente preparados para enfrentar o desafio. E seguimos caminho, animados, mesmo com o bota-a-abaixo.

O caminho é curto, mas quase sempre a subir, e com uma passagem técnica junto à linha do comboio. Era altura de apreciar a paisagem e tirar a foto necessária para o log na EarthCache. Começamos aqui a instalar o equipamento, enquanto os conterrâneos que encontramos lá atrás já íam começar o caminho logo ali perto da Ponte. Como o terreno foi deitado abaixo pelas entidades competentes, de forma a evitar que qualquer pessoa se faça ao caminho, o inicio agora é feito através de uns grampos espetados na parede, onde as passadas necessárias para progredir podem assustar qualquer pessoa com menos de 1,80m. Decidimos que não iriamos começar pelo inicio certamente, e o melhor era mesmo avançar ao longo dos túneis, encontrar o fim do caminho e fazer o percurso até onde era possivel. Possivel era fazer de forma circular, mas não para 9 gatos pingados que a única experiencia semelhante com escalada fora uma descida de espeologia ou um caminho estreito algures na lousã.



Caminhar numa linha de comboio activa é sempre algo que incomoda um pouco. Quando eles passavam faziam questão de mostrar que estavamos ali a mais com sonoros apitos. Entre tuneis existiam verdadeiras varandas com vistas previligiadas para o que teriamos de percorrer. Aquilo é de facto algo assustador, como que tirado de um qualquer postal vendido numa loja de souvenirs. Mas antes de iniciar o percurso era necessário descer 100m, passar um rio e voltar a subir mais 100m. O plano era inclinadissimo, mas não era aquele o desafio... feito com a entre-ajuda que caracteriza o nosso grupo, e até no rio com mais meia dúzia de pedras se conseguiu construir uma espécie de ponte. Claro que nem todos acreditaram no engenheiro e preferiram descalçar as botas e sentir a água turva que por ali passa.

Estávamos no inicio do caminho. Já sabíamos à partida que nem todos iniciariam a jornada, mas outras desistências custaram mais. Não consegui, talvez pela primeira vez, seguir uma das velhas máximas que guardo para o grupo que me acompanha - "No men left behind". Por esta razão não terei tirado todo o proveito que aquele local e desafio podia oferecer. Só queria ir "picar o ponto", marcar o objectivo como concluído e regressar. E assim fui avançando, calmamente, com vistas fantásticas quase a 360º... isto porque olhando para cima da parede que circundávamos, as "covas" e as rapinas que se avistavam tornavam todo o cenário fantástico.

 

O primeiro pensamento que se tira é que o video é mesmo ilusão de optica por duas razões: as paisagens são muito melhores ao vivo; o percurso não é tão dificil como realmente parece. Algumas passagens técnicas mas nada de terrivelmente díficil. A linha de vida que acompanha ao longo de quase todo o percurso transmite a segurança necessária para que se avança sem grandes tremeliques. Passamos por outros caminheiros, por malta que fazia escalada, por buracos que facilmente cabia uma pessoa, fizemos equilibrismo em barras a 100m de altitude, e quando já apanhavamos o gosto pela adrenalina a correr nas veias, tínhamos chegado ao que para mim era o verdadeiro objectivo - o viaduto! A partir daqui eu só queria ir buscar a malta que ficou para trás, pois era possivel ir até lá pelo tunel. Ainda dei um passo para avançar um pouco mais além do viaduto, mas o vento forte que se fazia sentir empurrou-me, e eu aceitei o sinal. O Nandini e Octávio estavam com a pica toda e fizeram os últimos 100m possiveis. Eu e a Rute regressamos, agora com um nível de confiança bem mais alto. Os mosquetões eram mal apertados, os obstaculos eram passados quase sem olhar para trás, e eu continuava a filmar com o meu telemovel pendorado na presilha das calças... escusado será dizer que ficou um belo trabalho, que nem trabalho de edição salva. Para o ano, quando regressar, trago uma Helmet Cam!

Estávamos de novo no ponto de encontro, e a malta que não nos acompanhou já estava junto do rio. Ainda lhes gritei para subirem, que pelo tunel lá chegariam, mas aparentemente não me ouviram. Frustação foi o que senti uma vez mais, e lá fui ao seu encontro ravina abaixo. Descansar, descomprimir e esperar um pouco pelos mais aventureiros que foram um pouco mais à frente. Dali, só foi necessário passar novamente o rio, subir a ravina (com operação de resgate de alguém que estava a inventar largo pela parede) e reunir de novo toda a equipa. A visão agora à medida que avançavamos, era um olha no canto do olho com a sensação de conquista. Provavelmente será uma aventura louca de uma vida. As mentes sãs não se metem à estrada para passar aqui 4horas e ir embora de alma limpa! Mas agora é preciso definir novos objectivos, e ficou a vontade de regressar com outras metas.

Regressamos ao carro e fomos devolver o material e beber água da fonte. A água de Espanha é do pior que há, mas naquele momento até serviu para refrescar. Era altura de almoçar, ou como quem diz jantar, e acabamos o dia num restaurante em El Chorro. Eram para lá das 18h, tínhamos fome, a ementa era cara, mas as doses eram para duendes e para as muitas abelhas que apareciam. Nas nossas costas uma paisagem arrebatadora, que foi ficando escura quando o sol se escondeu. Era altura de regressar ao HQ, onde quase todos adormeceram pelo caminho. Mas à chegada, ainda houve energia para um mergulho nocturno na piscina.



3 comments

  • Comment Link António Soares 14 October 2010 surikatas

    Adorei ler toda a vossa aventura, e como um Geocacher bastante conhecido aqui do Norte costuma dizer "Já estou com um formigueiro debaixo dos pés..." ;-)

    Um dia destes lá terei de visitar o local.

  • Comment Link prodrive
14 October 2010 prodrive

    5 estelas!! Adorei o relato e serviu para espicaçar o bichinho de um dia fazer este percurso.

  • Comment Link Joaquim Safara 14 October 2010 jasafara

    Belo relato de uma aventura que ainda espero viver antes de ficar muito trôpego...

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