08de Agosto,2020

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ValenteCruz

ValenteCruz

Saturday, 18 January 2020 17:00

Geografia Sentimental

Ainda no rescaldo do aniversário fui soprar as velas do tempo para a montanha, a minha geografia sentimental. A escolhida acabou por ser a serra da Arada, seguindo e reinventando o trilho Maia, entre as aldeias de Covas do Monte, Covas do Rio e Pena. A primeira paragem foi no vertiginoso Portal do Inferno. Há precisamente oito anos criei ali uma casa para troca de livros em jeito de Crónicas da Terra Ardente. Quatro livros ainda resistem à solidão e à humidade. Nesse dia plantei também ali uma árvore, entretanto desaparecida, seja porque o Inferno não é um bom sítio para árvores ou porque as cabras lhe roeram a vida.

Saí do Portal e fiz-me à corrida. Atravessei o mínimo de alcatrão que o plano exigia e iniciei a descida pela vertente oeste para a Pena. Pelo meio recordei no local onde há alguns anos atrás andei à procura de lousas de xisto para enfeitar o jardim lá de casa. Passei de soslaio pela aldeia e prossegui em busca do mítico Caminho Onde o Morto Matou o Vivo. O nome do percurso tem origem num episódio duplamente infeliz. Há décadas atrás, devido ao facto de a Pena não possuir cemitério, os habitantes tinham que levar os defuntos para Covas do Rio. Certo dia, e como o percurso inicial é muito íngreme, um homem escorregou e o caixão caiu-lhe em cima, matando-o. Mas os mortos não contam histórias e os vivos tentam resistir ao abandono como podem.

Misteriosamente, alguém começou a espalhar bonecos por este caminho e outros foram surgindo entretanto. Desconheço o motivo, mas a ideia pareceu-me ótima, tanto que também por lá deixei alguns. No cimo do vale de memórias, as fragas adensam-se numa livraria geológica de suster a respiração. Lá no fundo, entre as sombras, o ribeiro galga a penedia melancólica por entre a vegetação exuberante. Fiz e refiz metade do caminho. No regresso subi ao topo da fraga do lado esquerdo do ribeiro da Pena, onde almocei com a melhor panorâmica da zona, do alto da livraria geológica. As vistas são tão fantásticas quão vertiginosas!

Fui depois em busca do trilho que desce do pico para Covas do Rio. Escondido e esquecido pelo tempo, ressurgiu com a limpeza protagonizada no contexto das provas de corrida em montanha. Logo depois de um início calmo e de vistas largas, o trilho mergulha numa inclinação bastante acentuada até que a encosta se revela domesticada pela praga das plantações de eucaliptos. Passei de relance junto ao rio e iniciei a monótona subida pelo estradão para Covas do Monte. Valeram as progressivas vistas generosas sobre o vale.

Já com a aldeia comunitária no horizonte apanhei um novo trilho que me guiou pelo tempo e fui encontrar Covas do Monte como se tivesse regredido dois séculos, com as suas ruelas estreitas alcatroadas pelo dejectos das cabras. Acabei por apanhar o regresso dos animais do monte, que o fazem de forma autónoma num instinto consentido, e tive de esperar o escoamento do trânsito.

Passei a aldeia e iniciei a espetacular subida para o Portal do Inferno. O sol já se tinha escondido e o ribeiro seguia manso e bucólico, pouco importado sobre as voltas do mundo. Os últimos temporais fizeram alguns estragos, partindo os velhos troncos dos castanheiros que guardam os rebanhos. A subida técnica e acentuada provocou também alguns estragos, lembrando-me que a montanha não se compadece com uma forma física adocicada por bolos e festas.

E assim se festejaram 39 anos, entre a solidão consentida da montanha, passando como uma brisa ténue, onde o tempo tem um ritmo diferente e paisagem parece ser eterna.

 

Recomeça....

Se puderes

em angústia

E sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...

(Sísifo, Miguel Torga)

 

 

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Sunday, 27 October 2019 19:15

Caminito del Rey

O Caminito del Rey é um percurso espetacular com cerca de 8 km que acompanha um canal de água sobre o rio Guadalhorce, cravado em desfiladeiros, perto de El Chorro, Málaga, Espanha. O caminho vertiginoso foi criado para facilitar o acesso à hidroelétrica construída a montante do desfiladeiro, tendo sido inaugurado pelo rei espanhol Afonso XIII em 1921. Desde então, após décadas de abandono, as estruturas ficaram degradadas e o caminho transformou-se num ícone para atividades radicais, sendo considerado um dos mais perigosos do mundo.

Este caminho foi um projeto adiado durante demasiado tempo. Há cerca de 10 anos passamos pela região e ficamos a conhecer a sua existência, mas sem material de segurança a aventura não era obviamente viável. Fomos depois adiando algumas idas com colegas. A partir de 2015 deixou de ser possível percorre-lo na sua versão original, pois foi recuperado. Curiosamente, esta foi também a principal razão para nos convencer que não poderíamos continuar a adiar a visita.

Em rota pelo sul de Espanha, após uma estadia na encantadora Ronda, seguimos para o desfiladeiro. Sendo um percurso linear, é necessário pensar o regresso ao local de partida. Sugere-se a utilização do autocarro disponibilizado pela organização. Em boa hora, optámos por deixar o carro no final do percurso, El Chorro, e seguimos de autocarro para o início.

O percurso divide-se em várias partes. Depois de uma caminhada com cerca de 2 km até ao posto de controlo, contorna-se a represa e entra-se no desfiladeiro Gaitanejo. O passadiço serpenteia nas encostas vertiginosas dos penedos gigantes. Tudo é espantoso e digno de registo; o mais difícil é mesmo conseguir que a paisagem abissal caiba entre as quatro linhas da fotografia. Segue-se um percurso plano pelo vale escondido, avançando então para o fabuloso desfiladeiro Gaitanes, com passagem por chão em vidro sobre o abismo e a ventosa ponte Colgante. Na outra margem, a linha de comboio vai acompanhando a nossa viagem. Após a vertigem, o final está à distância de um quilómetro calmo.

O percurso é avassalador, agora menos radical e mais seguro. Qualquer relato ou fotografia ficará sempre aquém da sensação de o viver. Tendo em conta a procura elevada, especialmente durante os períodos de férias, o melhor é tratar da reserva com antecedência. Qualquer dúvida, pela Internet existem inúmeros sites com boas dicas para programar a experiência. Boas vertigens!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

Tuesday, 08 October 2019 17:00

Era uma vez o Oeste

A visita ao Deserto de Tabernas (Almeria, Espanha) era um argumento adiado há demasiado tempo. Este verão, numa rota ao sol com sabor a flamenco, finalmente fomos conhecer o palco que desde a segunda metade do século passado tem servido de palco natural para o cinema western. Foi ali que Sergio Leone filmou boa parte da mítica Trilogia dos Dólares (Por um Punhado de DólaresPor Mais Alguns Dólares e O Bom, o Mau e o Vilão) ou  Aconteceu no Oeste. Foi ali que também decorreram filmagens de outros filmes emblemáticos, como Lawrence da Arábia ou Indiana Jones e a Última Cruzada.

O deserto de Tabernas não é bem um deserto, mas quase. Pode não ter a imagem de dunas sobrepostas até ao horizonte, mas a alta temperatura média, a baixíssima precipitação e as largas horas de sol criaram ali um clima seco que garantiram a este espaço árido a nomeação para raro semideserto da Europa.

Existem sobretudo duas versões para conhecer este deserto: a turística e a aventureira. Pela turística podemos desvendar um dos parques temáticos dedicados ao cinema western: Texas Hollywood – Fort Bravo, Mini Hollywood – Oasys ou o Western Leone. Nós acabamos por escolher o primeiro, que se mantém ainda hoje como um local de filmagens (o último filme ali rodado foi Os Irmãos Sisters). Este parque pareceu-nos o mais equilibrado, considerando os motivos de interesse e o realismo histórico. Para além da visita às inúmeras construções e passeios a cavalo, existem sessões diárias em que é encenado um assalto ao povoado pelo melhor estilo do oeste selvagem, numa luta cine-eterna entre bons e maus.

Depois da visita ao parque temático fomos em busca da aventura no deserto. O objetivo era descobrir um antigo set de filmagens (GCE865). Tentámos levar o carro o mais próximo possível e prosseguimos depois a pé pelas linhas esquecidas da paisagem. Já terão passado tantos anos desde as últimas filmagens que o local sucumbiu ao abandono. Subsistem as ruínas e um certo encanto secular. Ao longe, nas linhas disformes do horizonte árido, o vento vai sussurrando os temas de Ennio Morricone. Depois, o futuro chegou, uma autoestrada atravessou o deserto e Era uma vez o Oeste.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

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