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sunrise@CântaroMagro_21 Featured
14 August 2021 Written by 

sunrise@CântaroMagro_21

Num ano em que a paternidade redefiniu as prioridades, o sunrise@CântaroMagro_21 foi adiado do habitual período de solstício de verão e considerado apenas mediante disponibilidade. O alinhamento celeste acabou por permiti-lo no primeiro dia de agosto. Dadas as circunstâncias e o contexto de pandemia, e já depois de no ano passado este nascer do sol ter tido uma versão familiar, desta vez surgiu a possibilidade de concretizar a vontade antiga de uma versão solitária.

Como habitualmente, e para aproveitar a ida à Estrela, o dia de sábado serviu para fazer uma caminhada pela serra. Comecei na Torre e segui pela cumeada da Alvoaça, descendo depois para Alvoco. Durante a tarde fiz a subida de regresso à Torre pela Rota do Pastoreio, repisando a mítica aventura da Oh Meu Deus – Ultra Trail Serra da Estrela. O dia terminou tal como tinha começado, com muito vento e um nevoeiro sebastiânico.

Ainda na Torre, enquanto fazia contas ao desânimo, tornou-se óbvio que com aquele tempo não fazia sentido ficar para o nascer do sol. Não obstante, antes de regressar a casa teria sempre de passar pelo Cântaro Magro e, se viável, subir ao seu cume. Foi então que a serra mostrou, mais uma vez, as suas especificidades meteorológicas. Ao chegar ao estacionamento do cântaro percebi que o nevoeiro apenas dominava a metade poente da serra. A partir da depressão do Covão Cimeiro o nevoeiro esfumava-se, como se algo tivesse erguido ali uma barreira invisível. Com o horizonte nascente pintado de azul, reformulei o plano e preparei-me para a estadia.

Mesmo depois de várias subidas continua a ser impressionante contemplar e vencer a sensação de inacessibilidade que se tem do estacionamento. Parece que é impossível lá chegar, mas basta saber como. A subida ao Cântaro Magro decorreu sem sobressaltos, palmilhando o trilho escondido, num reencontro entre o granito do maciço e as mãos. Lá em cima fui percorrendo calmamente os recantos e as memórias, nomeadamente na revisitação ao manuscrito d’O tempo inquieto. Desta vez não tive direito a por-do-sol, mas a visão do mar de nevoeiro a descer em farrapos de nuvens sobre o Covão Cimeiro foi igualmente fascinante.

Após um jantar reconfortante falei com as princesas e brindei à vida no pico do cântaro. A noite caíra entretanto, mas o quarto minguante lunar ainda permitia ver com alguma clarividência. Aliás, não cheguei a usar luz artificial durante todo o tempo que lá estive. Devido ao vento forte, a sensação térmica aproximou-se dos zero graus centígrados, pelo que foi importante ir preparado. Deitado sob um manto infinito de estrelas aproveitei então para descansar. Porém, o corpo estranhou a dormida e passei a noite num sono leve, divagando pelo prazer da experiência, abrir os olhos e contemplar o céu estrelado.

Acordei às seis horas, peguei na máquina e segui para o pico rochoso. No horizonte rubro subsistia uma tira de nuvens um pouco acima, mas a zona onde o sol haveria de aparecer estava liberta. Um vento frio assobiava no cume serrano e aproveitei para me resguardar um pouco, enquanto ia registando os momentos. O sol aparece todos os dias e em todo o lado, mas ali é diferente. O momento é verdadeiramente mágico e transcendente! Após ter surgido inteiro, o sol escondeu-se na tira de nuvens e reapareceu depois em definitivo. Foi tempo então de arrumar as coisas, despedir-me do Cântaro e voltar a casa.

Com esta experiência solitária fechei um ciclo de dez anos a ver nascer o sol no topo do Cântaro Magro. Começou como uma experiência reservada para servir de inspiração, passou por um evento em que estiveram presentes até cerca de oitenta pessoas (o que levanta várias questões, dúvidas e ansiedades) e transformou-se em algo identitário, como se fosse uma necessidade intrínseca. Fica a vontade de regressar em cada ano e a perspetiva que volte a ser algo mais reservado. Dez anos depois, creio que o primeiro dia do ano no meu mundo passou definitivamente a ser este nascer do sol. O deste ano foi ainda mais especial pela paternidade, que embora longe estava ao alcance da primeira luz, sob o brilho do melhor lado da vida e do sonho. E assim se passaram dez anos a ver nascer o sol no Cântaro Magro.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

   



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