20de Abril,2021

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PauloMelo

PauloMelo

Wednesday, 25 December 2019 17:00

Etiópia. Dia 2. Blue Nile Falls

Acordei tarde porque dormi mal. Vi mal a hora do avião para Bahr Dahr e mesmo assim o tempo era curto. O pessoal do hotel assegura o transporte por um valor razoável: 150 Birr. Bem porreiro. Pronto, mais umas travessuras ao volante para enfrentar o trânsito, uma barbaridade. Nada de super impressionante, que deixe mesmo uma pessoa arrepiada, mas é violentozinho.

Foi a chegar ao terminal que vi: o voo não é às 12 horas. É as 10:20. E são 10:35. Pronto, agora é comprar outro para mais tarde, esperando que ainda os haja, porque já tenho as coisas combinadas para esse dia.

Ah mas há milagres sim senhora. O voo estava bestialmente atrasado, e para cúmulo dos cúmulos remarcado precisamente para as 12:00. Sou ou não sou um visionário!?

Passou-se o tempo, chegou a hora e agora sim, seguiu. Uma hora de voo tranquilo, tudo bem. Chegada a um aeroporto tranquilo e pequeno, lá fora um amigo à espera com um cartaz com o meu nome. Lá nos levou para a estação de autocarros.

Agora sim, a Etiópia. Exótico. Na estação compra-se os bilhetes de fora, a pessoas que lançam os braços de dentro de janelas com grades de alvenaria. Assim que saio do táxi sou rodeado por gaiatos, mas sem problemas, só querem ver se podem vender a sua ajuda a transportar bagagem e logo se desiludem. Mas simpáticos, a indicar logo a janela correcta. Bilhete comprado, malta boa onda, sempre a perguntar o destino e a indicar o autocarro certo.

Aqui funciona o sistema de saída quando fica cheio. Demorou um bocado. Muito para observar. As pessoas vão-se acomodando. Agora está repleto, mas há sempre os preparativos, bagagem para o tejadilho as discussões mais ou menos acaloradas cuja língua, indecifrável, cobre com um manto de mistério. E pronto, lá fomos.

São poucos quilómetros. Talvez uns trinta. Mas a estrada de terra batida é um campo de lavra e eu, parvo, sabendo o que sei, fui-me sentar sobre a roda, o pior lugar de todos para uma massagem destruidora de coluna. O meu pensamento flui para o o Panamá e de como um tratamento destes me deixou maltratado durante semanas numa fabulosa viagem de Portobelo para Colón.

Muito interessante todo o caminho, feito daquele fascínio por vidas diferentes. E logo no início da viagem, quando domina aquele ponto de interrogação, e só foi pena que com os buracos não pudesse recolher umas imagens. Terão que ficar nesta muito falível memória.

À chegada a Tiss Abay, também conhecida como Tississat, fiquei um bocado chateado: era suposto o tipo do sítio onde ia ficar ir-me esperar, ou pelo menos mandar alguém, mas afinal o que tive que fazer foi pagar algum a um conhecido dele que ainda por cima ficou chateado com a quantia, que era exactamente a que o hospedeiro me disse para dar.

Mas valeu a pena. O lugar é o paraíso. Estou mesmo ao lado das cataratas do Nilo Azul. O barulho está lá, mas não é ensurdecedor, dorme-se bem, e com tampões de ouvido então não se ouve nada. Mas já lá vamos…

Tenho uma cabana de lama para mim, e o local é uma maravilha. Está-se bem. Há turistas, vejo-os subir a encosta do outro lado do canyon. É tempo de relaxar. Há pássaros que é uma coisa louca. Para observar, de tantos tamanhos e cores garridas.

A queda, propriamente dita, é mesmo aqui por detrás. Acho que faz parte da propriedade do local onde estou. Blue Nile Camping. O camping é possível mas para já é mais cabanas e só está cá uma moça eslovaca.

Começa a chover. Estou dentro da cabana a ouvir a chuva a cair. Pouco depois pára. O dia está a chegar ao fim. Tenho uma hora antes de cair a noite. Um passeio bom. O local é lindo, há que atravessar uma ponte suspensa, passo por um pastor que toca flauta enquanto faz companhia às suas seis vacas e me sorri.

Vejo a cascata de vários ângulos, a luz está magnífica. Ainda queria chegar à ponte portuguesa que neste meio de nenhures foi construída pelo nosso povo no início do século XVII a pedido da autoridade local. Mas a escuridão estava a chegar e o retorno foi forçado por esta circunstância. Foi contudo um passeio que me lavou o espírito.

No “acampamento” jantei e gostei. Um serão agradável, com boa conversa.

 

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Wednesday, 11 December 2019 17:00

Etiópia. Dia 1. Addis Abeba.

O dia até começou bem, muito bem, tão bem que nem imaginava que ia descer depois tão baixo. Calma. Não aconteceu nada de mal, assim, abertamente mal, mas…

Bem, mas voltando ao início. O voo foi bom. Como ia quase vazio toda a gente encontrou uma série de assentos vazios que foram transformados em cama e eu fiz o mesmo, dormindo assim umas três horas, que foi um luxo.

Aterrar também foi bom, tão bom que digo já: nunca vi uma coisa assim, o comandante colocou o avião no chão sem que desse por isso. E não estou a exagerar. Não é figurativo. Parece milagre, se calhar foi. Estávamos a perder altitude, normal, quase a tocar a pista, quase a tocar a pista e já não era possível estar ainda quase a tocar a pista, o avião rolava mesmo. Uma coisa fabulosa.

Depois continuaram as coisas boas. Após a melhor aterragem da minha vida – e nem vou dizer “até agora” porque é simplesmente imbatível – seguiu-se o aeroporto mais amigável, agora sim, até agora. Uma coisa louca. Uma pessoa vai pelos corredores e se hesita numa viragem logo um funcionário simpático aponta a direcção certa. E depois vem o controle de passaportes. Nem uma pessoa à espera. Chegar e ser atendido. E de que forma! A rapaziada da polícia de fronteira parecia mais estar numa festa de reggae. Boa disposição e descontracção. A melhor aproximação que tinha tido a isto foi na Síria.

Depois troquei dinheiro, também muito boa onda, câmbio certinho, gente simpática. E depois começaram os pequenos problemas. Devia usar a Internet para avisar que já tinha chegado. Mas a Internet do aeroporto não funcionava como devia. Mais simpatia: as senhoras do escritório fazem o telefonema para mim.

A caminho do hotelzinho. Trânsito caótico, noite mal dormida. A má disposição chega. Nada de especial no hotel. Nem bom nem mau, mas é longe, isolado e para piorar, começa a chover. O cenário estava a ficar negro para o meu estado de espírito. Nem a soneca tirada logo à chegada tinha ajudado muito.

Antes da chegada da noite um pequeno passeio. A ideia era comprar um cartão para o telemóvel. Mas não houve sucesso. Só piorou o meu estado de espírito. O bairro é a puxar para o depressivo. Ou será a cidade?

Dormir foi complicado. Por uma simples razão: altitude. Adis Abbeba está a 2.400 m e acabado de chegar não consigo respirar bem quando estou a dormir. Tenho esta chatice, o meu corpo não lida nada bem com altitude. Acima dos 2.000 m já sei que vou ter problemas respiratórios. Nada de grave, mas acontece. Caminhar, especialmente a subir, faz-me respirar mais depressa. E mesmo a dormir, acordo algumas vezes ofegante, a necessitar de inspirar profundamente.

 

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Wednesday, 20 November 2019 17:00

Argélia 2018 – Dia 8

À hora agendada toca o despertador e não é agradável. Lá fora ainda é de noite. A mochila estava pronta de véspera, saímos rapidamente para a rua. É preciso comer qualquer coisa, pergunto ao Bilel se há algum local onde se possam comprar uns croissants. Não no habitual lugar dele, esse abrirá mais tarde, mas leva-me a um sitio que aquela hora em que o dia começa a clarear está cheio à pinha de homens que tomam o pequeno-almoço.

Desenvencilho-me com a barreira linguística e compro uma sacada de croissants para comer imediatamente mas também para a viagem que se adivinha longa. Regresso ao carro e logo estamos na estação ferroviária.

Bilhetes comprados com a ajuda do Bilel. Não foi caro. A viagem deverá demorar umas seis horas mas já se sabe que nunca acontece. Serão mais, quanto mais é que é a incógnita.

A composição já acorda na plataforma. Vagão de primeira classe, sem lugares marcados. Escolhemos um, mas como está vazio logo nos estamos a expandir para outras opções. Os assentos têm tomada eléctrica mas não funciona. Em nenhum deles. Apenas uma saída de baixa amperagem pode alimentar o telemóvel.

À hora certa o comboio parte. Anda muito devagar. Mais para a frente o ritmo melhorará mas para já o andamento é lento. Irá parar pouco, ao longo da viagem, considerando a extensão do percurso. A paisagem é relativamente monótona. Campos tipicamente mediterrânicos e por vezes cidades e montanhas que se avistam ao longe. Devo confessar que foi uma certa decepção. Costumo observar atentamente, horas a fio se for caso disso, as paisagens que me são mostradas pelas janelas de autocarros e comboios. Mas aqui rapidamente me aborreci e me deixei ir para outras actividades.

A coisa mais animada das oito horas e tal que estive no comboio foram as discussões. Uma mulher mais velha sentada lá para a frente arranjou problemas com muita gente, e quase batia nos revisores.

O comboio foi enchendo. Uma segunda vaga de revisores fez uma série de passageiros mudar-se para a segunda classe. A mulher, mais uma vez, armou uma peixarada e ninguém  conseguiu mover.

Os mantimentos foram suficientes para me manter de estômago composto, mas em princípio, se tivesse surgido a necessidade, havia um café-restaurante na composição.

Passamos por uma área onde parece que existe actividade, ou pelo menos presença, de fundamentalistas islâmicos e onde se recomenda alguma cautela a viajantes ocidentais.

Já nos aproximamos de Argel, nota-se a densidade demográfica a intensificar-se.

Chegamos. A meio da tarde. Tinha reservado um quarto num apartamento AirBnB e… é literalmente do outro lado da rua da estação. A localização não podia ser melhor, mesmo para gastar mais algum tempo a passear pela interessante capital argelina.

O proprietário, um arquitecto inglês que trabalha no país há muitos anos, não estava, mas deixou a chave debaixo da porta. Adorei ali ficar, apesar das primeiras impressões não terem sido muito boas. Era um edifício tipicamente colonial com uma lindíssima varanda sobre a rua… e como era o último andar, via-se muita coisa.

O tempo estava excelente, céu predominantemente azul, boas temperaturas. Saímos para comer, pois claro, no sírio. E para passear, rever locais já conhecidos e que já deixavam saudades.

Estivemos com o Abdou ao serão, uma visita em sua casa, que desejaria curta porque estava cansado mas que se alongou com muita conversa. Quando regressámos o inglês não estava em casa mas tinha-a limpado de forma imaculada e a minha impressão do alojamento melhorou muito. Dormi bem! Última noite na Argélia.


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