23de Fevereiro,2017

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ValenteCruz

ValenteCruz

Sunday, 12 February 2017 10:00

Rio de Frades

O lado inóspito e a panorâmica mineira abandonada conferem a Rio de Frades (Arouca) o cenário perfeito para aventuras do tamanho da nossa imaginação. Existe um lugar em particular que de tão idílico, parece irreal. O Poço Oito sustenta um encanto arrebatador de paraíso perdido que nos transporta para um mundo paralelo de beleza ímpar. Como se fosse a cereja no topo do bolo da aventura, a cascata inferior revela um segredo misterioso que apenas os olhares mais atentos e as almas mais atrevidas conseguem descortinar. É, sem dúvida, um paraíso da Natureza!



Localização: N 40° 52.163 W 008° 11.409

Percurso: track.

Sunday, 05 February 2017 10:00

Trilho dos Abutres

Depois da Freita e da Estrela, a Lousã foi o palco para minha terceira prova de trail running. A escolha da prova acabou por ser natural, no famoso Trilho dos Abutres. Porém, a inscrição nesta prova está longe de garantir a participação, uma vez que a procura excede em muito a oferta. Numa primeira fase fui excluído da seleção, mas acabei por ser repescado numa prenda de Natal antecipada, que mais uma vez agradeço. Quando recebi a notícia tinha acabado de me sentar para um almoço à moda do Porto, francesinha e caneca de cerveja. Tinha então pouco mais de um mês de preparação para correr 50 km num trilho bastante técnico e com um desnível positivo com cerca de 2500 metros.

O problema imediato eram as festas e os bolos. Tentei desviar-me das calorias e comecei a treinar duas vezes por semana, alternando treinos de distância e de subida. No último treino percorri o percurso habitual pela linha do Vouginha. Seis anos antes e alguns quilos a mais tinha começado a correr por ali, sentindo o desânimo a cada passada. Na altura seria impossível imaginar a evolução e o caminho percorrido desde então. Adoraria ter a oportunidade de voltar atrás no tempo e revelar-me o quanto estaria a correr anos depois. Acreditaria mais depressa em viagens no tempo do que no facto de que viria a conseguir subir em corrida à Senhora do Castelo.

Desde o último treino passei a semana com gripe e a dizer mal da influência das viroses. O corpo parecia correr ao arrepio da esperança, mas a motivação estava em alta. Apesar das dificuldades, os Abutres eram inadiáveis e quis acreditar que a vontade haveria de dar andamento às pernas. Para não quebrar a tradição, a noite anterior foi passada quase às claras. O despertador tocou antes das 5h00 e lá fui eu para Miranda do Corvo de sorriso rasgado. À chegada, o espaço parecia uma criatura viva de excitação. É muito agradável respirar aquele ambiente inspirador de que algo memorável está prestes a acontecer. Após ter levantado o dorsal, ultimei os preparativos, passei pelo controlo e fiz-me à linha de partida. Cerca de 10 minutos antes da contagem mágica, o animador da prova anuncia ao microfone que foi encontrada uma chave de um carro. Lembro-me de pensar:

“Mas quem será tão distraído para perder a chave aqui? Hum… eu talvez seja um bom candidato!”

Meti as mãos à mochila e encontrei o fecho aberto. Procurei na bolsa e obtive a resposta. Fiquei sem saber o que fazer. Num ápice, consegui avisar alguém da organização que estava por perto e que correu em busca da minha tranquilidade. Segundos antes de o animador mandar avançar os atletas, a chave chegou-me às mãos e recuperei o sossego. Poderia enfim partir sem que a mente ficasse por lá.

3… 2… 1… Partida!

Nas primeiras centenas de metros aproveitei para esticar as pernas com calma. À primeira dificuldade, na subida para o Templo Ecuménico Universalista optei por caminhar, já que o desafio restante metia respeito. Depois da descida o trilho deambula por single tracks de lama e o interesse vai aumentando à medida que se vai subindo. A passagem por Vila Nova serviu para confortar o corpo, seguindo-se uma longa subida até ao Observatório. Desconhecia por completo esta zona e gostei da descoberta, em particular quando o trilho acompanha as linhas de águas. Com metade do percurso ganho e com mais de metade da subida acumulada conquistada, cheguei lá acima em melhor forma do que o previra.

A descer, todos os músculos ajudaram. Como me dou bastante bem em trilhos técnicos, aproveitei a ribeira para ganhar algumas posições. Esta parte do trilho também foi fantástica, envolvido por uma natureza viva e luxuriante. Ainda assim, como o trilho é bastante técnico, todos os cuidados são poucos. Numa das passagens, ao descender um penedo, um dos atletas que ia à minha frente escorregou e, literalmente, mergulhou de frente numa poça de lama e água. A sorte é que não embateu em rochas. Ofereci ajuda para o levantar e, por algum instinto maquiavélico, perguntei-lhe se tinha encontrado o que procurava. Arrependi-me logo de seguida, mas já não fui a tempo. O senhor levantou-me o olhar de quem está prestes a bater em alguém. E eu era o que estava mais perto. Afinal, descobri depois, ele nem sequer escutara o que eu dissera e ainda nos rimos depois, enquanto vencíamos mais uns metros pela encosta.

A descida final para o Santuário da Senhora da Piedade foi épica, agarrado a uma corda por algumas dezenas de metros. Após o descanso, surgiu mais um momento de dificuldade do dia, subindo a ribeira. As cãibras começaram então a mordiscar a esperança de acabar sem grandes dores. As pernas já não esticavam tanto como a vontade e era necessário agarrar tudo o que havia à volta para ajudar à ascensão. De qualquer forma, gostei bastante de revisitar a ribeira, que é fantástica! Aguentei as dores e aproveitei as descidas para esticar as expectativas. Sabia que conseguiria acabar a prova, mas gostaria de acabar minimamente bem.

Na passagem pela aldeia do Cadaval apanhei boleia com um atleta de Baiona e lá fomos subindo a serra numa conversa animada sobre as Islas Cíes, a Bateria Costeira de Cabo Silleiro e outros motivos de interesse da Galiza. Tenho a sensação que há mais afinidades entre galegos e portugueses do que entre galegos e espanhóis de outras latitudes. Embora tivesse enganado a mente com interesses, foi inevitável a deceção que a longa subida parecia nunca mais terminar. Mas terminou! Foi um abastecimento à portuguesa, com uma bifana e uma cervejinha. Já farto da marmelada, bananas, laranjas, tomates, sal, amendoins, etc.

Voltei depois a correr de forma regular e fiz a descida até à ribeira do Gondramaz. Iniciou-se mais uma parte bastante técnica, também já conhecida. As pernas já não respondiam como a mesma agilidade e eu próprio já não confiava muito nos reflexos. Com naturalidade, decidi progredir com mais cuidado do que anteriormente. Uma queda ali pode ser bastante dolorosa. Deixei depois a ribeira e investi na subida para o Gondramaz através do mítico trilho do Penedo dos Corvos. Foi a parte mais difícil e mais fantástica do percurso! Se não fossem as inúmeras cordas de segurança não sei como subiria, mas tudo correu bem. A obstáculo surgia um fotógrafo para nos captar o sofrimento.

A passagem pela espetacular aldeia do Gondramaz foi rápida, mas reconfortante. Desci novamente à ribeira pelo trilho e prossegui para jusante das principais dificuldades. O declive estava vencido e bastava aguentar até Miranda. Seria quase isso. Já num percurso pouco técnico, Espinho surgiu num vislumbre de esperança. Comecei então a escutar que faltava a parte da “lama”. Lembro-me de pensar que já antes tínhamos apanhado lama e supus que não deveria ser nada de especial. Pois bem, estava enganado. Confesso que nunca vi tanta lama na minha vida. De forma contínua, os pés enterravam-se até ao tornozelo e o percurso parecia uma pista de patinagem lamacenta. Não me recordo outra situação em que tenha dito tantas asneiras em tão pouco tempo. Perdi a noção da distância, mas lá acabei por ultrapassar as dificuldades. Encontrar um caminho foi quase uma revelação divinal. Mesmo com os pés cheios de lama, voltei a correr e fiz os últimos quilómetros num ritmo forte. Fiquei com a sensação que poderia ter arriscado mais durante a prova, correndo mais nas subidas. Fica a aprendizagem para a próxima oportunidade. No final, terminei com o tempo de 9h16m, na posição 373 (de 600). Próximo do tempo esperado, mas abaixo das expetativas posicionais. De qualquer forma, tendo em conta o pouco tempo de preparação e algumas ameaças de prévios empenos futebolísticos, não foi mau. Ainda, dentro do espírito do trail, terminar já é uma boa vitória. E isso basta-me.

É difícil tentar descrever em palavras o que se sente quando se corta a meta numa prova deste género. Depois de tanto sofrimento, é uma sensação maravilhosa e faz tudo valer a pena. Por coincidência, o animador pediu-me de supetão algumas palavras. Ainda a tentar recuperar o fôlego, acho que não disse algo que fosse meritório ou adequado. Aproveito agora para escrever o que deveria ter dito naquele momento. Adorei participar nesta prova, que está bastante equilibrada em termos de tecnicidade, desnível e distância. Os trilhos técnicos da Serra da Lousã são uma referência do trail nacional e a organização do Trilho dos Abutres merece os meus parabéns mais sentidos pelo excelente trabalho que têm vindo a desenvolver na promoção desta modalidade apaixonante. Vale!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Friday, 20 January 2017 17:00

Guia para sobreviver ao desencanto

É inevitável. Mais cedo ou mais tarde acabaremos por descobrir o desencanto no geocaching. Todos os passatempos estão sujeitos a uma acumulação de desinteresse, tanto pela rotina como pela alteração da nossa disponibilidade. Porém, as nossas práticas e a forma como encaramos o geocaching poderão aproximar-nos desse estado de deceção. Naturalmente, todos temos uma visão distinta do passatempo e cada um de nós procura ou valoriza algo diferente, quer seja a partilha de novos locais ou atingir um determinado objetivo estatístico. Existem inúmeros tipos de geocachers e cada tipo contempla diversas fases de evolução no geocaching. Assim, o que é válido para um geocacher, pode não o ser para outro. Tendo em conta a diversidade que existe no passatempo, é difícil dissertar presunções ou irrefutabilidades, mas pode ser viável salientar sugestões direcionadas para sobreviver ao desencanto no geocaching.

O desânimo poderá florescer na própria iniciação. Convenhamos que, para lá da estranheza que pode advir da procura de recipientes em circunstâncias ou locais inusitadas, com a massificação do passatempo aumenta a probabilidade de a primeira experiência não ser a mais recomendável. Quem descobrir o geocaching hoje na Internet e amanhã quiser ir à procura da cache que fica mais próxima de casa, poderá andar às voltas de um sinal de trânsito, enquanto se vão acumulando olhares e suspeitas sobre si. Tal acabará por trazer algum desencanto e aquilo que parecia um conceito muito interessante poderá tornar-se em algo apenas estranho e despropositado.

Tanto para quem começa como para os que já cá andam há mais tempo é importante fazer uma análise seletiva das caches. Por mais que nos esforcemos, não conseguiremos encontrá-las todas. Assim, mais vale dedicar a nossa atenção àquelas que considerarmos como as melhores. No meu caso, praticar um geocaching baseado na qualidade é meio caminho para evitar que algum desapontamento se instale. Não o faz desaparecer da esfera de possibilidades, mas pode protelá-lo de forma significativa. O geocaching baseado na qualidade não tem de ser necessariamente esporádico, mas pode estar sujeito a certas condicionantes e a sua frequência é proporcional à distância que estamos dispostos para percorrer para o praticar. Para além disso, e tal como em outras tantas coisas na vida, o que não é regular tem mais hipóteses de tornar-se especial.

Mesmo privilegiando a qualidade também tenho de ter algum cuidado com a quantidade. De certa forma, este guia para sobreviver ao desencanto começa a parecer-se com uma dieta. Sei que se começar a calcorrear demasiados powertrails principiarei a perder algum interesse no geocaching. Encontrar uma cache compreende um conjunto de etapas e vai para além de um sorriso no mapa. Desde a leitura da listagem, passando pela descoberta do recipiente e até à criação de um registo online condizente. Para alguns, o respeito por este seguimento lógico da experiência poderá mesmo ser um ritual e desviam-se de tudo o que o possa deturpar. Num powertrail são poucos os recipientes que todos encontram e o registo mais comum acaba quase sempre por ser geral. Contudo, verdade seja escrita, existem diferentes tipos de powertrails e os mesmos podem surgir com objetivos distintos. O grande problema reside no facto de nalguns o geocaching ficar num plano distante e ser apenas um pretexto para atingir um fim estranho. Não me agrada de sobremaneira andar de carro de cache em cache a vencer estatísticas. Cada descoberta parece-me uma vitória pírrica até ao desinteresse final. Embora compreenda que o contexto acabe por proporcionar alguns momentos de partilha, o conceito de prosseguir numa fila em paragens sucessivas durante um dia inteiro não me cativa. Prefiro atravessar uma montanha num dia para encontrar apenas uma cache.

Acredito que orientando o geocaching por menor quantidade e mais qualidade estarei mais perto de sobreviver ao desencanto no geocaching. Mantendo a disponibilidade, quando o deslumbramento esmorecer, bastará acertar a data para uma nova aventura e tudo voltará a ser como antes. No limite, cada um valoriza algo distinto no geocaching. Depois de o compreendermos e definirmos, fase após fase, sorriso após deceção, bastará isso para reencontrarmos aquele lugar especial chamado fascínio.

Artigo publicado na Geomagazine #24 e em cruzilhadas.pt.

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