23de Setembro,2017

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ValenteCruz

ValenteCruz

Sunday, 20 August 2017 10:00

Caminhar pela Cividade

A curiosidade para a descoberta do percurso da Cividade de Bagunte (GC536T7) já tinha sido desperta há algum tempo, mas apenas agora tivemos oportunidade de a cumprir. No seguimento de árduas negociações com a Valente, o plano era fazer o percurso de manhã e aproveitar a praia à tarde. A meteorologia acabou por trocar-nos as voltas, acinzentando as expetativas balneares, mas permitindo uma caminhada mais agradável.

Íamos com a expetativa que o percurso valeria sobretudo pela Cividade e pelos elaborados recipientes de geocaching, mas o trilho acabou por ser melhor do que esperávamos. Apesar de a paisagem sofrer muito com plantação desgovernada dos eucaliptais, subsistem ainda algumas zonas interessantes de floresta. O percurso acabou revelar-se também menos exposto do que esperávamos.

Na parte inicial aproveitámos para dar corda às sapatilhas e lá fomos avançando de paragem em paragem, sempre com a curiosidade aguçada para o recipiente que iríamos encontrar a seguir. Como sabemos, ainda que o primordial seja a descoberta dos percursos ou dos locais, o geocaching acaba por ser um motivo de interesse acrescido. Ainda, quando somos surpreendidos por recipientes dedicados e funcionais, a experiência torna-se ainda mais agradável.

Envolvidos pela natureza, aproximámo-nos das áreas rurais. Por aqui, o milho é dono e senhor dos campos, num verde a perder de vista. No ar soprava uma brisa a cheirar a trabalho, ainda que não tivéssemos visto alguém por lá. Mais abaixo, somos visitar a pequena capela da Sra. das Neves (GC15XNT), que parece oferecer boas colheitas por aqueles lados. A aldeia parece sofrer um pouco com o abandono que vai alastrando pelo mundo rural e as antigas casas senhoriais vão definhando aos poucos.

Continuando pelo caminho, seguiu-se o principal motivo de interesse do percurso: a Cividade de Bagunte (GC11501). As sucessivas placas informativas ajudam a perceber melhor o período e as estruturas do antigo castro. À medida que fomos subindo a linha do tempo ia ficando cada vez mais definida, assim como as linhas das construções do antigo povoado. Na zona mais altaneira decorrem escavações arqueológicas. Para quem cresceu a ver os filmes do Indiana Jones e que depois encontrou no geocaching uma ótima forma de continuar à descoberta de “tesouros”, a arqueologia era uma área fascinante. Deve ser fantástico viver o momento em que se descobre uma peça história. Porém, deve ser também muito difícil passar tempos infindos com uma espátula nas mãos a escarafunchar o solo debaixo de um sol desolador.

Fomos cirandando pelo espaço, seguindo na direção do marco geodésico e imaginando como seria a vida naquela local noutros tempos. Certamente, daqui a outros tantos anos, haverá outras pessoas a calcorrear outros espaços, indagando como teria sido a nossa vida. Todavia, esses terão mais evidências. Mais à frente encontrámos algumas estruturas de apoio ao trabalho arqueológico. Descemos depois o monte e prosseguimos para o final da nossa caminhada. Mesmo a terminar ainda tivemos um encontro com mais uma cache insuspeita e bem enquadrada numa hospedaria castreja (GC5AHVX). Obrigado pela partilha!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt.

Sunday, 16 July 2017 10:00

A vida ainda mais secreta das caches

Após as revelações adiantadas no último artigo sobre a vida secreta das caches, tornou-se notório que tinham ficado alguns casos por explorar. No enigmático mundo das caches que, depois de colocadas, ganham vida, este é um tema novo e ainda com muito para divagar. Porém, antes de retomar a explanação, gostaria de reforçar a advertência que caso qualquer geocacher venha a encontrar alguma cache desprevenida, com os plásticos nas mãos, deverá ter muito cuidado e agir como se não tivesse visto nada de anormal. Afinal, depois de ganharem vida, as caches também adquirem sensibilidade e desconhecem-se as consequências deste vislumbre imaginário. Feita a ressalva, esta é a vida ainda mais secreta das caches, com alguns dos tipos mais inquietantes.

Cache Acumuladora – Por vezes, ao abrirmos o recipiente de uma cache, notamos a existência de algum lixo no seu interior. Poderíamos pensar que se trata de uma má prática de alguns geocachers, que trocam itens por lixo. Sabe-se agora que algumas caches sofrem da síndrome de acumulação compulsiva. Quando notam alguma peça nas redondezas, mesmo que pareça ou seja lixo, arrebanham-na de imediato para si, julgando que mais tarde haverá de dar jeito para algo. Nem que seja um plástico de rebuçado para tapar um buraco. Por coincidência, estas caches estão a contribuir para o CITO. Depois da descoberta, apenas caberá aos geocachers levarem o lixo para o seu devido lugar.

Cache Incendiária – À primeira vista, a cache incendiária apresenta semelhanças com a cache acumuladora. Todavia, a sua natureza é bastante mais negra e terrificante. Estas caches têm a capacidade de gerar uma caixa de fósforos dentro de si. Uma vertente mais tecnológica deste tipo, designadas por icaches, são mesmo capazes de gerar um isqueiro. Tipicamente, estas caches encontram-se em ambientes naturais e possuem um distúrbio mental que as levam a tentar provocar incêndios. Contudo, não sabemos se alguma já terá sido bem-sucedida. Suspeita-se que este desequilíbrio poderá estar relacionado com a vontade de presenciar os helicópteros e aviões em ação. Cai então por terra a ideia descabida que alguns geocachers, irresponsavelmente, deixavam estes itens nos recipientes. 

Cache Transformista – É sabido que nem todas as caches ficam satisfeitas com os locais onde são criadas. O que poucos sabem é que algumas também não se identificam com o género com que vieram ao mundo. Numa época em que a sociedade geocachiana já está mais atreita a aceitar esta mudança, depois de terem saído do armário da cozinha pelas mãos dos seus donos, após ganharem vida, alguns recipientes decidem sair do armário dos preconceitos por si. As mudanças físicas podem ser mais ou menos drásticas, com mais ou menos silicone, tirando uma parte aqui ou acrescentando algo ali. À luz deste desenvolvimento, entendem-se agora certas transformações nos recipientes.

Cache Parideira – Muitos geocachers já encontraram mais do que um recipiente em algumas caches. Poderíamos pensar que tal estaria relacionado com o facto de alguns geocachers andarem sempre com um recipiente extra para reverter qualquer ameaça de DNF. Todavia, à semelhança do fenómeno geológico das pedras parideiras da serra da Freita, descobriu-se recentemente que certas caches têm a capacidade de dar à luz. Inclusive, e por incrível que pareça, algumas das caches-filhas nascem maiores do que as progenitoras. Após esta descoberta, alguns geocachers já iniciaram projetos de investigação sobre como poderão introduzir as caches parideiras na criação automática de powertrails.

Cache Cobradora – Já todos encontrámos moedas nas caches e pensámos: “Mas afinal, como é que este dinheiro aqui veio parar? Nem sequer existem pastelarias por perto para comprar um bolo!” Pois bem, ao ganhar vida, esta cache imagina que tem a profissão de cobradora. Algumas especializam-se em cobranças de impostos e trabalham para o governo do geocaching, outras trabalham para o governo dos seus donos, ajudando a pagar certas despesas do dia-a-dia, e existem ainda outras foram seduzidas pelo setor privado. Adverte-se ainda que algumas caches, mais agressivas, trabalham nas cobranças difíceis. Existem inclusive relatos de alguns geocachers que ficaram sem dinheiro depois de uma caçada que se transformou num encontro imediato com o fraque.

Cache Naturista – É fácil topar uma cache naturista. Enquanto a maioria das caches gosta de se manter dentro de plásticos bem reforçados, temendo o flagelo da humidade, as caches naturistas gostam de se libertar de preconceitos. À primeira vista poderia parecer falta de manutenção dos donos, mas percebe-se agora que são as próprias caches que dispensam os recipientes depois de ganharem vida. Algumas, um pouco mais comedidas, encontram-se envoltas por pequenos sacos plásticos. Outras, mais naturistas, apenas precisam de encontrar um buraquinho para guardarem o livro de registos, que por vezes é apenas uma única de papel ou um recibo que não interessa guardar. Poderíamos pensar que as caches naturistas prefeririam as zonas das praias, mas curiosamente o seu aparecimento ocorre mais em meios citadinos.

Cache Mágica – À semelhança da cache agente secreto, a cache mágica pode ser bastante difícil de encontrar. Para além de possuir capacidades ilusionistas que apenas os olhos mais treinados podem discernir, a cache mágica detém poderes que lhe permitem, entre outras habilidades, controlar o meio envolvente, como por exemplo a meteorologia. Sim, a meteorologia. Quem é que nunca fez planos para visitar uma determinada cache e sofreu na pele uma intempérie ou teve de alterar os planos? Quem é que nunca foi perseguido por uma série de azares que redundaram numa desistência? Pois bem, desconhecendo os limites dos poderes de uma cache mágica, o melhor é manter a tenacidade com um sorriso. É também por isso que certas caches são mágicas e persistem vivas nas nossas memórias.

Artigo publicado na GeoMagazine #26 e em Cruzilhadas.pt.

Sunday, 02 July 2017 10:00

Rotas do vale do rio Bestança

O rio Bestança, considerado um dos mais limpos da Europa, nasce nas Portas do Montemuro e atravessa um vale luxuriante. Ao longo das eras, o rio foi sulcando o seu leito, rompendo a aspereza da penedia, até encontrar o rio Douro em recantos mágicos (GC6FCRQ), perto de Souto do Rio.

Existem dois percursos pedestres que podem ajudar à descoberta deste vale de natureza encantada. O PR1 – Caminho do Prado (circular – 7 km) e o PR2 – Rota do Vale (linear – 18 km). Não será por acaso que a edilidade cinfanence tenha escolhido o mesmo contexto para a duas primeiras incursões pelo pedestrianimo. A possibilidade da escolha entre dificuldades distintas permite abranger mais caminhantes, assim haja vontade esticar as pernas pela beleza natural circundante, quer se vá do vale à montanha ou da montanha ao monte.

O Caminho do Prado desenvolve-se por caminhos e trilhos envolventes ao rio Bestança e passa pelas localidades de Vila de Muros, Covelas e Vale Verde. O percurso tem início no Largo da Nogueira, em Vila de Muros. Sendo um percurso circular, é possível escolher qualquer um dos sentidos. Descendo em direção ao rio e seguindo por uma calçada antiga, encontraremos a ponte românica de Covelas (GC1DRTG). Ainda que pareça de origem medieval, na realidade é mais recente, de estilo barroco e construída em granito.

Depois da aldeia de Covelas, o trilho afasta-se da civilização e segue por terrenos agrícolas que foram sendo abandonados ao longo do tempo. Um dos aspetos mais fascinantes deste percurso, para além da envolvência natural, reside no reencontro frequente com antigas casas que sucumbiram à inacessibilidade. Talvez não esteja tão afastado o tempo em que esse mesmo isolamento servirá como um motivo para o regresso de algumas pessoas, assim como para a reconstrução dos edifícios. Assim esperemos.

Seguindo pelas veredas, ao cruzarmos novamente o rio encontraremos o local que dá nome ao caminho. Trata-se de um refúgio recuperado, inserido num espaço bucólico e verdejante. Passando por outros prados e continuando pelo trilho, encontra-se mais uma calçada antiga que segue para Vale Verde, continuando depois por asfalto até Vila de Muros.

Sendo um percurso linear, é possível iniciar a Rota do Vale em Vila de Mouros (subida) ou nas Portas do Montemuro (GC1223G), junto à capela das Portas (descida). Fazendo o percurso no sentido ascendente, a parte inicial coincide com o Caminho do Prado. Após o prado, a rota prossegue por trilhos e caminhos que vão caindo em desuso. O abandono vai-se fazendo notar e a Natureza, sempre verdejante, parece estar a recuperar para si o que antes tinha sido emprestado ao Homem.

Perto de Soutelo, o rio encontra um dos cenários mais fantásticos do vale, quando tem de galgar as Fragas de Penavilheira (GC561AQ). A água precipita-se em três cascatas sucessivas até voltar a encontrar alguma mansidão. No sopé crescem carvalhos alimentados pela água do rio e por levadas que contornam as fragas. Vale bem a pena explorar este recanto, ainda que esteja um pouco escondido.

Logo depois das fragas encontramos um dos pontos mais caraterísticos do vale do rio Bestança, a ponte de Soutelo, datada da época medieval. Construída em pedra, com um arco de volta perfeita, é formada por lajes de grandes dimensões e parece enquadrar-se muito bem na paisagem envolvente. Chegando a Bustelo, é possível visitar a eira comunitária da aldeia, que vai resistindo aos ritos da modernidade.

 

À medida que nos afastamos do rio, as encostas tornam-se mais escalvadas. Porém, olhando para trás, consegue-se açambarcar o vale numa visão inteira e verdejante. Mais acima, depois da aldeia de Alhões, as Portas do Montemuro marcam o final de uma caminhada com muitos motivos de interesse, num dos vales mais fantásticos do Douro.

Recomenda-se ainda uma visita à Quinta do Paço da Serrana (GC309M8), votada ao abandono e que possui uma posição privilegiada sobre o rio Douro. De um valor patrimonial e natural inestimável, pertenceu à família do famoso explorador africanista Serpa Pinto. No final, ficará certamente a vontade de regressar a este vale encantado.

Artigo publicado na GeoMagazine#26 e em cruzilhadas.pt.

 

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