22de Novembro,2017

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ValenteCruz

ValenteCruz

Sunday, 05 November 2017 10:00

A grande armação da Arrábida

Após uma visita à Praia dos Penedos num dia anterior, a nossa curiosidade voltou-se um pouco mais para Oeste e a Valente lá acabou por convencer-se que esta seria uma ótima forma de terminarmos o nosso périplo pela região no contexto dos eventos Bocage Convida (GC70X02) e Entrega dos Prémios GPS 2016 (GC799E4). Fomos então visitar a grande armação da Arrábida. Para mais informações sobre o local e esta forma de pesca secular, consultar (GC3531K). Manhã cedo, seguimos de carro até ao local de estacionamento, junto à estrada que desce para Sesimbra, e prosseguimos a pé. Afinal de contas, a aventura apenas começa quando termina o alcatrão.

A parte inicial do trilho inicial é fácil de seguir, num terreno quase plano. Sesimbra, lá em baixo, vai ficando para trás, à medida que nos aproximamos das falésias e do mar. Surgem então os acessos às vistas vertiginosas sobre o mar, rodeados sempre por uma vegetação exuberante. Pelo caminho encontrámos várias ruínas, que deixaram de servir de abrigo e servem agora de telas para os artistas do spray.

Chegou depois o momento de iniciarmos a descida para a zona das armações. Apesar de ainda ter alguma inclinação, acaba por não ser muito difícil. Passámos então pela Pedra do Leão e ficámos curiosos na sua descoberta, mas para isso precisaríamos de um barco e de mais tempo. Talvez fique para uma próxima oportunidade. Ao dobrarmos mais uma curva encaramos então com o primeiro avistamento da enseada. Infelizmente, o céu estava pintado de cinzento, pelo que não tivemos direito às cores mágicas das águas da costa da Arrábida.

Mais abaixo avistámos então a armação. Desconhecíamos a existência destas construções e estruturas de apoio à pesca, entretanto perdidas no tempo. Pelo tamanho da estrutura, deve ter servido a muita gente e durante muito tempo. É agora uma sombra em ruína dos seus tempos áureos. Apesar de já não servir aos intentos originais, nota-se que o espaço ainda continua a ser usado como local de passagem e de pernoita. Andámos por lá a explorar os vários recantos, tendo sempre como companhia a presença íntima e solitária do mar.

Seguimos depois para Este em busca do segundo ponto de interesse da zona, na direção da enseada (GC2TC75). O trilho é também evidente, mas passado pouco tempo torna-se mais desafiante. As passagens mais vertiginosas são espetaculares, sem que cheguem a ser perigosas, assim como a descida pela longa escadaria encavalitada na rocha. As ruínas parecem desenhar um antigo forte, ainda que o tempo tenha apagado metade do traçado. O local é bastante fascinante e apetece ficar por ali a apreciar o mar em solidão.

A subida decorreu sem sobressaltos, em sucessivas paragens para o descansarmos e apreciarmos a paisagem. Quando chegámos ao topo começou então a cair uma morrinha que nos apressou o passo. Preenchemos assim mais um local da caderneta de locais imperdíveis na Serra da Arrábida e já estamos a contar expetativas para a próxima viagem. Em jeito de despedida de Sesimbra, após arrumarmos os pertences e outras tralhas, fomos finalmente ao encontro do choco frito, servido no muito recomendável “O Rodinhas”. Até à próxima, Arrábida!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Wednesday, 25 October 2017 10:00

Era uma vez... a Mata da Penoita

Após o flagelo dos incêndios que assolou o país no passado dia 15 de outubro, fui dar uma volta pela desgraça por terras vouzelenses. Tinha pouca expectativa que a Mata da Penoita tivesse escapado, mas ainda assim resolvi que faria o percurso completo do trilho em corrida. Com o coração nas mãos da tristeza, subi pela Ventosa como um hobbit sem esperança à procura do monte da Perdição. Mesmo preparado para ver o pior, é impressionante notar a destruição. O negro e a cinza estenderam-se pela paisagem e bateram à porta de muitas casas, entrando em algumas. Para além das habitações e dos barracões que se perderam, vi ainda um carro junto à estrada que tinha ardido por completo.

Subindo a encosta, depois de passar as aldeias que tinham sido cercadas pelo fogo e ao cruzar a A25, fiquei com a certeza que nada escapara. A Penoita, verde e bucólica, tornou-se então apenas uma memória. Sempre tive um fascínio por esta zona desde que comecei a fazer viagens habituais para Aveiro, há largos atrás. Quando vim morar para a zona foi com muito prazer que fui descobrindo os recantos desta floresta autóctone, imagem postal do que deveria ter sido a floresta portuguesa séculos antes. A Penoita era um verdadeiro tesouro natural e era particularmente bonita no outono, com o seu tapete de folhas caídas e as cores variadas. Foi com orgulho que ajudei na divulgação da mata e do trilho através do geocaching (GC2J2GJ). Mais recentemente, no ano passado, ao equacionar os locais para tirar a foto para a capa do livro “Sombras de Silêncio”, a escolha tornou-se óbvia.

Estacionei o carro no Parque de Merendas da Penoita, coloquei a melancolia nos ouvidos e fiz-me ao caminho pelo antigo PR 4 – Trilho da Penoita. Pisando as cinzas da desgraça, fiz uma primeira paragem na Pia da Barca. À minha volta resistiam as árvores moribundas; a paisagem estendia-se pelo alcance da visão em sombras de saudade e escuridão. Segui depois pelo caminho, patinando no solo chamuscado e cheguei à Malhada de Cambarinho. Aquelas pedras históricas certamente já sobreviveram a muitos incêndios, mas a panorâmica vai decrepitando de tristeza a cada passagem.

Prosseguindo por campos e casotas agrícolas que passaram do abandono para a negridão, subi a encosta e aproximei-me de Covas, que também ficou cercada pelo fogo. Enquanto as pessoas, impotentes, se vão habituando à mudança, a paisagem parece refugiar-se num silêncio fatídico. Mais acima, Adsamo também está cercada por encostas negras. Depois de passar pela aldeia, de auriculares nos ouvidos, comecei a ouvir gritos. De início pareceu-me desespero, mas depois percebi que era um chamamento sentido. Mais à frente encontrei um pastor e estivemos à conversa sobre a miséria envolvente. Fiquei a saber que os chamamentos eram para o cão, que desde o incêndio andava esquivo com o medo e recusava a voltar para casa.

No estradão para Joana Martins, enquanto a Marisa cantava que “o brilho que o sol irradia há de sempre nos iluminar”, o cenário manteve-se. O fogo desceu a montanha até Vasconha, pintando de negro tudo pelo caminho. Ao longe, na planície até Viseu, o verde sobrevivente tentava enganar a deceção. Antes de Joana Martins fiz uma pequena paragem numa pequena capela que ardeu e subi depois a uma pequena elevação sobre a aldeia, de onde se vislumbrava o rasto do monstro até ao monte da Senhora do Castelo. É inimaginável pensar no que deve ter sido o terror para as pessoas daquelas aldeias. Ainda assim, mesmo nas pequenas coisas, nota-se a generosidade destas populações; mais à frente, na estrada, encontrei um saco plástico com comida e um reservatório de água para os animais selvagens sobreviventes.

Entrei depois no bosque da Penoita, onde já tinha começado o trabalho para reconstruir as linhas elétricas. Dali até ao parque de merendas foi um relance de mais alguma melancolia. Pode parecer estranho, mas acho que o facto de ter feito o percurso nestas condições era quase uma necessidade para aceitar a nova realidade. Fica também a vontade de, no futuro e ainda que de forma humilde, contribuir para resgatar a Mata da Penoita destas sombras. Após cerca de sete anos de descobertas, é com alguma tristeza que nos despedimos das caches deste trilho. A quem fez o percurso, obrigado pelas visitas e pelos relatos. Serão não apenas uma recordação, mas também o testemunho daquilo que o trilho deverá voltar a ser.

Depois do que aconteceu, é natural analisar e discutir o que foi feito de errado ou o que faltou fazer, tanto na prevenção como no combate. Não me vou pôr a atribuir culpas e certamente existem opiniões muito mais ajuizadas sobre o que deve ser feito no futuro para mitigar situações semelhantes. Neste caso, fica sobretudo a ideia de impotência face a um cenário de condições excecionais para a ignição e propagação do fogo. Porém, de um modo geral, fica também a certeza que muito precisa de mudar. Mil palavras de agradecimento por todos que, naquela noite, deram o melhor si para combater este e outros incêndios!

Por fim,  gostaria de partilhar e incentivar ao apoio do movimento solidário criado pelo Município de Vouzela para ajudar a reconstruir o futuro no concelho. No imediato, pela subsistência das vidas afetadas. Depois, para reflorestar o coração de Lafões!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Sunday, 22 October 2017 10:00

Brutal!

Numa tarde solitária pela montanha, fui refazer parte do trilho do Ultra Trail Serra da Freita, descobrir novos percursos e encontrar uma cache Brutal! (GC7324F) Estacionei em Póvoa das Leirias, onde já existiu uma placa icónica que “proibia dançar na estrada”. Desci a aldeia pelo PR das Bétulas em direção a Candal. Ao longe, e bem lá em cima, ainda senti o desafio da Besta a espicaçar-me a vontade. Mas hoje o destino era outro. O trilho até Candal já está revestido pelas folhas outonais. Não só pelas cores, o Outono talvez seja a melhor estação para fazer caminhadas/corridas pela montanha.

Fui de Candal a Cabreiros num esgar de alcatrão e entrei depois no turístico Caminho do Carteiro. Mesmo com poucos quilómetros nas pernas, fazer aquela descida em corrida é sempre um teste para os joelhos. Mas é também um consolo para as vistas, descobrir o vale de Rio de Frades a surgir inteiro aos nossos pés. A paisagem, apesar de ensombrada pelo incêndio do ano passado, mantém-se grandiosa e panorâmica.

Embalado pela descida, parei apenas no miradouro sobreposto ao Poço Oito. Aquela dupla cascata é uma verdadeira maravilha da Natureza! Um grupo de canyoning tinha acabado de fazer a descida e preparava-se para sair da lagoa. Fiquei por ali algum tempo em contemplação e lá prossegui pelo caminho. Parei apenas junto ao antigo edifício abandonado. Notei o trilho e pensei que o final deveria ser já ali. Dei a volta às vistas e fiz as contas à vida. Estranhei os cerca de 400 metros para finalizar a descoberta, mas pareceu-me que o local poderia fazer sentido. Desci então a encosta, passei pelo túnel e prossegui pelo rio. Andei por onde nunca tinha andado e fiquei com uma certeza: podemos pensar que conhecemos a zona, mas Rio de Frades é uma verdadeira caixinha de surpresas. Descobri mais umas minas suspensas sobre uma cascata/lagoa fantástica!

Depois de perceber que me tinha enganado nas contas, voltei para trás e subi a encosta a dizer mal da minha desatenção, que ameaçava alterar-me os planos para o percurso. Nesta segunda abordagem nem foi necessário olhar para o telemóvel e lá cheguei ao destino. Foi com alguma emoção que encontrei a cache, percorri os registos, reavivei as imagens na memória e senti as palavras escritas. Para além de algumas aventuras vividas com o André, recordo os interesses comuns. Em particular, as longas conversas sobre Rio de Frades, as suas minas e os tesouros por encontrar. Recordo ainda os planos de pesquisa e descoberta em conjunto, que infelizmente ficaram por cumprir. O André era um bom amigo e era sobretudo uma excelente pessoa!

Despedi-me de Rio de Frades a remoer a saudade e investi no percurso para Covelo do Paivó, feito maioritariamente por alcatrão, o que acabou por desgastar mais do que os quilómetros já percorridos. Ao chegar à ponte desci ao rio e tomei um merecido banho, preparação para a longa subida a haver. Tinha considerado a hipótese de subir para Candal pelo estradão, mas optei por arriscar uma subida desconhecida pelo percurso que me haveria de ligar ao Trilho Inca. Deixei a aldeia para trás, levantei o olhar e enfrentei a subida íngreme. Ao chegar ao topo recebi uma visão envolvente que me atenuou o cansaço. Após uma pequena paragem para reforçar as energias, segui pela crista do monte. Mais acima, os Dois Pinheiros pareciam uma meta. Prossegui depois para o Trilho Inca e foi com alguma melancolia que o redescobri despido pelo fogo. O destino estava mesmo ali. No final, os cerca de 23 km estavam bem pesados nas pernas. É sempre um prazer regressar a estas Montanhas Mágicas! 

 

Artigo publicado em cruzilhadas.pr

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