26de Maio,2017

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ValenteCruz

ValenteCruz

Sunday, 14 May 2017 10:00

Castillo de Peñafiel

Existe um encanto sublime e misterioso em visitar sítios que sucumbiram à passagem do tempo. Escritos pela saudade, é como se o abandono delineasse no presente as formas do mundo num futuro ausente. Na antiga região da Egitânea sobram os locais onde é possível desvendar os resquícios de um passado riquíssimo, enquanto a atualidade se vai escrevendo à conta de quem resiste e persiste. Assim que ficámos a conhecer a existência do castelo de Peñafiel (Zarza la Mayor, Espanha), engendrámos de imediato um plano para o visitar. É um dos locais mais deslumbrantes que o geocaching já nos revelou. Tudo é fascínio e nada é deceção. A paisagem surge engrandecida e a história sobrevive! O facto de estar isolado apenas o torna ainda mais interessante. Vale!



Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Sunday, 23 April 2017 10:00

Sabor Atlântico

Após vários adiamentos, finalmente fomos percorrer os Passadiços do Atlântico (ver track), entre Gaia e Espinho. Como estávamos a dever quilómetros às pernas, resolvemos aumentar um pouco a distância e começámos o percurso junto à ponte D. Luís. Visto que se trata de um percurso linear, as primeiras decisões prenderam-se com a logística. Optámos por deixar o carro em Espinho e fomos de comboio até Gaia. Passámos à pressa pelas obras do Jardim do Morro e estancámos o olhar sobre as magníficas vistas sobre a paisagem urbana circundante, com o rio Douro a desenhar-nos o destino a jusante.

Iniciámos o percurso na certeza que a proximidade do meio-dia marcava necessidade de seguirmos lestos. Tínhamos mais de 20 km pela frente, mas a planura confortava-nos a esperança de ultrapassarmos o desafio. As primeiras centenas de metros vivem-se com os olhos entre o rio e a Ribeira do Porto. Será, por certo, uma das paisagens urbanas mais interessantes de Portugal. Tal como é cantado de forma sentida, por ruelas e calçadas, num rosto de cantaria e numa luz bela e sombria, o casario estende-se da Ribeira até Foz. Mesmo para quem que, como eu, mói sentimentos a olhar para construções humanas e chama casa à Natureza, é difícil ficar indiferente à paisagem portuense.

Um pouco mais à frente decidimos fazer um pequeno desvio para açambarcar mais uma vista sobre o rio. Os passadiços colocados sobre o rio ajudam a mitigar a ideia de caminhar junto à estrada e a paisagem trata do resto. Mais à frente, alguns barcos rabelos são arranjados para o turismo a haver, que vai crescendo à medida que o Porto é cada vez mais um postal para os visitantes. Apenas entristece a linha de edifícios abandonados que se estendem ao longo da margem de Gaia.

A passagem pela Afurada serviu para reconfortar o estômago e alinhavar as expectativas. Deambulando pela linha da foz, deixámos o Douro e encontrámos o Atlântico. Ali perto, alguns miradouros de aves esperavam os respetivos mirones. Continuando a caminhada, contornando a curva, entrámos nos passadiços da praia e seguimos pela linha de mar. A paisagem torna-se então mais natural, apesar de os sinais do Homem serem uma constante. Os rochedos dão lugar à areia e surgem as proteções de madeira para as dunas. Aqui e além vão-se encontrando riachos tímidos que desaguam no mar.

Quando a fome deu sinal de si resolvemos fazer uma paragem mais prolongada. Acabámos por almoçar no restaurante Mar à Vista, um espaço bastante agradável. Na continuação do percurso, os quilómetros de passadiços foram-se repetindo com sabor a maresia. Para quem gosta de montanha, a visão continuada do mar pode parecer um pouco monótona. De qualquer forma, também sabe bem enganar o corpo com algum conforto de planura.

Em quase todo este caminho Atlântico, a capela do Senhor da Pedra surge como uma espécie de farol. Primeiro, as suas linhas esbatidas despontam ao longe na paisagem. Aos poucos, torna-se um objetivo e o cansaço vai sendo medido pela distância que falta até lá. Quando lá chegamos, o desvio torna-se quase inevitável. E se para quem caminha na terra é um bom abrigo, para quem corre a fazer a vida no mar deve parecer um porto de Deus.

Continuando a caminhada, a linha urbana de Espinho surge na paisagem por conquistar. Aos poucos, as formas vão-se aproximando, tendo sempre como companhia o passadiço, a praia e o mar. Cerca de 22 km depois, a chegada à cidade ofereceu o descanso desejado, enquanto nos despedimos do infinito azul com sabor a maresia.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt.

Sunday, 16 April 2017 10:00

Rota dos Cabeços

Como não estivemos na inauguração do PRM3 – Rota dos Cabeços (ver track) - Oliveira de Frades, logo que a disponibilidade nos abriu uma janela de oportunidade resolvemos aproveitar a descoberta. Já conhecíamos algumas partes do trilho e todas as razões são boas para regressar ao Caramulo. Sabíamos que nos esperava uma caminhada exigente, mas fomos com tempo e vontade de superarmos todos os cabeços a haver. Estacionámos no largo da igreja e seguimos o nosso caminho pelas ruas graníticas da aldeia. Depois de cruzarmos o ribeiro, investimos na direção do cruzeiro. Aos poucos, à medida que íamos subindo a encosta, Varzielas rebaixava na paisagem serrana, até que surgiu inteira numa visão emoldurada do vale.

Ao chegarmos ao Cabeço das Feiticeiras, já com as principais dificuldades vencidas, aproveitámos para descansar e lanchar. Depois de uma voltinha sobre o Vale de Besteiros, com a longínqua Estrela engalanada com um véu de noiva, iniciámos a descida para a aldeia da Bezerreira. Depois dos cabeços, passámos por algumas zonas de floresta e entrámos nos Jardins da Bezerreira, onde os prados se mantêm verdes e úteis. Contornando as ruelas apertadas da aldeia, iniciámos a subida da serra a ficámos a conhecer mais um novo elemento arquitetónico da região: a casula. Previamente tínhamos feito apostas sobre o que seria e acabámos por, numa mescla das hipóteses, acertar na resposta. Na montanha, as dificuldades acabam por aguçar o engenho e a criatividade.

Na volta pela serra, torneando os gigantes eólicos, fomos visitar o penedo que abana, mas o calhau mostrou-se pouco dado a movimentos. Descemos da serra, cirandámos pelos prados e passámos de raspão pela aldeia, prosseguindo para a Corga da Ribeira. Esta era uma das partes do percurso que já conhecíamos e gostámos bastante de regressar. A ribeira escapou ao incêndio e o vale segue verdejante ao longo de todo o percurso. À medida que fomos descendo encontrámos alguns moinhos que já caíram no esquecimento. Cobertos de musgo, parecem estar a refazer um caminho de regresso à Natureza. Esta parte do percurso é bastante bucólica e agradável. Parece que a qualquer momento alguma das árvores poderá ganhar vida e mostrar o Ent que habita dentro de si.

Mais abaixo, encontrámos a rio Águeda e seguimos pelas suas margens com a curiosidade latente. Esta era uma zona desconhecia e cuja descoberta muito nos agradou. Para aproveitamento das águas, foram construídas várias represas ao longo do leito. Assim, o rio espraia-se em lagoas e cascatas sucessivas, muito convidativas a épocas mais estivais. Antes e depois da ponte “Indiana Jones” encontrámos diversos moinhos, também caídos no esquecimento. Após uma nova mudança de margem por umas poldras inventadas, o percurso tornou-se um pouco mais acidentado. O rio galga a penedia imposta em sucessivas cascatas naturais. Também o trilho fura, literalmente, pelos penedos, no Cabeço da Solheira. Para ajudar à progressão, várias cordas foram estrategicamente colocadas nos locais mais difíceis.

Empolgados pelo percurso, antes do Penedo das Inscrições, acabámos por fazer mais um desvio e descer para onde não era necessário, mas foi bastante interessante. No rio encontrámos mais um cenário muito fotogénico. Passando para a outra margem, seguindo por um canal de água caído em desuso, conseguimos mais uma visão sobranceira sobre o vale. O regresso a Varzielas fez-se por caminhos florestais, mas ainda tivemos a oportunidade de fazer mais um pequeno desvio pela zona limítrofe. No final, as dificuldades vencidas tornaram-se em sorrisos na memória. Ficou a certeza de um ótimo dia de Natureza, cruzando os cabeços que a serra achou por bem desenhar e aproveitando o bucolismo inspirador dos trilhos próximos das linhas de água.

 

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