30de Março,2017

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ValenteCruz

ValenteCruz

Sunday, 26 March 2017 10:00

A vida secreta das caches

Poderíamos pensar que quando colocamos uma cache o recipiente vai ficar sossegado durante muito tempo. Contudo, à medida que vamos praticando este passatempo percebemos que o mundo do geocaching está em constante mudança e os recipientes vão tomando sempre novas qualidades. Alguns, mais distraídos, acreditam que tal poderá dever-se às más práticas e à incúria de alguns geocachers ou muggles. Porém, após um longo e profundo estudo, realizado por uma equipa séria e honesta, conseguimos perceber o busílis da questão e é com todo o prazer que estou a partilhar as principais conclusões. Na verdade, depois da criação, todas as caches adquirem caraterísticas de seres vivos ou entidades. No fundo, ganham vida. E sempre que alguém as visita nem desconfia de tal. Esta é a vida secreta das caches!

Dependendo da sua localização, as caches podem adquirir diferentes qualidades. Por exemplo, quando inseridas num cenário mais isolado e bucólico, a cache tende a deixar-se ficar. O tempo parece correr mais devagar e a sua longevidade agradece. Algumas recusam mesmo qualquer mudança e fincam o plástico nas entranhas da sua posição. Por outro lado, as caches mais urbanas têm uma tendência para serem mais irrequietas. Como está sempre qualquer coisa a acontecer no meio envolvente, poderá bastar um barulho de interesse e lá vai a cache à sua vida num piscar de olhos.

Depois de ganharem vida, estas são as caches mais comuns:

Cache kamikaze – Acontece por vezes que, ao chegarmos ao local onde está uma cache, encontramos o recipiente todo partido. Parece até que alguém agarrou um pedregulho e atirou-o para cima dele. Porém, não poderíamos estar mais enganados. Apresento-vos a cache kamikaze. Quando ninguém a está a vigiar, esta cache, imbuída pelo espírito do sol-nascente, recebe indicações secretas dos satélites e explode. Por casualidade, tal poderá provocar alguns dissabores aos transeuntes mais distraídos. Todavia, se estivermos próximos, temos a benesse de aprender algumas palavras em japonês, vociferadas pelas próprias caches no momento da autodestruição. Para além de promover a cultura no geocaching, tal pode dar jeito se quisermos subir ao monte Fugi.

Cache agente-secreto – Logo depois de ter sido colocada ou algures a meio da sua existência, esta cache torna-se num agente-secreto. Dependendo da missão atribuída, a cache pode adquirir capacidades de camuflagem que tornam muito difícil a sua deteção. Normalmente, a cache movimenta-se pouco, mas apenas os olhares mais apurados conseguem descortinar a sua localização. Vai saltando de esconderijo em esconderijo, num teste de paciência ao geocacher que vai à descoberta. Cai assim por terra a calúnia que certos geocachers alteram a localização dos recipientes a seu bel-prazer. 

Cache fantasma – Embora pareça uma variante da cache agente-secreto, a existência desta cache é mais assustadora. Em algum momento da sua existência, a cache aparenta desaparecer por completo. O tempo vai passando e os geocachers continuam a registar a descoberta. Ocasionalmente surge uma não-descoberta, complementada com mais um pedido de manutenção. Poderíamos pensar que se trata de uma prática errada e que o recipiente já não estava lá. Poderíamos, não devemos. Afinal, trata-se de uma cache fantasma! Ela continua lá num estado etéreo e apenas o olhar mais apurado consegue encontrá-la. De forma facilitar a descoberta destas caches poderá ser útil assistir previamente ao curso de espiritismo. Se não for por mais, favorece o currículo.

Cache mini-buraco-negro – Esta pode ser uma cache bastante chata. Não se sabe muito bem como, mas certas caches conseguem criar um mini-buraco-negro no seu interior. Tudo o que lá cai, quer seja uma geocoin, um TB ou mesmo um simples item de troca, desaparece mal se fecha a tampa do recipiente. Acontece frequentemente que certas caches apresentam a informação de que existem lá trackables, mas depois quando se abre o recipiente apenas se encontra um vazio que nos entristece. A descoberta destas caches vem solucionar o mistério e as acusações inventadas sobre alguns geocachers que, alegadamente, andavam de cache em cache apenas para ficarem com os itens.

Cache criminosa – É fácil topar uma cache criminosa. Num primeiro relance ainda pode parecer uma cache normal, mas se olharmos com mais atenção vamos notar que o recipiente está preso a um elemento local, como uma pedra ou uma árvore. Quanto maior for o perigo representado pela cache, mais forte deve ser a corrente. Trata-se de uma cache que, em algum momento da sua vida, cometeu um crime e acabou presa pela polícia do geocaching. Desenganem-se se pensavam que era para que ninguém as roubasse. Ninguém em seu juízo perfeito quer algo com estas caches.

Cache transformer – Seguindo as pisadas cinematográficas, depois de colocada, a cache transformer consegue mudar de aparência e assumir uma nova forma. Sabemos que algumas caches fazem-no por diversão, para passar o tempo. Outras fazem-no com uma determinada missão, mas até ao momento não conseguimos descortinar os propósitos. O problema é que estas caches têm falhas de memória e quando tentam voltar à forma original, para receberem os geocachers, já não sabem a posição de algumas peças. À pressa, acabam por forçar alguns encaixes e muitas vezes sobram pedaços das suas existências atribuladas. À vista desarmada poderia parecer que alguns geocachers não tinham cuidado a manusear os recipientes, mas a verdade é bem mais inquietante e ilibatória.  

Cache toupeira ­– Esta é uma cache que nasceu conforme as linhas orientadoras do passatempo. Todavia, ao ganhar vida, começou a escavar um buraco nas imediações da sua localização de forma a criar um novo esconderijo. Muitas vezes, a cache toupeira é tão eficaz que logo à primeira descoberta já está enfiada no buraco. Apesar de algumas destas caches conseguirem sobreviver em ambientes mais duros, a maioria encontra-se na terra. Desconhece-se a explicação para este comportamento, mas suspeita-se que a cache toupeira seja uma variante da cache agente-secreto. Pois bem, agora deitamos as mãos à cabeça a pensar nas inúmeras caches, e respetivos geocachers, que já foram vilipendiadas por julgamentos sumários e injustos.

Cache Jesus Cristo – De um modo geral, esta cache é muito rara. Algum tempo depois de ter sido colocada, o recipiente morre e acaba por desaparecer. Porém, esta cache tem a capacidade de ressuscitar. Assim, é possível que venhamos a encontrar o mesmo recipiente numa outra cache, que pode ficar mais ou menos distante conforme as capacidades espíritas da cache. O recipiente poderá aparecer numa cache que já existia, mas é mais comum surgir aquando da criação de uma cache nova. Pois bem, a comunidade estava bem enganada se pensava que certos geocachers roubavam os recipientes para depois os colocarem nas suas caches; ou então para guardar alimentos, embora esta utilidade tenha menos encanto.

Dada a complexidade envolvida, não é possível especificar qual é a centelha que cria a vida nas caches. Desconhece-se também se algum geocacher já presenciou o acontecimento ou se apanhou alguma cache desprevenida, com os plásticos na mão. Inclusive, se tal acontecer, recomenda-se que o geocacher prossiga com cautela e finja que não presenciou qualquer fantasia.

Artigo publicado na GeoMagazine #25 e em cruzilhadas.pt.

Sunday, 12 February 2017 10:00

Rio de Frades

O lado inóspito e a panorâmica mineira abandonada conferem a Rio de Frades (Arouca) o cenário perfeito para aventuras do tamanho da nossa imaginação. Existe um lugar em particular que de tão idílico, parece irreal. O Poço Oito sustenta um encanto arrebatador de paraíso perdido que nos transporta para um mundo paralelo de beleza ímpar. Como se fosse a cereja no topo do bolo da aventura, a cascata inferior revela um segredo misterioso que apenas os olhares mais atentos e as almas mais atrevidas conseguem descortinar. É, sem dúvida, um paraíso da Natureza!



Localização: N 40° 52.163 W 008° 11.409

Percurso: track.

Sunday, 05 February 2017 10:00

Trilho dos Abutres

Depois da Freita e da Estrela, a Lousã foi o palco para minha terceira prova de trail running. A escolha da prova acabou por ser natural, no famoso Trilho dos Abutres. Porém, a inscrição nesta prova está longe de garantir a participação, uma vez que a procura excede em muito a oferta. Numa primeira fase fui excluído da seleção, mas acabei por ser repescado numa prenda de Natal antecipada, que mais uma vez agradeço. Quando recebi a notícia tinha acabado de me sentar para um almoço à moda do Porto, francesinha e caneca de cerveja. Tinha então pouco mais de um mês de preparação para correr 50 km num trilho bastante técnico e com um desnível positivo com cerca de 2500 metros.

O problema imediato eram as festas e os bolos. Tentei desviar-me das calorias e comecei a treinar duas vezes por semana, alternando treinos de distância e de subida. No último treino percorri o percurso habitual pela linha do Vouginha. Seis anos antes e alguns quilos a mais tinha começado a correr por ali, sentindo o desânimo a cada passada. Na altura seria impossível imaginar a evolução e o caminho percorrido desde então. Adoraria ter a oportunidade de voltar atrás no tempo e revelar-me o quanto estaria a correr anos depois. Acreditaria mais depressa em viagens no tempo do que no facto de que viria a conseguir subir em corrida à Senhora do Castelo.

Desde o último treino passei a semana com gripe e a dizer mal da influência das viroses. O corpo parecia correr ao arrepio da esperança, mas a motivação estava em alta. Apesar das dificuldades, os Abutres eram inadiáveis e quis acreditar que a vontade haveria de dar andamento às pernas. Para não quebrar a tradição, a noite anterior foi passada quase às claras. O despertador tocou antes das 5h00 e lá fui eu para Miranda do Corvo de sorriso rasgado. À chegada, o espaço parecia uma criatura viva de excitação. É muito agradável respirar aquele ambiente inspirador de que algo memorável está prestes a acontecer. Após ter levantado o dorsal, ultimei os preparativos, passei pelo controlo e fiz-me à linha de partida. Cerca de 10 minutos antes da contagem mágica, o animador da prova anuncia ao microfone que foi encontrada uma chave de um carro. Lembro-me de pensar:

“Mas quem será tão distraído para perder a chave aqui? Hum… eu talvez seja um bom candidato!”

Meti as mãos à mochila e encontrei o fecho aberto. Procurei na bolsa e obtive a resposta. Fiquei sem saber o que fazer. Num ápice, consegui avisar alguém da organização que estava por perto e que correu em busca da minha tranquilidade. Segundos antes de o animador mandar avançar os atletas, a chave chegou-me às mãos e recuperei o sossego. Poderia enfim partir sem que a mente ficasse por lá.

3… 2… 1… Partida!

Nas primeiras centenas de metros aproveitei para esticar as pernas com calma. À primeira dificuldade, na subida para o Templo Ecuménico Universalista optei por caminhar, já que o desafio restante metia respeito. Depois da descida o trilho deambula por single tracks de lama e o interesse vai aumentando à medida que se vai subindo. A passagem por Vila Nova serviu para confortar o corpo, seguindo-se uma longa subida até ao Observatório. Desconhecia por completo esta zona e gostei da descoberta, em particular quando o trilho acompanha as linhas de águas. Com metade do percurso ganho e com mais de metade da subida acumulada conquistada, cheguei lá acima em melhor forma do que o previra.

A descer, todos os músculos ajudaram. Como me dou bastante bem em trilhos técnicos, aproveitei a ribeira para ganhar algumas posições. Esta parte do trilho também foi fantástica, envolvido por uma natureza viva e luxuriante. Ainda assim, como o trilho é bastante técnico, todos os cuidados são poucos. Numa das passagens, ao descender um penedo, um dos atletas que ia à minha frente escorregou e, literalmente, mergulhou de frente numa poça de lama e água. A sorte é que não embateu em rochas. Ofereci ajuda para o levantar e, por algum instinto maquiavélico, perguntei-lhe se tinha encontrado o que procurava. Arrependi-me logo de seguida, mas já não fui a tempo. O senhor levantou-me o olhar de quem está prestes a bater em alguém. E eu era o que estava mais perto. Afinal, descobri depois, ele nem sequer escutara o que eu dissera e ainda nos rimos depois, enquanto vencíamos mais uns metros pela encosta.

A descida final para o Santuário da Senhora da Piedade foi épica, agarrado a uma corda por algumas dezenas de metros. Após o descanso, surgiu mais um momento de dificuldade do dia, subindo a ribeira. As cãibras começaram então a mordiscar a esperança de acabar sem grandes dores. As pernas já não esticavam tanto como a vontade e era necessário agarrar tudo o que havia à volta para ajudar à ascensão. De qualquer forma, gostei bastante de revisitar a ribeira, que é fantástica! Aguentei as dores e aproveitei as descidas para esticar as expectativas. Sabia que conseguiria acabar a prova, mas gostaria de acabar minimamente bem.

Na passagem pela aldeia do Cadaval apanhei boleia com um atleta de Baiona e lá fomos subindo a serra numa conversa animada sobre as Islas Cíes, a Bateria Costeira de Cabo Silleiro e outros motivos de interesse da Galiza. Tenho a sensação que há mais afinidades entre galegos e portugueses do que entre galegos e espanhóis de outras latitudes. Embora tivesse enganado a mente com interesses, foi inevitável a deceção que a longa subida parecia nunca mais terminar. Mas terminou! Foi um abastecimento à portuguesa, com uma bifana e uma cervejinha. Já farto da marmelada, bananas, laranjas, tomates, sal, amendoins, etc.

Voltei depois a correr de forma regular e fiz a descida até à ribeira do Gondramaz. Iniciou-se mais uma parte bastante técnica, também já conhecida. As pernas já não respondiam como a mesma agilidade e eu próprio já não confiava muito nos reflexos. Com naturalidade, decidi progredir com mais cuidado do que anteriormente. Uma queda ali pode ser bastante dolorosa. Deixei depois a ribeira e investi na subida para o Gondramaz através do mítico trilho do Penedo dos Corvos. Foi a parte mais difícil e mais fantástica do percurso! Se não fossem as inúmeras cordas de segurança não sei como subiria, mas tudo correu bem. A obstáculo surgia um fotógrafo para nos captar o sofrimento.

A passagem pela espetacular aldeia do Gondramaz foi rápida, mas reconfortante. Desci novamente à ribeira pelo trilho e prossegui para jusante das principais dificuldades. O declive estava vencido e bastava aguentar até Miranda. Seria quase isso. Já num percurso pouco técnico, Espinho surgiu num vislumbre de esperança. Comecei então a escutar que faltava a parte da “lama”. Lembro-me de pensar que já antes tínhamos apanhado lama e supus que não deveria ser nada de especial. Pois bem, estava enganado. Confesso que nunca vi tanta lama na minha vida. De forma contínua, os pés enterravam-se até ao tornozelo e o percurso parecia uma pista de patinagem lamacenta. Não me recordo outra situação em que tenha dito tantas asneiras em tão pouco tempo. Perdi a noção da distância, mas lá acabei por ultrapassar as dificuldades. Encontrar um caminho foi quase uma revelação divinal. Mesmo com os pés cheios de lama, voltei a correr e fiz os últimos quilómetros num ritmo forte. Fiquei com a sensação que poderia ter arriscado mais durante a prova, correndo mais nas subidas. Fica a aprendizagem para a próxima oportunidade. No final, terminei com o tempo de 9h16m, na posição 373 (de 600). Próximo do tempo esperado, mas abaixo das expetativas posicionais. De qualquer forma, tendo em conta o pouco tempo de preparação e algumas ameaças de prévios empenos futebolísticos, não foi mau. Ainda, dentro do espírito do trail, terminar já é uma boa vitória. E isso basta-me.

É difícil tentar descrever em palavras o que se sente quando se corta a meta numa prova deste género. Depois de tanto sofrimento, é uma sensação maravilhosa e faz tudo valer a pena. Por coincidência, o animador pediu-me de supetão algumas palavras. Ainda a tentar recuperar o fôlego, acho que não disse algo que fosse meritório ou adequado. Aproveito agora para escrever o que deveria ter dito naquele momento. Adorei participar nesta prova, que está bastante equilibrada em termos de tecnicidade, desnível e distância. Os trilhos técnicos da Serra da Lousã são uma referência do trail nacional e a organização do Trilho dos Abutres merece os meus parabéns mais sentidos pelo excelente trabalho que têm vindo a desenvolver na promoção desta modalidade apaixonante. Vale!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

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