22de Fevereiro,2018

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ValenteCruz

ValenteCruz

Sunday, 28 January 2018 10:00

GeoMag #fim?

Foi com muito interesse que, nos idos pré-natalícios de 2012, vi o aparecimento da GeoMagazine. Na altura, o geocaching estava em alta e tudo o que se passava no mundo da “caça ao tesouro do séc. XXI” era digno de atenção. Mesmo havendo várias plataformas dedicadas ao passatempo, desde os fóruns às redes sociais, a revista veio ocupar um vazio. Creio que o sucesso foi imediato. A oportunidade de espreitar de uma forma mais profunda para alguns temas, descobrir as histórias de quando o geocaching dava os primeiros passos, espiar nas entrelinhas de algumas caches marcantes e, acima de tudo, ficar a conhecer melhor um passatempo fascinante e as pessoas que o praticavam. Muitas vezes, apesar de as pessoas não se conhecerem, o simples facto de partilharem algo em comum cria uma empatia quase imediata.  

Cada edição era esperada com curiosidade. Quem seria a entrevista da capa? Que cache estaria em destaque? Qual o percurso que nos iria surpreender? As ideias e as histórias iam desfilando com as edições, sendo que o esforço e a qualidade eram notoriamente crescentes. Nos primeiros tempos recebi o convite para escrever sobre montanhas. Escrever sobre montanhas? Para além do regozijo em participar no projeto, ora aqui estavam duas coisas para as quais ninguém precisaria de me perguntar duas vezes. Sucederam-se quatro artigos, desde a Serra da Estrela aos Picos de Europa. Anos depois, creio que ainda continuam a ser boas referências.

À decima primeira edição fomos surpreendidos com o convite para a entrevista de capa, o que nos deixou orgulhosos. Algum tempo depois surgiu um outro convite para escrever regularmente um artigo de opinião. Num primeiro momento pensei que não teria assunto para muitas edições, mas rapidamente percebi que os temas, desde os mais humorísticos aos mais opinativos, iriam suceder-se de uma forma natural. Afinal, bastava ir em busca das opiniões e fundamentá-las. Dá trabalho, mas ajuda a definir e a compreender a própria forma como vivemos o geocaching. Quando dei conta já estava a tomar conta de mais um tópico por edição, à descoberta das caches e dos recantos mais interessantes que tinha encontrado. A necessidade de ter algo interessante para escrever, ou pelo menos tentar, acabava também por ser um incentivo para deixar o desconforto do sofá e ir à descoberta.

De todas as edições e de todos os artigos há um particularmente especial. Apesar do enorme pesar pelo desaparecimento do d3vil, das diferentes sensibilidades e das dúvidas sobre o sentido da nossa ação e de como poderia ser interpretada, avançámos para uma edição de homenagem que pretendia celebrar os momentos de partilha e os sorrisos de um grupo de amigos com uma pessoa especial e inspiradora. Ao olhar para trás, vendo o resultado e analisando a forma como a comunidade sentiu a homenagem e o legado que pretendemos deixar, sinto um orgulho enorme por ter participado na sua dinamização.

A GeoMagazine foi-se reinventando ao longo da sua existência. Passou por várias fases até que um conjunto de razões acabaram por ditar o seu fim. Não sei se será um fim com ponto final. Se todo o mundo é composto de mudança (e de fases), acredito que, mais cedo ou mais tarde, com ou sem algum acontecimento marcante à mistura, a revista regressará. Há sempre alguém generoso que persiste em reavivar as boas ideias. E a GeoMagazine foi das melhores ideias que já apareceram no geocaching nacional, tão natural como um lugar fantástico que está à espera de um passatempo tecnológico para se dar a conhecer.

Nestas situações, não gosto muito de personalizar as menções e/ou os agradecimentos. Há sempre alguém que pode ficar de fora e não quero ser injusto. Assim, agradeço a todos os que contribuíram para a revista ao longo das suas 27 edições. Eles sabem quem são. Obrigado pelo esforço, partilha, teimosia e ambição de quererem fazer do geocaching luso um lugar melhor!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt.

No encalço da Estrela Polar lusitana, atalhando por Nordeste, chegamos às terras históricas de Ribacôa. Após uma passagem rápida pela Mêda (GC3RP65), seguimos para Longroiva (GC1ZM5Z) com as expetativas em alta. Passando pelas ruas apertadas, facilmente percebemos que estamos prestes a entrar num local perdido no tempo. Contornamos a história e acedemos à torre de menagem, alcançando uma vista inteira da janela sobre a aldeia. Lá em baixo, o vale pinta um abrigo da montanha. Do outro lado da encosta, nas Chãs, o vento vai esculpindo templos naturais (GC1TQWY) nas rochas.

Um pouco para Sul, Marialva (GCPKZJ) é tão encantadora como já foi importante em manter acesa a chama da portugalidade. No interior, o espaço da secular aldeia deixa-nos um misto de admiração e tristeza. Se por um lado ao vermos as pedras tombadas e as ruínas, é impressionante pensar nas vidas e na história que por ali passaram, por outro lado fica-se com um certo aperto na alma ao notar a sua decadência. Faz-nos repensar sobre a nossa pequenez, entre o espaço-tempo que habitamos.

Retomando o Norte, a passagem por Vila Nova de Foz Côa é inevitável. A vila parece viver à sombra das gravuras, mas entre as paisagens naturais e históricas, os rios e os vales, existe muito para descobrir. Sobranceiro sobre os rios Douro e Côa, à proa de um navio intemporal, o museu (GC26EBB) é como um relógio da história da região que importa conhecer.

Do outro lado do Côa, a estrada sobe para o monte de S. Gabriel (GCTN9M), um miradouro excecional sobre planalto nordestino. Chegados lá acima, fica-se com o olhar preso da imensidão da paisagem. As encostas descem em figuras geométricas pintadas pelas árvores plantadas. Parece um quadro inspirado pelo trabalho de inúmeras gerações. Mais abaixo, Castelo Melhor (GC1BH43) vai resistindo à passagem do tempo. O peso dos séculos sente-se a cada esquina. É pena que o castelo esteja um pouco ao abandono. Num curto desvio, Almendra (GC1VH0H) é também um livro de história a céu aberto.

Acompanhando a brisa do Douro, seguimos para as terras de Numão. Mas antes é necessário conhecer o legado de história do Sítio Arqueológico do Prazo (GC3720B). O espaço parece estar um pouco entregue à sua conta, já que se vai notando alguma deterioração das estruturas de apoio ao turismo, que também deve escassear. Porém, o que realmente importa é muito interessante. Descendo às ruínas, passamos por um menir e por urnas antropomórficas. À medida que vamos percorrendo o espaço imaginamos os vários povos que passaram por ali, indagando sobre como seriam o complexo nos seus tempos áureos.

Depois, Numão. O encantador castelo de Numão (GC52ZAM). Ao longe, postas em vigilância sobre a aldeia, já se avistam a torre e as muralhas. Sabemos que iremos encontrar um monumento especial, mas ainda assim somos surpreendidos. Subimos às muralhas e vamos percorrendo o espaço até à torre de menagem. Continuamos depois pelas muralhas, contornando este legado da história. A parte mais impressionante talvez seja a muralha que fica a oeste, com uma altura e largura bastante consideráveis. Subindo o caminho, passamos pela cisterna aberta na rocha. Na primavera, o caminho é enfeitado por papoilas, que tornam o panorama ainda mais fotogénico. Mais abaixo, a aldeia adormeceu no tempo a ouvir as histórias de batalhas de outras eras.

Seguindo a jusante do Douro, o vale eleva-se em pontos de interesse sucessivos. Lá no alto, S. Salvador do Mundo (GC1284Q) ergue-se como um farol de vistas desabrigadas sobre a paisagem. Sobe-se pela estrada apertada, sempre com o olhar preso nas encostas inclinadas e com o rio numa pintura de fundo. Prosseguindo a pé pelo caminho, as capelas surgem como dois pontos brancos de fé no verde envolvente. Vale muito a pena ganhar ali vários momentos de contemplação. Na outra margem, repousa uma paisagem triunfal! A fraga desce a encosta até ao rio, onde encontra o engenho do Homem, que encontrou forma de abrir um túnel pelos seus interstícios de forma a fazer passar um comboio.

Para uma experiência mais imediata, intensa e demorada com o rio e o vale, seguindo para Norte por Nordeste, perfazem-se os doze traços de história e paisagem calcorreando a antiga Linha do Douro (GC1BRPH). De regresso, pode-se deambular pelas fascinantes e geométricas paisagens vinhateiras do Douro.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Monday, 18 December 2017 10:00

Almanzor, tecto de Gredos

O Almanzor (GC1GEKA), pico da Sierra de Gredos, já há algum tempo que fazia do meu imaginário pseudo-montanhista. Após a épica subida ao pico Torrecerredo (GC3PR09), nos Picos de Europa, comecei a apontar sonhos e vontades para esta conquista. Depois de passagens pela Sierra de Francia, rumámos à Sierra de Gredos para tentarmos a mítica ascensão. Como é natural nestas coisas, e ainda bem, o Almanzor fica longe da estrada. Manhã cedo, com uma brisa gelada a testarmos a resiliência, estacionámos no final do alcatrão, na Plataforma de Gredos, e fizemo-nos ao caminho.

O percurso até à Laguna Grande, onde está situado o refúgio Elola (GC33WKP), é muito fácil de seguir. Apesar de ser sempre a subir, a inclinação não é um problema. Para o bem ou para o mal, o caminho está em muitos troços coberto de pedra disforme. Para a ida é quase indiferente, mas no regresso a pedra acaba por agravar o cansaço dos pés. Após a passagem de uma ponte, onde inclusive aproveitámos para fazer um pequeno desvio para vermos uma cascata, o trilho torna-se um pouco mais íngreme e assim vai subindo até alcançarmos uma doce planura. Pelo meio temos a possibilidade de refrescar as ideias e o corpo numa fonte estrategicamente bem colocada.

Chega então o primeiro momento de espanto, no primeiro avistamento do Circo de Gredos. À nossa volta erguem-se inúmeros picos, formando quase um círculo, suspensos sobre uma lagoa que existe aos seus pés. Ao lado, um placard informativo enumera os diferentes picos. A meio, um pouco mais altivo que os restantes, o Almanzor lançava-nos o desafio.

A descida para a lagoa faz-se sem dificuldades e as pernas agradecem a simpatia do declive. À medida que nos aproximámos da lagoa, os picos envolventes tornam-se ainda mais gigantes e o Almanzor ficava mais senhor de si e de nós. Cá em baixo, rodeados de anseios e suores, tudo parece para lá de difícil. Passámos depois em curiosidade pelo refúgio Elola, visitando o espaço que todos os dias alberga dezenas de pessoas e cujos mantimentos são trazidos de helicóptero.

De esperanças recuperadas e mais altaneiras, iniciámos então a subida ao Almanzor. O início do percurso é acessível, mas cada olhar para o céu lembrava-nos que rapidamente as coisas iriam complicar-se. A acumulação de pedras que caíram das encostas é tanta que o percurso acaba por transforma-se num saltar de pedra em pedra, sempre a subir. No último quilómetro o chão levanta-se num desafio bastante acentuado, sendo que o que complica mais é a incerteza do passo, dada a miríade de pedras, pedrinhas e pedritas.

 Ao invés de fazermos uma abordagem direta ao pico, acabámos por subir para uma janela que fica um pouco mais à esquerda, de maior distância, mas menor inclinação. Lá em cima encontrámos uma vista esplendorosa para o outro lado, alcançando a planura do horizonte longínquo. O trilho alterou-se então e passámos por cima de pedregulhos, ajeitando com as mãos o que o cansaço ia diminuindo em equilíbrio. Ao chegarmos ao cimo daquela vertente reparámos que estávamos a um pico do Almanzor, mas isso não nos demoveu. Aproveitámos então para almoçar e recuperar as energias com uma vista fantástica.

Após alguma busca, lá conseguimos acertar com o acesso para a subida final do Almanzor. Creio que é natural considerar que, após aquela subida exigente, a Natureza poderia facilitar-nos a vida para a conquista derradeira. Mas não, a ascensão final mete respeito e exige muita atenção, bom senso e pouca sensibilidade a vertigens. Após algumas partes mais técnicas, a chegada ao pico encerra uma felicidade difícil de transcrever em palavras. Apenas vivendo o momento é que se percebe o seu significado e singularidade. A assinatura no papel da caixa metálica cravada na rocha oficializou o instante. À volta, o Circo de Gredos surgia inteiro no nosso olhar e ficará gravado na memória.

A descida revelou-se tão ou mais difícil que a subida, dado que a vertigem surge de frente aos nossos olhos e anseios. Mas, com o devido cuidado, tudo correu bem. No regresso ao lago encontrámos alguns cavalos, muito fotogénicos, que andavam por lá a pastar. Referência ainda para as inúmeras cabras selvagens que encontrámos no percurso, inclusive no topo, umas mais ariscas e outras bastante dadas à pose fotográfica e ao contacto humano. O percurso, de cerca de 22 quilómetros, pode ser visto/descarregado aqui.

Palavra final para a Valente. Conseguiu ultrapassar as dúvidas e o cansaço, superando-se a cada passo e fazendo de mim uma pessoa com o orgulho do tamanho do Almanzor. Vale!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

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