23de Outubro,2021

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ValenteCruz

ValenteCruz

Saturday, 14 August 2021 17:00

sunrise@CântaroMagro_21

Num ano em que a paternidade redefiniu as prioridades, o sunrise@CântaroMagro_21 foi adiado do habitual período de solstício de verão e considerado apenas mediante disponibilidade. O alinhamento celeste acabou por permiti-lo no primeiro dia de agosto. Dadas as circunstâncias e o contexto de pandemia, e já depois de no ano passado este nascer do sol ter tido uma versão familiar, desta vez surgiu a possibilidade de concretizar a vontade antiga de uma versão solitária.

Como habitualmente, e para aproveitar a ida à Estrela, o dia de sábado serviu para fazer uma caminhada pela serra. Comecei na Torre e segui pela cumeada da Alvoaça, descendo depois para Alvoco. Durante a tarde fiz a subida de regresso à Torre pela Rota do Pastoreio, repisando a mítica aventura da Oh Meu Deus – Ultra Trail Serra da Estrela. O dia terminou tal como tinha começado, com muito vento e um nevoeiro sebastiânico.

Ainda na Torre, enquanto fazia contas ao desânimo, tornou-se óbvio que com aquele tempo não fazia sentido ficar para o nascer do sol. Não obstante, antes de regressar a casa teria sempre de passar pelo Cântaro Magro e, se viável, subir ao seu cume. Foi então que a serra mostrou, mais uma vez, as suas especificidades meteorológicas. Ao chegar ao estacionamento do cântaro percebi que o nevoeiro apenas dominava a metade poente da serra. A partir da depressão do Covão Cimeiro o nevoeiro esfumava-se, como se algo tivesse erguido ali uma barreira invisível. Com o horizonte nascente pintado de azul, reformulei o plano e preparei-me para a estadia.

Mesmo depois de várias subidas continua a ser impressionante contemplar e vencer a sensação de inacessibilidade que se tem do estacionamento. Parece que é impossível lá chegar, mas basta saber como. A subida ao Cântaro Magro decorreu sem sobressaltos, palmilhando o trilho escondido, num reencontro entre o granito do maciço e as mãos. Lá em cima fui percorrendo calmamente os recantos e as memórias, nomeadamente na revisitação ao manuscrito d’O tempo inquieto. Desta vez não tive direito a por-do-sol, mas a visão do mar de nevoeiro a descer em farrapos de nuvens sobre o Covão Cimeiro foi igualmente fascinante.

Após um jantar reconfortante falei com as princesas e brindei à vida no pico do cântaro. A noite caíra entretanto, mas o quarto minguante lunar ainda permitia ver com alguma clarividência. Aliás, não cheguei a usar luz artificial durante todo o tempo que lá estive. Devido ao vento forte, a sensação térmica aproximou-se dos zero graus centígrados, pelo que foi importante ir preparado. Deitado sob um manto infinito de estrelas aproveitei então para descansar. Porém, o corpo estranhou a dormida e passei a noite num sono leve, divagando pelo prazer da experiência, abrir os olhos e contemplar o céu estrelado.

Acordei às seis horas, peguei na máquina e segui para o pico rochoso. No horizonte rubro subsistia uma tira de nuvens um pouco acima, mas a zona onde o sol haveria de aparecer estava liberta. Um vento frio assobiava no cume serrano e aproveitei para me resguardar um pouco, enquanto ia registando os momentos. O sol aparece todos os dias e em todo o lado, mas ali é diferente. O momento é verdadeiramente mágico e transcendente! Após ter surgido inteiro, o sol escondeu-se na tira de nuvens e reapareceu depois em definitivo. Foi tempo então de arrumar as coisas, despedir-me do Cântaro e voltar a casa.

Com esta experiência solitária fechei um ciclo de dez anos a ver nascer o sol no topo do Cântaro Magro. Começou como uma experiência reservada para servir de inspiração, passou por um evento em que estiveram presentes até cerca de oitenta pessoas (o que levanta várias questões, dúvidas e ansiedades) e transformou-se em algo identitário, como se fosse uma necessidade intrínseca. Fica a vontade de regressar em cada ano e a perspetiva que volte a ser algo mais reservado. Dez anos depois, creio que o primeiro dia do ano no meu mundo passou definitivamente a ser este nascer do sol. O deste ano foi ainda mais especial pela paternidade, que embora longe estava ao alcance da primeira luz, sob o brilho do melhor lado da vida e do sonho. E assim se passaram dez anos a ver nascer o sol no Cântaro Magro.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

   

Sunday, 27 June 2021 17:00

Ruta del Cares Xtrem

Depois de uma entrada fascinante nos Picos de Europa pelo Pico Gilbo, seguimos para a Cantábria em busca de mais experiências fabulosas. Para o primeiro dia estava destinado este percurso, porventura um dos mais famosos. Agora, entre o sossego de grandes recordações, achamos que a dificuldade em descrever as nossas vivências por lá são tão grandes e belas e como aquelas montanhas. Persiste a sensação de que tudo o que se possa dizer pareça pouco. Ainda assim, aqui ficam estas palavras, à espera e com a esperança que o tempo as possa apurar.

A Ruta del Cares é um percurso linear com cerca de 12 km, entre as localidades de Poncebos e Cain, aberto literalmente nas encostas e escarpas rochosas do rio Cares. O percurso foi criado para acompanhar a construção de um canal de água de aproveitamento hidroelétrico. Antes de mais importa agradecer às pessoas que ali trabalharam e criaram uma grande obra de engenharia. Sendo um percurso linear, e como a viagem por estrada é grande, a distância total da caminhada passa então para os 24 km. Com cerca de 700 metros de desnível, o trilho apresenta uma subida mais acentuada no início, mas depois vai-se tornando plano. Pelo terreno irregular e pela distância é importante selecionar um bom calçado. Como o percurso é bastante concorrido e os lugares de estacionamento não são muitos, ir um pouco mais cedo pode fazer a diferença entre começar próximo do início ou acrescentar mais alguns quilómetros à contagem.

Ao chegarmos ao estacionamento, em Poncebos, e depois de nos certificámos que tínhamos tudo o que precisaríamos para a viagem, carregados de expetativas, fizemo-nos ao caminho. À nossa volta, os picos erguiam-se, senhores de toda a vida que por ali passa. Percebe-se porque os cristãos tenham encontrado aqui o seu último refúgio de liberdade na antiga Hispânia contra o avanço muçulmano. Vencida a subida inicial chegamos ao grande anfiteatro do Cares que se estendia a montante. As encostas tornaram-se ainda maiores e escarpadas e no horizonte montanhoso era percetível o trilho escarpado. Mais à frente, o percurso fura pelas paredes verticais, acompanhando o canal e o rio.

Um pouco antes de chegarmos a Cain decidimos apimentar a aventura e descemos ao rio com o intuito de subirmos ao planalto na outra margem. Durante a descida vislumbrámos, lá em baixo, a pequena ponte sobre um azul intenso, que corria desfiladeiro abaixo, capaz de fazer inveja ao céu. Facilmente percebemos por onde deveríamos descer para ter acesso ao rio e seguimos pelo trilho, que desce a encosta em ziguezagues constantes. Sabíamos de antemão que a água estaria fria, mas não esperávamos que fosse a mais gelada.

Iniciámos de seguida a subida Cares Xtrem até ao prado altivo da outra margem. E se a descer todos os santos ajudam, a subida fez jus ao nome da experiência. A ascensão foi realizada em ziguezagues constantes de uma verticalidade respeitável. A dado momento fomos por um atalho que nos dificultou ainda mais a subida, junto à parede da fraga. Ao chegarmos ao prado tivemos uma enorme sensação de pequenez. É impressionante a quanto estas montanhas nos reduzem! Descemos depois até aos escombros de uma cabana, onde completámos a descoberta. Ali, entre dois burros que pastavam, alheios a tudo, fizemos o registo da nossa passagem pelo local. Não será fácil encontrar outra paisagem tão grandiosa para escrever alguns rabiscos, por certo insignificantes quando comparados com o cenário.

Na descida descortinámos o trilho que deveríamos ter seguido na subida e o cruzamento do engano. Criámos por lá uma mariola, para que outros não tenham o mesmo imprevisto. Passámos pela ponte em ritmo acelerado e, depois da subida da encosta na outra margem, reencontrámos a Ruta del Cares. Retomámos a rota e passámos pelos sucessivos túneis e pontes até chegarmos à repesa de Cain, que marcou o meio da nossa aventura. Ao chegarmos, fomos de imediato até à ponte mais acima e passámos para a outra margem, onde aproveitámos para descansar e almoçar. Fomos depois revisitar a repesa e, depois de um café, encetámos a viagem de regresso, revivendo as paisagens maravilhosas de um dos percursos mais majestosos que se pode fazer.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

Saturday, 17 April 2021 17:00

Fafião, Sombrosas à Messe, que Rocalva!

Num dia de liberdade pela montanha, longa e solitária caminhada com início em Fafião, passagens por Porto da Laje, Porta Ruivas, Prados da Messe, Rocalva, Bicos Altos, Ponte da Matança e regresso a Fafião, num total de 32 km (percurso). Para além do habitual fascínio geresiano, gostei de terminar bem e num bom ritmo. Cada regresso à Serra do Gerês é uma oportunidade de reencontro com uma essência secular de resiliência e equilíbrio natural. Nos dias que correm, para quem se aventura à sua descoberta, pode servir também de psicólogo, promotor de uma certa harmonia pessoal e refúgio dos ritos da vida moderna.

Manhã cedo, cheguei a Fafião e estacionei junto à estrada principal. Com tudo preparado, iniciei a caminhada pelas ruas intrincadas em direção ao famoso Fojo do Lobo, que aproveitei para revisitar. Subi depois em direção ao Miradouro de Fafião. Desconhecia a sua existência, pelo que foi uma excelente surpresa quando encarei os dois enormes penedos no topo da encosta com uma ponte entre eles. A travessia faz-se sem problemas e, embora as vistas sejam semelhantes, é mais reconfortante para o sentido de aventura pisar o topo do rochedo que se ergue na paisagem do outro lado do desafio.

O percurso subiu depois a encosta, alternando entre caminhos largos e trilhos. À medida que a altitude aumentou, a paisagem foi-se tornando mais despida de arvoredo. O caminho acessível a veículos terminou num parque de merendas no planalto serrano, com boas vistas para o vale. O abrigo assemelha-se a uma casa dos Flintstones, ideal para um dia com sabor a montanha e a benesse da acessibilidade. A partir dali o percurso prosseguiu pelo trilho de pastoreio que deambula a meia-encosta sobre o rio Fafião. Pouco depois, tive a primeira visão inteira do desafio da subida das Sombrosas. Tinha passado ali há cerca de oito anos, vindo de uma pernoita memorável na Rocalva. Apanhei a promessa de um regresso que ali tinha deixado e continuei em modo acelerado pelo trilho, que em algumas partes fica um pouco mais vertiginoso e desafiante. Um pouco mais à frente considerei uma descida às lagoas cristalinas, mas acabei por desistir da ideia pela longa caminhada que tinha pela frente.

Na chegada ao Porto da Lage, junto à represa, passei por uma manada de vacas e prossegui para o encantador Prado da Touça, onde reencontrei o típico abrigo. O local parece reduzir-nos ainda mais à nossa pequenez, assoberbados pelos grandes vales da Touça e do Laço. Passando pelas cascatas e lagoas idílicas, iniciei a exigente subida para o topo das Sombrosas. Leve e ligeiro, acabei por ter menos dificuldades do que a memória afiançava. Os patamares sucederam-se naturalmente e a visão sobre os vales limítrofes ganhou mais amplitude. Alcançado o primeiro pico, tentei aproximar o percurso ao lado mais exposto, sobreposto ao Vale da Touça, mas a irregularidade do terreno dificulta a progressão. Após vários atalhos e experiências, consegui aceder à vertente que me levaria ao topo da Porta Ruivas (ou Roibas, como assinalado da placa do abrigo do prado homónimo). Lá em cima, aproveitei para fazer a paragem de almoço, abrigado do vento.

Ao descer do maciço rochoso passei pelo prado e acelerei depois em modo corrida pelo planalto. Apanhei posteriormente o trilho que vem desde a zona das Minas dos Carris e prossegui em direção aos Prados da Messe. O prado principal parecia ter sido recentemente alvo de um incêndio controlado para renovação das pastagens. Após uma breve vistoria às boas condições do abrigo, aproveitei para abastecer de água e continuei em ritmo de corrida pelo planalto serrado. Após a passagem pelo Prado do Conho, pontuado pelo enorme penedo vertical, decidi fazer um pequeno desvio, seguindo no trilho do Prado do Vidoal e até à Lomba de Pau, de onde tive uma visão alargada dos dois lados da serra. Um vento frio seguia de cume em cume, assobiando conselhos por trilhos mais protegidos.

Contrariando a vontade de seguir em linha reta até ao próximo objetivo, desci até à encruzilhada e prossegui em direção ao Prado da Rocalva. Não existirá monólito nesta serra mais caraterístico e emblemático, pelo que é sempre um prazer ver surgir este gigante granítico. Ficou, mais uma vez, a promessa de subir ao seu topo, após uma tentativa insípida há alguns anos. Este prado, tal como os outros, ainda estava bastante verdinho, criando contrastes interessantes nas fotos. À chegada ao abrigo encontrei as únicas pessoas que vi nesta caminhada (não contando com a aldeia), que iriam pernoitar na montanha. Após uma breve e agradável conversa de partilha de interesses, retomei a corrida em direção ao Prado Vidoeirinho. O Estreito do Laço apareceu logo depois, abençoado com as mesmas visões de quase sempre para o profundo Vale do Laço e a parte superior do Vale do Conho.

Continuando pelo planalto, deixei os acessos aos vales para trás, e prossegui pelo trilho em frente. Aproveitei depois um desvio para aceder a um pico com boa vista para as duas rocas e fiz mais uma paragem no abrigo Pradolã. Na descida posterior aproximei-me da encosta sobreposta ao prado e abrigos dos Bicos Altos e não consegui resistir a mais um desvio, por onde nunca tinha passado. Retomando a corrida, fui apanhar o trilho mais à frente e iniciei a descida para a Ponte da Matança. Como o trilho parece ser pouco usado e as encruzilhadas são muitas, foi necessário validar com frequência o percurso desenhado no plano para garantir que estava no caminho certo.

Várias decisões e curvas depois, consegui chegar à Ponte da Matança, atravessei o rio e iniciei a subida para Fafião. Junto ao rio, tudo ganhou ainda mais grandiosidade, desde a vegetação e a diversidade até às paredes graníticas verticais. O trilho furou pelos túneis do arvoredo, circundando os penedos da encosta ingrime. Não demorei muito tempo a chegar à bifurcação por onde tinha passado de manhã e prossegui em corrida para a aldeia, fazendo mais duas breves paragens no miradouro e no fojo. Para trás tinham ficado cerca de 32 km, já reduzidos de alguns desvios, e 11 horas de silêncio e solitude na montanha.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

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