01de Dezembro,2021

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10 December 2014 Written by  Global trekkers

Global trekkers found Just get there!

Found it global trekkers found Just get there!


#3605

Aventura nas Portas do Ródão.

Desde que foi publicada há quase 5 anos, a busca desta cache alimentou sempre a nossa imaginação, sobretudo por se encontrar inserida num verdadeiro monumento natural de enorme enquadramento cénico, qual santuário de rapinas de grande envergadura e ícone de toda uma região.

“Acesso” era mesmo a palavra-chave desta cache. Os registos iniciais deixavam antever uma tarefa muito complicada em termos de acessibilidade, a qual era no entanto grandemente compensada pelo ultrapassar do desafio (tanto físico como psicológico) e sobretudo pelas grandes paisagens e oportunidade de vislumbrar estes enormes seres alados que chegam a atingir 2,80m de envergadura.

Quando no final de 2012, foi atribuída à equipa do ISA/IST, o projecto de determinação do regime de caudais ecológicos a jusante da futura barragem do Alvito, logo imaginei que oportunidades não iam faltar para procurar esta cache, já que agora teríamos amostragens piscícolas sazonais nos afluentes próximos (rio Ocreza e ribeira do Alvito), aproveitando quiçá uma manhã/tarde de descontracção para vir procurar esta cache. Este sentimento ficou ainda mais fortalecido quando desafiei a Isabel (IST) para tal demanda, a qual logo se prontificou para preparar uma verdadeira auto-estrada para a cache.



As saídas sazonais foram-se sucedendo, mas o trabalho de campo, sempre muito exigente e demorado, não nos deixava tempo para virmos procurar a cache. Entretanto com a atributo de sazonalidade (bem) colocado pelo owner em Março 2013, e com a última amostragem a ter lugar em Junho desse ano, logo ficaram por terra quaisquer esperanças de podermos abraçar esta aventura conforme tínhamos imaginado. Procurar esta cache nos meses de Verão (Agosto/Setembro) jamais estaria equacionado, pois sabíamos por experiência própria as quão árduas são as condições ambientais nesta zona do país e em particular nos vales escaldantes do Ocreza.

Com a cache disponível agora durante 4 meses por ano, sendo que 2 desses meses eram precisamente meses a evitar (Agosto/Setembro), restava somente Outubro e Novembro como época potencial para vir procurar a cache. Todavia, sendo uma altura bem mais amena em termos de temperatura do ar, é também mais húmida e chuvosa, sobretudo neste ano como recentemente se assistiu, tornando bastante mais perigosa uma eventual abordagem terrestre.
E assim foi então ganhando contornos uma eventual abordagem fluvial, a partir do cais de Vila Velha de Rodão até à Porta esquerda deste monumento, de onde se faria a atracagem e a subsequente subida íngreme até ao ponto zero.

Logo começámos a delinear o plano para este outono, pensando em aproveitar um ou outro fim-de-semana de Outubro, altura em que estaria ainda em vigor a hora de verão, dando-nos mais tempo e oportunidade de fazer outros passeios pela zona. No entanto, a chuva continuada em todos (ou quase todos) os fins-de-semana foram progressivamente gorando os nossos planos mais imediatos e adiando para Novembro a realização da dita aventura. Novembro, como se sabe não foi melhor, muito pelo contrário, com a chuva presente (e em quantidade) em quase todos os fins-de-semana. Com o mês a caminhar célere para o seu fim, tal como a acessibilidade desta cache, já estávamos com efeito a desanimar relativamente aos nossos planos. Eis então que finalmente se abre uma possível janela temporal: no último fim-de-semana de Novembro (29/30), o tempo vai melhorar, não se prevendo já chuva em todo o território nacional”. Era pois a nossa janela de oportunidade há muito esperada!


No Sábado deixámos Lisboa com destino a Vila Velha de Ródão. Ainda nem tínhamos chegado à povoação e já estávamos a estacionar nas imediações do castelo do Rei Vamba com o objectivo de fazer a abordagem terrestre à Porta direita através da cache “Far away, so close”. O intuito era mesmo ter a visão de cima, em todo o seu esplendor, do grandioso monumento que iríamos enfrentar no dia seguinte. Chegados à extremidade do abismo logo fomos presenteados com a visão literalmente avassaladora de ambas as Portas, em particular daquela que seria futuramente alvo da nossa aventura. Lá em cima, a várias dezenas de metros pairavam em círculo os grifos e talvez alguns abutres, únicos guardiões destas paragens isoladas. Mesmo neste ponto não é fácil descortinar um eventual caminho terrestre sem o auxílio de cordas, já que todas as paredes que rodeiam a gruta parecem ter uma inclinação bastante acentuada, fazendo esmorecer qualquer possível tentativa de abordagem. Felizmente, que a nossa seria por via fluvial, pelo que a única preocupação era saber se o local oferecia condições de atracagem segura para uma canoa/kayak e posteriormente se o terreno oferecia condições para uma progressão sem problemas.

No Domingo chegou então o dia da procura da cache, curiosamente o último disponível antes de esta entrar num (longo) período de inoperacionalidade. O dia acordou muito nublado e não com céu azul como esperávamos. Aliás na noite anterior chegaram mesmo a cair alguns aguaceiros nesta região. Isso não foi contudo suficiente para sequer beliscar a nossa motivação que estava bem no auge. Devido ao preço muito acessível do aluguer de kayak no local onde estávamos alojados, nem nos demos ao trabalho de trazer o nosso insuflável, que só de encher, desencher e sobretudo secar, já causaria algum transtorno. Por volta das 10.30h no cais fluvial, partimos finalmente de VVR rumo às tão apetecíveis Portas.


Logo nas primeiras centenas de metros, fomos brindados pelo primeiro aguaceiro da manhã que felizmente não durou mais do que uns 10 minutos. Depois, a chuva deu lugar ao silêncio que somente era quebrado pelo penetrar das pagaias na água, causando ligeiras ondulações naquilo que antes era um perfeito espelho de água, reflectindo de ambos os lados a monumentalidade da pedra bem mais ao longe. Não nos vamos esquecer destes momentos que decorreram após passarmos debaixo da ponte e a entrada nas portas, com somente estas à nossa frente. Parecia que estávamos no cenário de “O Senhor dos Anéis – a Irmandade do Anel”, quando esta irmandade, navegando em pequenos botes através do Anduin, se aproxima precisamente do cenário grandioso das Argonath, ou As Pedras dos Reis, simbolizando ambas os filhos de Elendil, Isildur (mais velho) e Anárion (mais novo). Inesquecível.

Com a aproximação às Portas e a largura do rio a estreitar, devíamos ser agora pequenos pontos insignificantes para quem nos estivesse a ver próximo do local onde estivéramos no dia anterior, na “Far away, so close”. Agora a próxima tarefa era encontrar um ponto adequado para a atracagem na margem. E foi isso mesmo que fizemos após uma breve prospecção pelos possíveis locais. Subimos a canoa para uma cota de cerca de 1m em relação ao nível da água, não fosse acontecer alguma súbita inesperada subida do nível da água, passível de levar o nosso meio de transporte.


Iniciámos seguidamente a subida, calmamente e sem pressas, até porque as recentes chuvadas tornaram o piso bastante mais escorregadio que o habitual. Ainda assim, devo confessar que achei a progressão bem mais fácil do que estava à espera, pois imaginava o terreno coberto de grandes e impenetráveis silvas, ao ponto de inicialmente termos ponderado trazer a catana para esta demanda. Ainda bem que não o fizemos.

 


A progressão Porta acima não teve dificuldades de maior. Á medida que íamos progredindo em zig-zag para facilitar os movimentos, o enquadramento cénico tornava-se cada vez maior em proporção com a nossa ansiedade que aumentava igualmente a cada passo. Por esta altura, as rapinas, outras sentinelas vigilantes aguardando nos penhascos, rodopiavam agora em longos círculos acima de nós como que adivinhando a invasão do seu território por outros seres que não elas. Infelizmente o contacto mais perto que tivemos com elas, foi quando achámos duas bonitas penas no chão mesmo à entrada da gruta. Mas tivemos sorte ao termos a felicidade de avistar um exemplar de cegonha-negra a atravessar a secção de rio entre as duas Portas. Fabuloso!

 


Foi magnífica a sensação de ter chegado a este ponto (gruta) e daqui apreciar toda esta beleza monumental das Portas do Ródão, cruzando o rio e subindo a montanha até aqui chegar. A gruta, como esperávamos apresentava-se sem qualquer animal nas imediações. Lá dentro somente uma cache para ser encontrada. E após um breve descanso, foi a isso mesmo que nos dedicámos. Procura acima, procura abaixo e nada de cache. O problema é que subir aquelas paredes, aparentemente muito fácil na época seca, era agora um verdadeiro desafio ao equilíbrio e uma roleta russa do cai/não cai, já que nelas havia agora pequenas cascatas resultado de alguma infiltração nas paredes e claro, graças à intensa precipitação que se fez sentir neste mês. A forma mais fácil de chegar foi mesmo enfiar-me numa das fendas da extremidade da parede e ir rastejando parede acima ao longo da mesma até ao patamar seguinte. E foi aí que demos com a cache! Belíssimo!

Estava cumprida a missão. Era agora a altura de regressar, descer toda a encosta até ao nível da água e daqui partir para VVR com a canoa que deixáramos “estacionada” na margem. A descida decorreu sem qualquer problema, tal como a viagem de regresso à povoação. Para trás foi ficando este cenário idílico que nos fez viver momentos inesquecíveis em mais uma bela aventura de geocaching. Não é a cache em si a mais-valia, mas ao invés os momentos que esta proporciona até chegarmos a ela. Esses certamente não esqueceremos das nossas memórias.

Agradecemos ao Manel por esta cache. As suas caches são sempre sinónimo de grandes, deliciosos e inesquecíveis fins-de-semana de aventura. Já o foi com outras tantas caches (Em Busca da Nascentes do Sado / Rota do Contrabando / Os Calvários / Linha do Douro) e agora voltou a ser a mesma coisa! Muito bom! São estas as caches que nos fazem “rejuvenescer” para o geocaching e fazer acreditar que afinal nem tudo vai mal nesta actividade. Muito obrigado.


P.S. Deixando um conselho aos futuros visitantes que como nós venham com algum tempo (fim-de-semana) para ir em busca de esta ou outras caches nas redondezas, não deixem de visitar aquando da estadia em VVR, o CIART (Centro de Interpretação da Arte Rupestre do Tejo). Ficarão certamente impressionados (como nós ficámos) com a riqueza dos vestígios de gravuras rupestres encontrados nesta região entre 1971 e 1974, e que agora jazem quase todos (90%) submersos aquando da construção da barragem do Fratel. Felizmente muitos desses vestígios foram a tempo de serem inventariados e documentados antes de serem permanentemente submersos, encontrando-se muitos deles agora expostos (fisicamente ou sob a forma de gravuras) para os visitantes. Não deixa de ser curioso que nestes locais onde reinam agora abutres, grifos e bufos, já outrora no Paleolítico Médio (30000-100000 anos atrás) caminharam em terra, imagine-se…rinocerontes e elefantes! Quem diria!? Já nessa altura estariam em declínio, pensando-se que a Península Ibérica tenha sido das últimas zonas da Europa a desaparecerem.

 



1 comment

  • Comment Link PedroAmorim 13 December 2014 pedroclagartos

    Que log maravilhoso...

    Se já tinha vontade de ir a esta cache, agora fiquei com muito mais...

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