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E ainda que eu caminhe por um vale encantado, não temerei o xisto Featured
10 August 2019 Written by 

E ainda que eu caminhe por um vale encantado, não temerei o xisto

Serra da Lousã. Nem todos os castelos tiveram a sorte de nascer num ambiente natural que parece saído de uma história de encantar. Serpenteando pela estrada, ao primeiro avistamento, percebemos que estamos a chegar a um sítio distinto. Parece um segredo de arte erguido pelo xisto e escondido pelas encostas abruptas das serranias envolventes.

Para além do regresso ao castelo (GCVN3W) e da icónica ermida da Sra. da Piedade no topo do penhasco, o nosso interesse desenrolava-se pela linha estreita (GC1Q3GM) do canal que traz a água até à mini-elétrica. Fizemos o percurso há cerca de nove anos atrás, mas ficamos tão impressionados com as vistas vertiginosas sobre o vale que o regresso era uma inevitabilidade. Juntamos mais algumas aldeias de xisto ao cardápio pedonal e ficamos com um percursos mais interessantes que se podem fazer por cá.

Saímos do castelo e seguimos o caminho até à mini-elétrica. A proeminência que se ganha sobre o castelo e a ermida é ótima para conseguir bons registos fotográficos. Depois, é sempre a descer até ao rio Arouce. A chegada ao edifício recuperado pode assustar os mais distraídos, mas o cão de vigia faz mais barulho do que ameaças reais. Estando no local vale a pena subir a escadaria de xisto e visitar a ermida que fica a meio da encosta entre o rio e a estrada.

Passando a ponte, o trilho serpenteia por três curvas quatro curvas até chegar ao final da levada, de onde a água segue por um tubo para a mini-elétrica. O aviso do perigo de queda deve ser levado a sério, mas basta algum cuidado para a caminhada pela levada se fazer sem problemas. O percurso é fantástico, tanto pela vegetação exuberante como pela presença constante da vertigem. Em alguns locais o precipício é mais imediato e parece desaparecer num vazio verde.

Ao chegarmos ao fim da primeira parte do percurso fizemos um atalho na aventura e aproveitei para subir a um penhasco próximo (GC5F4MW). Fomos depois dar uma voltinha rápida pela levada que vem da ribeira de outra encosta até ao terreiro onde havíamos estado há cerca de nove anos. Subimos depois a encosta numa longa caminhada até ao Candal. À medida que vamos subindo a vegetação torna-se talvez menos interessante e aparecem os primeiros exércitos de mimosas.

Antes de chegarmos ao Candal aproveitamos para visitar a bucólica cascata, descendo pelas escadas das leiras da encosta até ao ribeiro. No regresso, em pouco mais de nada estávamos na aldeia de xisto. Não sabemos como era antes, mas a recuperação parece ser excelente. Aproveitamos para almoçar e conhecer melhor a aldeia, pelas ruas ingrimes e estreitas, de casas alinhadas e aconchegadas entre si, como se fossem um rebanho abrigado do inverno.

Deixando o Candal para trás, seguimos o longo caminho pela encosta até à aldeia vizinha do Catarredor (GC212JY). O trilho vai serpenteando em pequenas subidas e descidas constantes, sendo por vezes um pouco técnico. Fiquei com curiosidade para regressar num contexto de ultra-trail. Já conhecíamos histórias de outros visitantes sobre a suposta comunidade que cultiva ervas aromáticas que fazem rir. De facto, alguns adereços alternativos nas casas conferem-lhe alguma distinção, mas acabamos por não conhecer qualquer habitante nem vimos outras suspeitas.

O percurso até à aldeia seguinte de Vaqueirinho também se fez sem problemas e de forma rápida. A aldeia é mais pequena e parece ter sido menos afortunada do que outras da região no que diz respeito à roleta das recuperações turísticas. Prosseguimos depois em direção ao Talasnal (GC166CQ), que talvez seja a mais famosa aldeia de xisto da região. É curioso notar a diferença do arvoredo entre esta zona, composto sobretudo por pinheiros, e a zona que fica cerca de duas centenas de metros mais abaixo, por onde passa o canal de água. Na chegada à estrada que desce para o Talasnal percebemos que era dia de feira na serra, tal era o trânsito no asfalto estreito. O Talasnal parece um cartão postal. Tudo está arranjado, bonito e no sítio. Ainda assim, enquanto saboreávamos uma bebida fresquinha com vista privilegiada sobre o vale num café a cheirar a turismo, desejei que as estradas nunca cheguem à “minha” Drave.

Iniciamos a descida de regresso ao castelo. Para além do interesse do percurso antigo pelo xisto, é ótimo ver o enquadramento do Talasnal no cimo da encosta, também com as casas alinhadas entre si numa linha que parece fitar o horizonte. Passando por um vasto mimosal, iniciámos depois a descida final. Faltava reencontrar a magnífica ermida da Sra. Da Piedade, posta em sossego contemplativo sobre o penhasco, e a zona envolvente. Foi um enorme prazer regressar a este trilho, revisitar alguns locais e conhecer outros. Tudo ali parece bem enquadrado numa natureza com sentido e de uma portugalidade secular.

O percurso de 20 km pode ser visto/descarregado aqui.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt



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