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Serra Amarela e Nebulosa, entre o riso aberto dos grandes sóis Featured
20 July 2019 Written by 

Serra Amarela e Nebulosa, entre o riso aberto dos grandes sóis

A travessia da Serra Amarela era um plano adiado desde a épica aventura das Montanhas Nebulosas, há cerca de sete anos atrás. Com o objetivo de aproximar o trajeto à linha de fronteira e dadas as dificuldades do relevo, na altura optamos por traçar a caminhada com uma subida à vizinha Senhora do Xurés. Depois de muitas dificuldades de progressão, e também pelo discernimento do Joom, uma trovoada convenceu-nos que o melhor seria evitar a pernoita na serra e procuramos a proteção da capela de Santa Maria Madalena, junto à fronteira. Curiosamente, fomos acordados por uns “contrabandistas” que se lembraram de ir para ali fumar umas risadas a dois metros dos nossos sacos-cama e que até hoje creio que não terem dado conta da nossa presença.

Histórias à parte, naquela travessia, apesar de termos feito os quilómetros por outro lado, faltou vencer a Serra Amarela. Aproveitando mais uma corajosa expedição às Montanhas Nebulosas, juntei-me ao grupo para finalmente corrigir a história. Manhã cedo cheguei ao Castelo de Lindoso, onde o grupo ultimava os preparativos. Depois do reencontro e da foto da praxe saímos da aldeia e começamos a subir a encosta. A primeira parte do percurso pela estradão tem como principal motivo de interesse as vistas sobranceiras que se vão ganhando sucessivamente para a aldeia, o castelo, a albufeira e as encostas vizinhas.

Numa subida progressiva e acessível, depois de passarmos pela casa florestal, deixamos o estradão e continuamos por um trilho, o que tornou o percurso ainda mais interessante. Um pouco mais acima avistamos o desejado Curro da Travanquinha. Foi um prazer entrar no espaço murado e percorrer os metros até chegar ao abrigo, que parece estar em excelente estado de conservação. Depois, à medida que fomos subindo, o curro foi surgindo mais inteiro e elegante na paisagem, tendo como plano de fundo as montanhas e manto de água do Alto Lindoso. Chegamos então a uma zona com algumas árvores e fizemos uma pausa para mais um pequeno-almoço. Pelo menos no que diz respeito ao número de pequenos-almoços, neste regresso às montanhas nebulosas senti-me um verdadeiro hobbit.

Subindo pelo estradão, fomos ganhando outras vistas sobre os vales limítrofes. Contornando o vale, entramos depois no vale do rio Cabril e fiquei com curiosidade de regressar para explorar melhor esta zona mais abrupta. Após uma subida ao VG residente, voltamos ao caminho, passamos por um grupo de cavalos que descia a encosta e fizemos mais uma paragem junto a uma casa recuperada para serões de férias na montanha, que por sinal tinha muito bom aspeto. Por esta altura eu já ia pensando na bênção que seria ter por ali uma moradia espiritual para fugir ao rebuliço do dia-a-dia citadino.

Deixando o caminho, descemos pelo trilho e encontramos o melhor de dois mundos na Cabana de Rebordo Feio. Fiquei então rendido à maravilhosa localização do terreno, sobranceiro sobre o vale e com uma vista fantástica para a albufeira. Tudo ali parece estar num equilíbrio natural quase perfeito. Com algum arvoredo tornar-se-ia um paraíso! Voltando à subida, seguimos lestos até ao avistamento das Antenas da Louriça. Vagueando o olhar pela beleza reconfortante da serra, chegamos até à base do afloramento rochoso que sustém as antenas.

Como desconfiávamos do tempo disponível, optamos por não fazer o desvio até ao topo, por onde andei há alguns anos atrás a seguir as pegadas dos Contos da Montanhas. Após uma paragem no prado continuamos em busca da passagem para o outro lado do vale. Esta foi a zona que me suscitou mais dúvidas ao tentar delinear o trajeto das Nebulosas há alguns anos atrás. Porém, no terreno, o trajeto acaba por ser fácil de seguir. Depois do almoço, embrenhamo-nos por entre as giestas que dominam o caminho e chegamos ao início do muro, previamente referenciado, que nos haveria de levar até ao outro lado. Mais uma vez, as vistas são fantásticas!

Seguindo o trilho que vai serpenteando pelo muro, como pequenos desvios pelo caminho, fizemo-nos ao caminho da linha de fronteira e do desejado marco 60, que divide os distritos de Braga e de Viana, assim como os países ibéricos. Ali aproveitamos para um descanso mais demorado, guardando momentos e memórias. Foi muito bom regressar a este local, calcorreando as antigas rotas do contrabando fronteiriço. Dali avistamos o longínquo e vasto vale do Homem, ladeado pelos sucessivos picos por onde segue a linha de fronteira. Mais perto, notamos com espanto que do lado português havia sido criado um vasto corredor sem vegetação, porventura para proteger o parque nacional dos incêndios.

A descida pelo corredor fez-se sem complicações. Mais abaixo abandonamos a linha de fronteira e seguimos pelo estradão espanhol que nos haveria de levar à Portela do Homem. Infelizmente, a zona superior foi devastada por um incêndio e a paisagem está de luto. Esperemos que aquele mal nunca passe a fronteira. Mais abaixo, a zona conseguiu escapar às chamas, pelo que ainda mantém o encanto “miliário”. Já na Portela do Homem, passando os marcos, fomos comemorar a travessia com uma cervejinha.

Sete anos volvidos, finalmente consegui cumprir o troço da Serra Amarela, “um dos ermos mais perfeitos de Portugal. Situada entre o Gerês e o Lindoso, as suas dobras são largas, fundas e solenes. Sem capelas e sem romarias, cruzam-na os lobos, os javalis e as corças. A praga dos pinheiros oficiais ainda lá não chegou. De maneira que mora nela o sopro claro das livres asas e o riso aberto dos grandes sóis. Não há estradas, senão as da raposa matreira, nem pousadas, senão as cabanas dos pastores. É Portugal nuclear, a Ibéria na sua pureza essencial e granítica. Um pé de azevinho aqui, urzes milenárias acolá, um carvalho numa garganta, nenhum coração de entre o Douro e Minho pode deixar de se sentir aquecido e reconfortado em semelhante chão.”

Para cumprir as Montanhas Nebulosas falta apenas completar a travessia num só dia. Qualquer dia…

Aproveito ainda para agradecer os fantásticos registos que esta cache tem proporcionado!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt



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