05de Março,2021

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ValenteCruz

ValenteCruz

Saturday, 20 February 2021 17:00

Garganta de Loriga

Durante a semana fiquei a saber que um grupo de expedicionários preparava a aventura da subida da Garganta de Loriga. A vontade deixou de imediato a mente de sobreaviso, visto que as oportunidades de boa companhia e caminhadas pela montanha não devem ser desconsideradas. Infelizmente, a Valente tinha que ir trabalhar no dia em questão pelo que não pôde estar presente. Contudo, e como a experiência foi avassaladora e gratificante, acabei por deixar um sorriso fechado no mapa para que o possamos abrir num qualquer dia de regresso a esta serra de encantos.

Após alguma logística, seguimos para Loriga e estacionámos junto ao quartel dos bombeiros, iniciando pouco depois a marcha. Ao chegarmos ao planalto que fica sobre a aldeia, tivemos um primeiro encontro com a enormidade que se erguia diante de nós. Lá em baixo corria a ribeira de Loriga, que desce do planalto serrano, formando pequenas cascatas até chegar à praia fluvial, um ótimo recanto para alturas de maior estio. Prosseguimos então pelo trilho, relativamente bem marcado e fácil de seguir.

Todo o cenário, assim como o tempo, pareciam que se tinham engalanado para a nossa visita, proporcionando-nos uma experiência fantástica e que apenas ainda estava para começar. De máquina fotográfica em punho, lá fomos avançando, fazendo pequenas paragens para descanso e alimentação. Confesso que parecia uma criança irrequieta com um brinquedo novo na mão, tentando registar tudo o que podia.

Pelo meio fizemos um pequeno desvio para aceder a uma antiga mina de volfrâmio e chegámos ao Covão da Areia. O gelo e a neve começaram então a fazer-nos companhia, tornando o trilho mais espetacular e permitindo inúmeros momentos de criancice, que ficam sempre bem em todas as idades. Como levava a máquina acabei por não patinar muito, mas ocupei-me com outras distrações. Tínhamos de ter mais cuidado e ninguém chegou a cair, ou pelo menos não existem provas de tal. As estalactites de gelo pareciam troféus nas nossas mãos e imaginação.

Depois do Covão da Areia subimos para o Covão do Meio e pelo meio aproveitámos para mais um momento de geocaching (GC39QED). Ao chegarmos à barragem ficámos siderados com aquele espelho de água mágico, que amortecia com ternura as imagens das encostas geladas do vale nas suas águas. Seguiram-se muitas imagens para recordar, que ali nos assaltaram os sentidos e a memória dos cartões das máquinas.

Prosseguimos para o Covão Boeiro e ainda tivemos a oportunidade de experimentar uma sessão de patinagem numa lagoa gelada. Aqui, porém, já se registaram várias quedas. Ainda que alguns tentassem sabotar o gelo com buracos, tudo acabou por correr bem. Ao chegarmos à estrada, e depois de apenas termos avistado um fotógrafo na caminhada, parecia que Portugal inteiro estava em rota para a Torre. Para quem se aventura para lá da estrada que embica na Torre, existe um admirável e fantástico mundo novo para descobrir!

Para terminar o dia, regressámos ao mítico Cântaro Magro. Aqui não vale a pena deixar que algo tão vulgar como as palavras descrevam este lugar. Esta foi sem dúvida uma caminhada memorável, com a Estrela engalanada de gelo e neve, em excelente companhia, e com um tempo fantástico. Nas melhores condições para subir a Garganta de Loriga e na companhia de sphinx, royk, darkangel, neval, mafilll e mcm.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Sunday, 31 January 2021 17:00

Sede de montanha

Em busca dos recantos fantásticos da Arrábida, no encalço da meia montanha da Serra do Risco (GCH744). O objetivo passava por alcançar o vértice geodésico que fica no topo da crista montanhosa, sobranceiro sobre o mar imediato. Pelo caminho segui em passeio geocaching, de enigma em enigma (GC3G2FJ), passando por inúmeros pontos de interesse. A experiência acabou também por ser um aviso sério sobre a importância da água num contexto de isolamento.

A elaboração do plano, incluindo informações e sugestões, decorreu sem sobressaltos. A investida acabou por ser individual, visto que a Valente optou pelo marasmo da praia. A noite anterior foi longa e mal dormida, pelo que estava a considerar adiar a aventura. Porém, pela manhã, começou a remoer uma inquietação, que me fez saltar para um banho frio e para esta experiência. Contudo, acabei por levar apenas cerca de 1,5 litros de água, o que me complicou bastante a vida. Num dos dias mais quentes do ano, a partir do meio do percurso tive de fazer uma gestão cuidada, do esforço e da água.

Quando assentei o olhar na meia montanha da serra do Risco pressenti de imediato que o dia estava ganho. A parte inicial decorreu sem sobressaltos, em passeio acelerado pelo sopé da serra. A meio do percurso fiz um desvio para ir conhecer as marmitas de gigante (GCVZ4H). Seguindo o trilho recomendado, acabei por não demorar muito a chegar próximo do local e fiquei impressionado com o que avistei. Como estava na hora de almoçar optei inclusive por ficar mais algum tempo por ali e fui primeiro recuperar as forças nos alimentos, com a anuência de uma sombra muito acolhedora. Depois do registo andei em explorações, entrando e saindo das saliências calcárias. Fui ainda até o topo, de onde se tem uma vista generosa e fantástica para o vale mais abaixo. Fiquei curioso sobre como seria o local com o ribeiro a correr por lá. Certamente será uma visão extraordinária, com as pequenas cascatas e a vegetação que lhe dará uma envolvência de beleza. Contudo, como é natural, pela altura da visita não havia água e estava tudo deserticamente seco.

Continuando a caminhada, passei ao lado da pedreira. A paisagem foi-se tornando mais alva, menos interessante e diminuída de natureza. O passo tornou-se mais lento e empoeirado, sendo que na subida apareceram as primeiras dificuldades pela falta de água. Chegado lá acima, avistei o infinito azul. À minha frente estendia-se uma janela fantástica para o horizonte, emoldurada pelo arvoredo e rochas, onde aproveitei para descansar à sombra. Segui depois pela crista da montanha em direção ao pico. O percurso é fantástico, entre os campos de um lado e uma visão extraordinária para o abismo azul do outro. O trilho na parte superior é um verdadeiro regalo para os sentidos. É quase impossível tirar os olhos do que se estende aos nossos pés e é daqueles sítios que nos devolvem a sensação de pequenez face ao que se vislumbra.

Já sabia que iria encontrar um vértice geodésico, porventura aquele do qual todos os outros VGs em Portugal invejam a posição, pelo que a dado momento deixei de olhar para o recetor GPS e segui pela linha altaneira da montanha, com o olhar fisgado na linha de mar que parece não ter fim. Ao chegar ao VG, em grande desgaste, fui de imediato à procura de uma sombra e descansei por largos minutos, com o olhar entretido pelo horizonte azul. Fiz-me depois em busca do “tesouro”. Ainda ganhei algum tempo a ler os relatos que quem já lá havia ido.

Estive por ali mais algum tempo a aproveitar alguma sombra e retomei depois o meu périplo, já em grande desgaste físico e psicológico, por um risco de emoções no topo da arriba e até à planície. Depois de a água ter acabado, e com tanta vontade de encontrar alguém que me pudesse ajudar, comecei a ter alucinações. Os zumbidos dos mosquitos e das moscas pareciam vozes de pessoas. Porém, olhava para todos os lados, fazia pequenos desvios, falava aqui e além, mas não havia alguém por perto. Não estive perigos desumanos, mas o percurso transformou-se numa experiência de sobrevivência e um aviso sério para outras aventuras. Quando cheguei ao carro, a água escaldante de garrafa esquecida pareceu néctar dos deuses.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Monday, 21 December 2020 17:00

Trilhos e Quinta do Comandante

A Quinta do Comandante (GC92CH6), em Santiago de Riba-Ul de Oliveira de Azeméis, tem um passado trágico-romântico, engalanado por muitas histórias e mitos ao melhor estilo camiliano. Pertenceu a João Paes de Carvalho, comandante da Marinha Portuguesa. De visita ao Porto, o comandante apaixonou-se perdidamente por Inês Eugénia Knall. Venceu dogmas familiares para ver o amor correspondido e os dois foram habitar a mansão seiscentista da então Quinta do Outeiro, envolvida pela pacatez da província e longe do rebuliço citadino portuense. Várias lendas embrulharam depois a história de ambos, algumas com contornos fantasmagóricos, mas o que parece certo é que Inês faleceu a meio da vida e João enlouqueceu com a perda, acabando por suicidar-se em 1970.

Quando soubemos que a CM de Oliveira de Azeméis tinha criado vários trilhos pela quinta não quisemos adiar mais a redescoberta. Visitámos pela primeira vez a Quinta do Comandante nos idos de 2011 em busca da lendária Fallen Angels, que redefiniu e inspirou o letterboxing no país. Dessa noite, para além da extraordinária experiência de caça amaldiçoada a tesouro, recordo que ao terminarmos a busca notámos a chegada de algumas pessoas. Sem que eles nos tivessem notado e estando dentro da mansão, pegámos num lençol que encontramos por lá e escondemo-nos no cimo da escadaria. Quando o grupo começou a subir a escadaria, entre a escuridão e as lanternas medrosas, deixámos cair o lençol sobre as suas cabeças. Foi tão assustador e divertido que chegou a fazer cócegas na alma.

Chegámos ao lugar de estacionamento do edifício da Escola Superior de Aveiro Norte numa manhã cinzenta, mas de boas promessas. À escolha tínhamos os trilhos de caminhada, BTT e trail, que coincidem em alguns troços. Com alguns desvios pelo meio, optámos pelo da caminhada. O arvoredo outonal envolvente e as ruínas abandonadas tornam o percurso muito interessante, ideal para uma passeata bucólica. Chegámos à mansão com o entusiasmo em alta e começámos por visitar o esconderijo final dos anjos caídos, atrás dos bonitos azulejos, cujos fantasminhas ainda se mantêm colados à parede esquecida.

Por sorte, ainda conseguimos aceder ao interior da mansão, que as obras de emparedamento das janelas e portas não assegurará por muito mais tempo. Apesar da ruína e abandono, nota-se o rico passado. Subsistem resquícios de tectos elaborados, azulejos e várias pinturas. Em muitos locais, o chão e as paredes esburacadas parecem que irão ceder à próxima brisa. Cirandando por lendas e histórias, subi ao último andar e fui à procura dos registos do comandante. Talvez a meio caminho de um desespero de amor enlouquecido, entre o visível e o invisível, subsistem os escritos nas paredes que o comandante terá escrevinhado em forma de diário. É, simultaneamente, uma leitura fascinante e aterradora!

Após a redescoberta da mansão, fomos em busca das ruínas envolventes. Parece uma viagem ao passado ao melhor estilo de uma caça ao tesouro. Seguindo as pistas, encontrámos a versão mais recente do diário do comandante e registámos a nossa visita. Adorámos encontrar um recipiente e um livro que fazem jus ao legado histórico da experiência, tanto pela cache que a precedera como pelo cenário envolvente.

Continuando pelo trilho da caminhada, e após alguns desvios ao percurso de trail, alcançámos o edifício da escola e o final deste capítulo. O carácter futurista do edifício contrasta com as ruínas circundantes e perfaz um panorama muito peculiar e interessante. Na memória fica a redescoberta fantástica, por entre as reminiscências esquecidas de um amor infinito, assim como a promessa de um regresso para explorar melhor o circuito de trail.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

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