07de Julho,2020

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ValenteCruz

ValenteCruz

Thursday, 14 May 2020 17:00

Wish you where, Gerês

Regresso à Serra do Gerês em jeito de rememoração, saudade e homenagem, passados cinco anos desde o dia da ausência do Roberto. Chegamos à bucólica aldeia do Xertelo envoltos por uma névoa muito pitoresca e com o sol ainda escondido. Contornando a aldeia, passámos ao lado do fojo do lobo e prosseguimos pelo caminho da serra em busca dos grandes horizontes geresianos. Por entre os farrapos de nuvens e névoa era possível ter uma visão parcial do vale vertiginoso do rio Cabril, em particular para a margem granítica e inacessível do outro lado.

O caminho serpenteou pelo monte e levou-nos até ao estradão que segue para as Sete Lagoas. Entramos depois no trilho pastoril e seguimos em direção à Laje dos Infernos. Logo depois de cruzarmos o ribeiro, o trilho subiu pela encosta inclinada e cada passo levava-nos para o lado mais isolado da serra. Ao chegarmos à crista aproveitamos para subir ao pináculo da Laje do Infernos, furando pelos blocos graníticos erráticos. Já sem névoa, no topo foi possível ter uma visão inteira do enorme vale, acabado de pintar pelas cores da primavera. Do outro lado, a encosta descia abrupta desde a crista da Terra Brava. No fundo do vale, vindo das Minas dos Carris, descia a corga de Sabroso, formando a meio três cascatas sucessivas e idílicas, felizmente bem resguardadas dos efeitos turísticos pela inacessibilidade.

Prosseguindo pelo trilho, espreitamos ao longe os pináculos de outras aventuras, em particular das Montanhas Nebulosas, cruzamos a crista montanhosa e descemos para os prados verdejantes da Sesta da Lamalonga, por onde em décadas passadas corriam os detritos das Minas dos Carris. Estávamos então a meio da caminhada e aproveitamos para almoçar junto a um dos abrigos.

Continuámos depois em direção aos prados e currais do planalto de Couce e avistámos por fim o circo glaciário dos Coucões de Coucelinho, encabeçado pelos contrafortes graníticos que rodeiam o abrigo. Fomos cirandando pelos sucessivos prados e, ao invés de seguirmos para a Lagoa do Marinho, arriscamos uma abordagem mais radical na descida da corga da Pena Calva. Chegados ao limite acessível, o relevo tornou-se bastante inclinado e imprevisível, acompanhando o sulco paisagístico cavado pela ribeira. Com quatro cascatas/lagoas sucessivas de dimensão considerável, o magnífico cenário valeu por todos os esforços. Parece uma escadaria de gigantes por onde a natureza teve o bom gosto de verter água.

Como o percurso pela ribeira parecia complicado, subimos a encosta e continuamos por uma espécie de trilho à mesma cota, aparentemente usado pelas vacas. Voltando à ribeira, e alternando entre as margens, seguimos até à ponte do Porto da Laje. Cumprimentámos as Sete Lagoas do rio Cabril e subimos pelo estradão até ao trilho marcado que segue pelo canal de água para Xertelo. Para terminar, é agradável caminhar à mesma cota, enquanto se vão apalavrando as histórias de outras aventuras. Ficou também a vontade de regressar num dia de verão, percorrendo o trilho da outra encosta, que cruza o rio Cabril próximo do fatídico Poço do Mouro. O percurso, com cerca de 22 km, pode ser visto aqui.

Após um período de confinamento, por entre amigos e memórias, foi fantástico regressar à montanha e pastorear a alma pela liberdade geresiana. Wish you where, Gerês.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

 

Saturday, 14 March 2020 17:00

No coração dos Picos de Europa

A visita à parte central dos Picos de Europa foi sendo adiada sucessivamente pelo tempo instável, durante as nossas férias nestas montanhas encantadas. Neste dia, e como a previsão não era a melhor, decidimos ir até à praia. Acordámos calmamente, tomámos o pequeno-almoço e quando chegámos ao café, perto das 10h da manhã, já com o céu estava meio limpo e havia a previsão que o dia seguinte estivesse pior. Por impulso, mais do que por razoabilidade, decidimos ir para as montanhas. A Valente, menos atreita a grandes caminhadas, foi até Bulnes e eu fiz o percurso pelos picos Urriellu, Torrecerredo e ainda fui dar um salto à Collada Bonita. Ao todo, terei andado uns 30 Km.

Estacionei ao cimo da estrada que passa em Pandebano e pelas 11h30 iniciei a minha subida até ao pico Urriellu. Como sabia que teria pouco tempo para a volta que queria dar fui alternando entre a corrida e o passo acelerado. Algures meio, num momento de vistas extraordinárias para Bulnes, escutei: “António!”. Num primeiro momento ainda pensei que não fosse para mim, mas depois lá encontrei o rosto familiar do José Sampaio que, juntamente, com alguns colegas, tinham ido pernoitar ao refúgio do pico Urriellu. Após alguns instantes de conversa, lá continuámos, cada um para seu lado. Esta subida apresenta umas vistas maravilhosas para o vale mais abaixo e o trilho é realmente fantástico, sem ser muito difícil.

Quando cheguei à vega do Urriellu aproveitei para beber um pouco de água, espreitei timidamente o enorme refúgio e apanhei o trilho para o pico Torrecerredo (GC3PR09). Sempre em modo acelerado, apenas andei mais cauteloso numa passagem mais vertiginosa que até tem uma corda de proteção. Algures pelo meio do caminho aproveitei para almoçar. Seriam então cerca de 14 horas. Sem grandes dificuldades lá fui seguindo o trilho até me acercar daqueles picos enormes. Como estava nevoeiro, a parte superior não estava visível de lá de baixo, o que veio a complicar a ascensão. Antes da última subida olhei para o GPSr e fiquei incrédulo. Estaria a cerca de 300 metros do pico e teria que subir uns 350 metros. Por momentos pensei que deveria haver algum erro, mas rapidamente percebi que não havia.

Algures a meio, com dificuldades em perceber qual era o pico certo e por haver uma bifurcação de mariolas, acabei por me afastar do trilho mais aconselhado. Tive então muitas dificuldades e rapidamente fiquei “pendurado” em locais de alguma exposição. Não estive propriamente em perigo, mas foi preciso algum sangue-frio. Percebi então que estava a subir para o pico vizinho, cujo acesso me pareceu ser apenas possível por escalada. Após alguma avaliação lá consegui perceber para onde tinha de ir e felizmente consegui encontrar um acesso sem ter que descer, até porque já deveria ter subido uns 150 metros e sinceramente não sei se os conseguiria descer. Já no trilho certo, as dificuldades diminuíram e não demorei muito a chegar lá em cima, ao reino das nuvens, onde fiquei só com o mundo. Foi realmente uma sensação maravilhosa, mormente pela superação de ter alcançado o pico maior dos Picos de Europa!

Feito o registo, e depois de tirar algumas fotos, foi tempo de descer – desta vez pelo trilho certo – o que se revelou bastante mais fácil do que a subida e do que inicialmente pensava. Depois de uma ascensão alucinante, refiz o caminho em modo acelerado e, com uma pequena paragem para me alimentar, cheguei a outro pico, do outro lado do vale. É um dos locais de onde se pode ter uma visão mais global deste pico extraordinário, da sua vertente mais longa, mesmo perto onde umas cordas ajudam à progressão do trilho, que passa perto de um precipício.

Ao longo da estadia na região a imagem do pico Urriellu (GC1Z7QV) apareceu-nos como se fosse uma miragem. Encarávamo-lo sempre que íamos até ao café do parque onde estávamos, mas o nevoeiro não nos permitia enxergá-lo convenientemente. A primeira vez que o conseguimos foi quando seguíamos para Covadonga e parámos no miradouro que fica perto de Cabrales. Não admira que seja quase venerado pelos asturianos e muito acarinhado pelos montanhistas e escaladores. O segundo momento em que o vimos foi quando subimos pelo teleférico de Fuente Dé e fomos até os Horcados Rojos, obtendo também uma visão triunfal daquele vale.

Depois de alguns momentos de admiração, continuei pelo trilho e não demorei muito a chegar perto do refúgio, onde aproveitei para comer mais uma barrita e abastecer de água. Lá me decidi depois a ir até lá em cima. A subida não é muito fácil, com a quantidade de pequenas pedras que rolam pela encosta e naturalmente pela inclinação acentuada. Ao fim de alguns minutos lá venci os cerca de 300 metros e fui direto à enorme fraga para lhe assentar a mão. Pensei sentir o pulsar da sua existência eterna, mas na verdade apenas senti frio. Quando se olha desde aquele ponto lá para cima fica-se desnorteado com a sua dimensão e perdido na vontade em chegar lá cima.

Eram cerca de 18 horas quando cheguei ao início do trilho para a Collada Bonita (GC3Y7HB). Apesar das dúvidas, lá me decidi a subir, sabendo de antemão que não seria fácil lá chegar e regressar a Pondebano ainda de dia, não somente pelo pouco tempo disponível, mas também pelo cansaço já acumulado. Inicialmente calmo, não demorou muito para que o trilho se erguesse, abrupto, na paisagem inóspita. O pico Urriellu, ao lado, parecia controlar os meus passos e ambições. À medida que ia subindo, já começava a desejar que, depois do próximo monte, não houvesse mais para subir. Mas havia sempre mais!

Pouco depois de passar pelo trilho que segue para subida final em escalada do pico Urriellu acerquei-me de uma colina e notei que um dos trilhos começava a descer. Temi então que tivesse que ir lá em baixo, ao fundo da “cratera”. Reparei também que havia um outro que subia em direção aos picos à esquerda e segui por lá. Mais uma vez, não demorou muito tempo para que andasse “pendurado” nas rochas. A dado momento tive o discernimento para perceber que tinha errado no trilho; mesmo que conseguisse subir, provavelmente não teria acesso à Collada. Pensei então em desistir e comecei a descer, mas percebi então por onde deveria ter ido. Após mais algumas passagens de sangue-frio, cheguei ao acesso, também bastante inclinado. Como estava apenas a uns 150 metros, não resisti e fui lá em cima. As forças e a vontade reapareceram e quando firmei os pés naquela passagem, pouco passava das 19 horas. As vistas, em particular para o pico Urriellu, são muito bonitas, fazendo jus ao nome do lugar.

Após o registo e algumas fotos, iniciei o regresso a Pandebano. Ainda pensei em descer pelo Pozo das Moñetas, mas como as condições (nevoeiro) não eram as melhoras, por desconhecer o trilho e por ser menos usado, decidi não arriscar esse percurso. Tive apenas alguma pena por não ter tido tempo para subir até meio do Urriellu, mas talvez fique par uma próxima oportunidade. Com algumas paragens pelo caminho (para me alimentar e beber) e quase sempre a correr, lá cheguei ao carro por volta das 21 horas, sendo que nos últimos quilómetros fui acossado pela chuva. Ao ligar o rádio escutei “These boots are made for walking”. Exausto, mas feliz!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Saturday, 18 January 2020 17:00

Geografia Sentimental

Ainda no rescaldo do aniversário fui soprar as velas do tempo para a montanha, a minha geografia sentimental. A escolhida acabou por ser a serra da Arada, seguindo e reinventando o trilho Maia, entre as aldeias de Covas do Monte, Covas do Rio e Pena. A primeira paragem foi no vertiginoso Portal do Inferno. Há precisamente oito anos criei ali uma casa para troca de livros em jeito de Crónicas da Terra Ardente. Quatro livros ainda resistem à solidão e à humidade. Nesse dia plantei também ali uma árvore, entretanto desaparecida, seja porque o Inferno não é um bom sítio para árvores ou porque as cabras lhe roeram a vida.

Saí do Portal e fiz-me à corrida. Atravessei o mínimo de alcatrão que o plano exigia e iniciei a descida pela vertente oeste para a Pena. Pelo meio recordei no local onde há alguns anos atrás andei à procura de lousas de xisto para enfeitar o jardim lá de casa. Passei de soslaio pela aldeia e prossegui em busca do mítico Caminho Onde o Morto Matou o Vivo. O nome do percurso tem origem num episódio duplamente infeliz. Há décadas atrás, devido ao facto de a Pena não possuir cemitério, os habitantes tinham que levar os defuntos para Covas do Rio. Certo dia, e como o percurso inicial é muito íngreme, um homem escorregou e o caixão caiu-lhe em cima, matando-o. Mas os mortos não contam histórias e os vivos tentam resistir ao abandono como podem.

Misteriosamente, alguém começou a espalhar bonecos por este caminho e outros foram surgindo entretanto. Desconheço o motivo, mas a ideia pareceu-me ótima, tanto que também por lá deixei alguns. No cimo do vale de memórias, as fragas adensam-se numa livraria geológica de suster a respiração. Lá no fundo, entre as sombras, o ribeiro galga a penedia melancólica por entre a vegetação exuberante. Fiz e refiz metade do caminho. No regresso subi ao topo da fraga do lado esquerdo do ribeiro da Pena, onde almocei com a melhor panorâmica da zona, do alto da livraria geológica. As vistas são tão fantásticas quão vertiginosas!

Fui depois em busca do trilho que desce do pico para Covas do Rio. Escondido e esquecido pelo tempo, ressurgiu com a limpeza protagonizada no contexto das provas de corrida em montanha. Logo depois de um início calmo e de vistas largas, o trilho mergulha numa inclinação bastante acentuada até que a encosta se revela domesticada pela praga das plantações de eucaliptos. Passei de relance junto ao rio e iniciei a monótona subida pelo estradão para Covas do Monte. Valeram as progressivas vistas generosas sobre o vale.

Já com a aldeia comunitária no horizonte apanhei um novo trilho que me guiou pelo tempo e fui encontrar Covas do Monte como se tivesse regredido dois séculos, com as suas ruelas estreitas alcatroadas pelo dejectos das cabras. Acabei por apanhar o regresso dos animais do monte, que o fazem de forma autónoma num instinto consentido, e tive de esperar o escoamento do trânsito.

Passei a aldeia e iniciei a espetacular subida para o Portal do Inferno. O sol já se tinha escondido e o ribeiro seguia manso e bucólico, pouco importado sobre as voltas do mundo. Os últimos temporais fizeram alguns estragos, partindo os velhos troncos dos castanheiros que guardam os rebanhos. A subida técnica e acentuada provocou também alguns estragos, lembrando-me que a montanha não se compadece com uma forma física adocicada por bolos e festas.

E assim se festejaram 39 anos, entre a solidão consentida da montanha, passando como uma brisa ténue, onde o tempo tem um ritmo diferente e paisagem parece ser eterna.

 

Recomeça....

Se puderes

em angústia

E sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...

(Sísifo, Miguel Torga)

 

 

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

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