07de Julho,2020

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ValenteCruz

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Os mosteiros sempre exerceram sobre mim um estranho encanto. Quer fosse por ter crescido em fascínio perto de um, por imaginar a vida estendida pelo ascetismo e bucolismo para lá do que poderia compreender ou simplesmente pelas histórias de passagens secretas para tesouros de metáforas inimagináveis.

A curiosidade sobre o Mosteiro de Grijó revelou-se sobretudo pela proximidade atual e no âmbito de uma visita recente à Serra do Pilar. Porém, bastaram poucas pesquisas e imagens para antecipar a viagem. Chegados à vila, ainda mal tínhamos contornado em espanto o tamanho da quinta murada quando entrámos no pórtico exterior e assentamos o olhar na imponente fachada, ladeado por algumas placas que lembram a passagem e inspiração de Júlio Dinis.

Como era hora do almoço, e não era possível visitar no imediato o mosteiro, fomos dar uma caminhada pela história. O corredor de árvores seculares oferecia uma boa sombra e lembrava a passagem lenta do tempo. Saindo do perímetro, seguimos na direção do Padrão Velho, do qual haveríamos de ouvir falar mais tarde, e continuámos na direção do Aqueduto da Amoreira, que já terá esquecido a sua função original e por agora vai servindo de divisória de trânsito. Ainda assim, mantém o seu encanto.

De regresso ao mosteiro, fomos tocar à campainha do edifício. Surgiu então o sr. Adelino, de simpatia em riste e com a história do local na ponta da língua. Inocentemente, ainda perguntámos se a visita era paga. Mal sabíamos que estávamos prestes a divagar pelo tempo na mestria de quem parece gostar do que faz acima de qualquer preço, verdadeiramente como se fosse um propósito de vida, numa das mais interessantes visitas do género que já fizemos.

Encantados, fomos andando de pormenor em pormenor, desde a história minuciosa do edifício, ao claustro e às suas figuras, passando pelo magnífico túmulo de d. Rodrigo Sanches, o segundo mais antigo de Portugal, e naturalmente pela fabulosa igreja. No final, ficou a certeza que tanto pela história como pela arte de a contar, o Mosteiro de Grijó é de visita obrigatória! Fica a vénia secular pela partilha!

  

 

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Monday, 01 April 2019 10:00

Castro de Ovil - Surpresa!

Num dia de primavera a cheirar a verão, depois de uma manhã a deambular pela maresia esmorizense, subimos o monte à descoberta do Castro de Ovil. A proximidade do mar torna um pouco estranha a existência de um castro pré-histórico na zona. De qualquer forma, já na altura parecia haver uma certa sensibilidade para a qualidade de vida. Entrámos pela zona industrial e paramos ao sinal do velhinho Vouginha. Atravessamos e linha e rapidamente chegamos ao início do trilho pelo castro.

Prosseguimos pela direita e, viajando no tempo, paramos junto às primeiras construções arqueológicas. Redescobertas à relativamente pouco tempo, nota-se que boa parte das estruturas foram reconstruídas e o espaço parece bem preservado. Subimos mais um pouco e na outra encosta descobrimos mais um aglomerado de ruínas, com a parte superior pintada de branco, numa moldura circundada por uma natureza distintiva e muito fotogénica, sem a pressão eucaliptal que muito prejudica outras paisagens na zona.

Depois do castro faltava a surpresa. Descemos pelo trilho e, quais Indianas pelo tempo perdido, fomos à descoberta do papel esquecido. Cerca de século e meio após a construção, a fábrica de papel desapareceu pouco depois da revolução de abril. Subsistem algumas paredes em ruínas, pintadas pelas heras. Tudo o resto parece ter sido tomado pelo esquecimento. Mais abaixo, o ribeiro vai correndo vagaroso para a barrinha, a meio caminho do fim, com o mar ali tão perto. A espuma que vai aparecendo aqui e além evidencia restos de poluição que teimam em persistir. Ainda assim, parece ser insuficiente para os patos emigrarem.

Como o local é propenso à aventura, andamos por ali perdidos a explorar os recantos e a fotografar os momentos. Apesar de parece frágil, ainda aguenta bem com os nossos devaneios. Mais à frente, a ponte de madeira também já teve melhor dias e estabilidade. O início de algumas obras de requalificação parece ser um ponto de viragem no abandono e ficamos curiosos sobre o aproveitamento turístico que ali irá nascer. O castro, as ruínas da fábrica, o ribeiro e o arvoredo diversificado são motivos suficientes de interesse para visitar e regressar!  

Ainda armados em Indianas, faltava apenas concluir a "caça ao tesouro dos tempos modernos". E é por estas e por outras que gostamos de geocaching e da sua mais-valia em descobrir locais interessantes que de outra forma passariam despercebidos!

 


Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Monday, 14 January 2019 10:00

Silhas dos Ursos ao Pé de Cabril

“Há sítios do Mundo que são como certas existências humanas: tudo se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição. Este Gerês é um deles. (...) Pisava, realmente, a alta e livre terra dos pastores, dos contrabandistas e das urzes. (...) Na margem de lá, o Pé do Cabril, solene, esperava o abraço duma ascensão.”

Miguel Torga, Diário

Os excertos são conhecidos. A beleza da natureza transformada em palavras inspiradoras pela mestria de quem conhecia os seus segredos. Para quem não os conhece, parecem um lugar-comum. Mas é um lugar feliz e sobretudo um lugar onde se deve sempre regressar.

Quando, em 2011, visitámos o Pé de Cabril num dia de nevoeiro sebastiânico, ao sabor da fantástica aventura e grande desafio Mestrado no Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), ficou a promessa de regressarmos num dia de vistas desafogadas. Finalmente, cumprimos esse destino e o local ganhou em definitivo um lugar especial no topo de experiências no mundo encantado do Gerês.

Ao invés de subirmos desde a Portela de Leonte apanhámos o trilho das Silhas dos Ursos. Há muito tempo que os ursos deixaram de habitar esta região, mas as estruturas arcaicas no topo de penedos para evitarem que os gulosos roubassem o mel das colmeias ainda subsistem.

Deixando a estrada que liga a Vila ao Campo do Gerês, seguimos pelo caminho de terra na direção do miradouro e casa da Junceda, que infelizmente se encontra num estado lamentável. Ainda assim conseguimos levar o carro até ao parque do miradouro. Entrámos depois no trilho e embrenhámo-nos da serra. A primeira parte oferece uma variedade de árvores muito interessante e fotogénica. Depois, as árvores dão lugar a vegetação mais rasteira e o horizonte torna-se mais acidentado.

Após a primeira subida fizemos o primeiro desvio para um pico e para a primeira visão da albufeira de Vilarinho da Furna. Ao chegarmos à bifurcação seguimos para nordeste em busca do prado de Gamil, onde a albufeira já revelou um pouco mais da sua grandiosidade. Mais à frente, fizemos mais um desvio no trilho e alcançámos a esplendorosa visão das Linhas do Redondelo, onde o espelho de água já surgiu quase inteiro.

Com os olhos postos na antiga aldeia que sucumbiu ao corropio desenfreado da modernidade, senti um misto espanto e lamento pela existência da albufeira. Acabou por sobressair o lamento, na certeza que a barragem afogou património cultural ímpar e recantos naturais de encher o olho. Porém, subsistem outros. Podemos julgar que já conhecemos o PNPG, mas existirão sempre locais fantásticos para descobrir. Este penedo sobre a albufeira é um excelente exemplo.

Continuando a viagem, voltámos ao trilho, passámos pelo prado que fica antes do Pé e resolvemos almoçar com vista para a albufeira da Caniçada. O sol oposto prateava o manto sereno, ladeado pelas encostas sobrepostas. Cantamos os parabéns à natureza e seguimos depois à conquista final do Pé de Cabril, o pêndulo geresiano.

O acesso final ao Cabril parece uma caça ao tesouro da natureza. O trilho sobre a encosta junto ao maciço e desaparece num penedo, que oferece uma passagem pelo interior para a continuação da aventura. Depois de passarmos por uma árvore moribunda com vista para a albufeira, o trilho sobe até à plataforma de acesso ao topo. Segue-se a famosa passagem da via ferrata, um pequeno Hillary Step lusitano, como a placa colocada no local indica. O desafio acaba por ser mais psicológico, dado o vazio próximo, mas a perigosidade real esfuma-se numa margem de segurança rochosa.

Depois da passagem, o caminho para o topo ainda tem mais alguns truques, em que o fundamental é recordar que se o acesso parece demasiado perigoso, então é porque não deve ser por ali. Furando por mais uma túnel da rocha, chega-se por fim ao topo, onde nos aguarda uma vista triunfante de 360º, encimada por um azulejo da alegada aparição de Fátima. É um elemento estranho naquele cenário natural, mas na verdade já vi coisas mais estranhas.

Ainda que se descortinem todas as vistas e se tirem todas as fotos, parece que falta sempre aproveitar algo. Mas o tempo não para e importa respeitar o horário de retorno da caminhada, que o sol de inverno não para em contemplações. A descida da via ferrata, de frente para o vazio, ainda provoca algum calafrio inicial, mas acaba por ser mais fácil do que parece. Tempo ainda para explorar o monólito vizinho que também teve direito à sua via ferrata e oferece vistas desafogadas para o vale do rio Gerês.

O caminho de regresso foi mais ligeiro e menos contemplativo. Pelo meio aproveitámos para fazermos o pequeno desvio para conhecer uma silha referenciada e a casa da Junceda estava quase ali. Para terminar, descemos até ao miradouro e aproveitámos para um pequeno lanche com vistas sobre a vila. E foi um aniversário fantástico, num regresso há muito esperado ao Pé do Gerês!

O percurso, com cerca de 12 km, pode ser visto/descarregado aqui.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

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