07de Julho,2020

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ValenteCruz

ValenteCruz

Thursday, 04 July 2019 17:00

Dia de vir a correr do emprego para casa

Está cientificamente provado que às vezes tenho ideias parvas. Por ciência entenda-se Ana Valente. No momento não percebi se a ideia formalizar o Dia de Vir a Correr do Emprego para Casa se enquadrava na categoria, mas há vontades que valem a pena ser testadas. Não consigo precisar o instante da inspiração, mas creio que foi quando pensamos em ir morar para a praia de Esmoriz, sobretudo pela excelente paisagem litoral. Como os cerca de 30 km que vão desde o centro do Porto até casa ainda exigem alguma preparação, a ideia foi envelhecendo nas barricas celebrais. A proximidade da participação na prova Ultra Trail Douro Paiva acabou por espevitar a oportunidade, mas o impulso final creio ter sido uma carta de agradecimento enviada por uma criança a contas com um problema de saúde que foi apoiada pela ação social da i2S, na qual contava que imaginava o melhor dia da sua vida a correr à beira mar, num dia cheio de sol. Ser feliz na simplicidade é uma arte que muitas vezes nos escapa por entre os ritos da modernidade.

A corrida ficou marcada para a última terça-feira antes da prova. No final do dia de trabalho equipei-me e sai desvairado pela rua do Zambeze. Lembrei-me quase de imediato porque não gostava de correr naquele ambiente citadino, sobretudo pelo trânsito de pessoas e veículos, assim como pelas sucessivas paragens em semáforos e cruzamentos. Atravessei a rotunda da Boavista e prossegui em direção à ponte da Arrábida. Estava com alguma dúvidas se conseguiria acertar com a entrada pedonal, mas correu tudo bem. A vista desde o tabuleiro da ponte é realmente fantástica! Já em Gaia, desci logo depois da ponte e cheguei à marginal, seguindo para a Afurada. Passei pela festa na rua de relance e foi acompanhando o Douro até à foz. Depois, fez-se o Atlântico, enorme, vasto e com muita praia para galgar.

Os passadiços e as ciclovias iam-se sucedendo em catadupa. O sol empoleirado no horizonte ia servindo de companhia e GPS. Em alguns locais ia fazendo paragens cirúrgicas para captar uma foto ou hidratar um pouco. Cheguei sem problemas ao Senhor da Pedra ao quilómetro 15 km e viagem ia a meio. Aproveitei para comer uma barra e tomar um banho de chuveiro. Em algumas partes, o passadiço já está um pouco maltratado e a corrida é mais difícil, sobretudo pela cedência da madeira ao colocar o pé, o que acaba por testar mais os joelhos. Mas correndo sobre pelas tábuas sobre os barrotes o efeito acaba por ser minimizado.

À passagem por Espinho o cansaço já se ia acumulando. Valeu ter entrado depois naquela que para mim é a zona mais bonita de praia na região, entre Espinho e Esmoriz. Como o sol ia baixando no horizonte a luz tornava a paisagem ainda mais bonita. Assim, a hora mágica da fotografia ia servindo de desculpa para mais algumas paragens de descanso e registo de momentos. Chegado à Barrinha, aproveitei um fantástico e bem suado quase-pôr-do-sol, passei a ponte de madeira sobre o manto de água sereno e convenci-me que o corpo ainda aguentava um pequeno desvio. Mas, chegado ao final, percebi que já não daria para muito mais. Os 30 km fizeram-se em cerca de 3 horas e eu fiz-me ao merecido descanso. Espero repetir o ritual nos anos vindouros. No final, o corpo ficou a queixar-se da ideia, mas a cabeça adorou. Mas, como em muitas outras ocasiões, amanhã deverão concordar. Afinal, devemos sempre seguir as ideias que fazem de nós quem somos, ainda que as ciências deste mundo indiquem o contrário!

 

  

 

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

Monday, 01 July 2019 17:00

sunrise@CântaroMagro_19

À oitava edição, a chuva voltou a abençoar o sunrise@CântaroMagro. Mas este evento, que com o tempo acabou por se tornar numa espécie de segundo nascimento anual, tem muito mais para contar do que devaneios meteorológicos. A caminhada deste ano marcava um regresso à volta dos Cântaros, num “passeio” entre o Magro e o Gordo. Como habitual, chegamos um pouco atrasados ao encontro, mas a tempo do início do percurso. Ao contrário do habitual, troquei a máquina fotográfica por uns bastões, para habituação no trail, e fui com o telemóvel de registo em registo.

A descida pela vertente oeste do Cântaro Magro é desafiante pela inclinação, mas o grupo revelou-se à altura. Após paragem no carro acidentado para rever a história, lá prosseguimos para o Covão Cimeiro, por onde conseguimos passar sem molhar os pés. Sempre que passo por ali sinto-me Frodo a atravessar os Pântanos Mortos. A descida para o Covão d’Ametade fez-se sem problemas, debaixo do olhar perene dos monolíticos irmãos. Durante a estadia neste paraíso serrano aproveitámos para descansar e almoçar, num ambiente bucólico ao som das águas do Zêzere.

Ao início da tarde retomámos o trilho na direção do Vale da Candeeira, invertendo depois a marcha em direção ao Cântaro Gordo. Após algumas paragens pelo meio lá chegamos à icónica Lagoa dos Cântaros, um dos meus locais preferidos da Estrela. A imagem do gigante rochoso sobreposto ao manto solene de água é fantástica! É sempre curioso ver a reação das pessoas quando se revela por onde segue o trilho. À subida técnica pela cumeada do lado direito seguiu-se a ascensão abrupta até ao topo. Aproveitei nesta última para testar os bastões e a ajuda revelou-se notável! É sempre incrível chegar ao topo do Cântaro Gordo, quer pelo desafio superado, como pelas vistas grandiosas para os vales circundantes.

Descendo do Gordo, prosseguimos na direção do Magro, contornando o Covão Cimeiro pela estrada. Entretanto, no céu iam-se acumulando nuvens. Iniciamos depois os preparativos para a longa vigília noturna e lá iniciamos a subida ao Cântaro Magro. Apesar das inúmeras ascensões, é sempre incrível superar a sensação de inacessibilidade que se tem do estacionamento ao contemplar o gigante granítico. Ao chegarmos lá acima aproveitamos para assentar arraiais e preparar o jantar, que como habitualmente foi excelente.

  

Cedo percebemos que a noite não iria ser fácil. Foi, seguramente, a noite mais ventosa que já ali passei. A dado momento cheguei mesmo a questionar se seria possível levantar voo. Também por isso a sensação térmica baixou bastante e conseguir dormir foi mesmo um sonho intangível. Levantei-me por volta das 4h30 e desci ao estacionamento, onde o grupo já estava formado para a subida. Feliz ou infelizmente, foi por essa altura que começou a chuviscar. Como não estavam reunidas as melhores condições, a maioria dos participantes acabou por ficar no carro.

Ainda que o céu estivesse sobretudo negro, havia uma faixa livre no horizonte que começava a enrubescer com o amanhecer. Porém, bastou o tempo da subida para surgir uma nuvem de sul que acabou por tapar o horizonte e suspender o nascer do sol visível. Acho que não adianta falar de sorte ou azar. É apenas a Natureza, que não se compadece com vontades e desejos de criaturas menores. E ainda bem. Depois da difícil foto habitual no sítio de sempre iniciamos a descida. Naquelas condições, sobretudo pelas pedras molhadas, o desafio foi mais exigente, mas o grupo soube superar as dificuldades. Aliás, uma das coisas que ficam desta experiência é precisamente a preparação para as adversidades das pessoas que estiveram no Cântaro Magro neste sunrise. O meu bem-haja por isso.

Após o “sunrise” descemos para Manteigas. Se no planalto o tempo estava terrível, na vila o sol brilhava e o céu estava parcialmente azul. Contentes pela benesse, aproveitamos para descansar um pouco e ultimamos os preparativos para a Rota do Javali. Com uma primeira parte quase sempre a subir e uma segunda parte quase sempre a descer, já sabíamos o que iríamos encontrar. Após um início num contexto urbano, onde ainda deu para apanhar algumas cerejas para ajudar à progressão, rapidamente entramos num troço de estradão que nos guiou pela encosta. À medida que as vistas se foram tornando mais interessantes, o próprio arvoredo ia ficando mais composto, com predominância dos castanheiros. Aliás, se do outro lado do vale existe a Rota das Faias, esta poderia ser perfeitamente a das castanhas.

Apesar de ajudar à progressão, o estradão acaba por tornar-se um pouco desinteressante. Felizmente, logo a seguir, entramos numa zona de trilho que serpentou encosta acima até ao famoso Poço do Inferno. Já por ali havia andado há alguns anos, mas é sempre bom regressar àquelas fragas e cascatas demoníacas. A zona é fantástica e apetece ficar por ali preso em contemplações. Continuamos depois a caminhada e subimos pelo trilho escarpado. Fomos ganhando então vista sobre o vale, que emergia mais inteiro e grandioso, como todas as coisas nascidas e criadas na Estrela.

No final da subida esperava-nos uma caminhada pelo planalto serrado em estradão e iniciámos depois a descida por trilhos. Inicialmente com as vistas desafogadas e depois por entre o arvoredo distinto da encosta do Zêzere. À chegada ao final do trilho ganhamos o merecido descanso, seguindo um maravilhoso repasto no restaurante Vale do Zêzere com as boas iguarias serranas.

No rescaldo de mais um sunrise, para além do lamento natural pelo mau tempo durante o evento principal, fica a felicidade por reencontrar os rascunhos d’O Tempo Inquieto e sobressaem também duas excelentes caminhadas em companhia fantástica. Para o ano lá estaremos novamente, até porque me parece que este evento já ganhou vida própria e reclama por si o direito de existir! Muito obrigado a todos pela presença e parabéns pela preparação e superação dos desafios!

Os trilhos podem ser vistos/descarregados nos seguintes endereços:

As minhas fotos podem ser vistas/descarregadas aqui.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Sunday, 09 June 2019 17:00

Encostas do bom martírio

Por vezes surgem saudades e outras reminiscências da épica participação no Ultra Trail Serra da Freita (UTSF), aquando da minha estreia em provas do género. Foi um verdadeiro carrossel de emoções, desde o desespero latente à felicidade palpável pela conquista. Juntando a isto o prazer pela solidão da montanha, gosto de regressar a estas memórias e às paisagens suadas da Freita.

O plano passava por sair do Campismo do Merujal e fazer um percurso circular com bastante subida acumulada. Chegado à Mizarela, desci pelo PR7 e investi depois em direção às lagoas do rio Caima. Com os olhos postos na grande Frecha da Mizarela, fui subindo o rio pelas escarpas até ficar por baixo da queda de água (GC7867G). Pelas minhas contas já não passava ali por baixo há cerca de nove anos. Após as fotos, subi pelo trilho junto à rocha, que em alguns locais parece estar a ser conquistado pela vegetação, mas ainda assim é bastante percetível.

 Lá em cima encontrei o PR15 e continuei em direção à aldeia de Albergaria. Passei pela praia fluvial, onde alguns veraneantes exercitavam a procrastinação propícia de um dia de calor. Acompanhando o percurso do Caima, fui avançando pelo planalto da Freita. Na passagem pelo Serlei desci para a aldeia de Gestoso. Calcorreando as ruelas alcatroadas pelos dejetos das vacas, desci depois pelos campos na direção de Gestosinho.

A meio do caminho desci para Agualva, passei pela aldeia e fui descendo de socalco em socalco. Há muito que o arvoredo tomou conta daquelas encostas, mas subsiste o trabalho das gerações que ali criaram uma fortaleza de muros e terrenos cultiváveis. Apanhei depois o trilho que desce abruptamente para a ribeira da Agualva e aproveitei para almoçar na bucólica cascata das Porqueiras. Como o dia seguia quente, cada encontro com o ribeiro servia também para um merecido banho de energias renovadas.

Passei pela aldeia abandonada e desci depois em busca das Berlengas. Na confluência das três ribeiras aproveitei para explorar melhor a zona e fiz-me então ao caminho das famosas Escadas do Martírio. Talvez tenha demorado demasiado tempo a visitar a este percurso. De qualquer forma, a espera valeu a pena. Sempre rodeado por um arvoredo frondoso, a escadaria para a aldeia da Lomba parece realmente interminável. E pensar que num passado recente todas aquelas encostas eram cultivadas. A zona parece um troféu dedicado à persistência e engenharia humanas em resistir num recanto perdido da montanha.

Atravessei a Lomba com os olhos postos no cimo distante da serra. A meio da Vereda do Pastor sai do trilho e segui à descoberta de mais uma encosta. Não sei se o trilho já foi batizado, mas pelo que me custou a subir acho que pode ser Quebra Costas. Escada após escada, o cume surge sempre demasiado longínquo, como se fosse um sonho indelével. Porém, as vistas para os vales compensam o esforço. Lá em baixo, as Berlengas são agora uma memória distante.

A subida tornou-se depois menos penosa, mas apenas terminou no Radar Meteorológico. Já com vistas para o outro lado do vale, desci para a Castanheira emoldurada pelos campos verdes que a circundam. Passei pelas Pedras Parideira e pela aldeia no encalço do PR15. Apesar do cansaço, não queria perder a oportunidade de refazer o PR7. Desci então pela encosta escarpada até à Ribeira, relembrando a última vez que ali tinha passado, aquando do UTSF. Passados cerca de cinco anos, ainda me parece tão incrível como inacreditável ter conseguido terminar a prova. Em particular, já depois do desespero físico e psicológico inevitável, o mistério da transformação que ocorre quando percebemos que vamos conseguir terminar. Os obstáculos deixam de o ser e significam apenas um meio para lá chegar, nem que sejam as Escarpas da Mizarela. Sentado numa laje com vista para a cascata, em comunhão solitária com a montanha, senti-me verdadeiramente privilegiado. Depois, tal como no UTSF, a distância plana para o Merujal fez-se num sopro.

No final, o percurso técnico estendeu-se por cerca de 28 km, que podem ser vistos/descarregados aqui. É sempre um prazer regressar às memórias mágicas da Freita!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

 

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