19de Setembro,2020

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ValenteCruz

ValenteCruz

Friday, 12 July 2019 17:00

Ultra Trail Douro Paiva 19

Respeitando a tradição de participar numa prova de ultra trail por ano, a escolha deste acabou por recair no Douro Paiva. E antes que alguém se questione, acrescento alguns esclarecimentos: não é uma promessa religiosa; não fiz mal a ninguém e/ou não roubei nada que me obrigue a correr durante tanto tempo; a inscrição paga-se e várias vezes durante as provas questiono a minha sanidade mental. Apesar de tudo, ou mesmo talvez pelas razões referidas, o mundo do trail continua a fascinar-me. Não é propriamente pela vertente competitiva, mas sobretudo pelo desafio de superar desafios em trilhos técnicos de montanha. Nesta prova, acrescia o interesse da progressão pelo Vale do Bestança.

Como habitualmente, os treinos decorreram com percalços. Para além da preguiça de quem vai recomeçando à medida das necessidades, uns três meses antes ressenti-me de uma entorse, fiquei algum tempo parado e convenci-me que o melhor seria alterar a inscrição para os 40 km. A mês e meio da prova lá comecei a treinar duas vezes por semana, alternando distâncias, mas mantendo uma dificuldade ao nível planura marítima. Como sempre, o objetivo era sentir-me bem e ficar na metade inferior da tabela classificativa. Esta prova seria também a primeira em que usaria bastões.

Levantei-me um pouco antes do sol e lá segui para Cinfães, subindo o Douro. Levantar o dorsal trouxe um suspense inesperado, porque estive na fila errada e tive de correr para chegar à meta momentos antes do tiro de partida, atando como podia o chip da prova aos atacadores dos calções, facto do qual me haveria de arrepender mais tarde. Após o tiro de partido segui lesto pelas ruas de Cinfães, descendo depois em direção do rio Bestança. Na inclinação favorável todos os santos ajudaram; na regresso, todos os diabos haveriam de me contrariar.

Tudo correu bem até seguir o engano de um grupo que desceu sem necessidade quase até ao rio. Apenas me apercebi quando vi alguém a subir desanimado. Corrigido o engano, o percurso torna-se muito interessante, sempre rodeados por uma Natureza fantástica, galgando leiras e antigos trilhos agrícolas. Dada a beleza envolvente fui parando aqui e ali para captar algumas fotos. Decididamente, terei de regressar ao percurso com mais tempo. Ao chegarmos ao ribeiro de Enxidrô apareceram os primeiros obstáculos mais desafiantes, tanto pela subida mais ingrime junto à cascata (que gostei de rever) como pelas primeiras incursões dentro de água.

Saindo da ribeira enfrentei a longa subida para a capela de São Pedro, no cimo da serra. Nesta parte os bastões deram bastante jeito e ajudaram a progressão serpenteante pela encosta. As paragens nos postos de abastecimento foram sempre breves, apenas para abastecer de água e reconfortar o estômago. Essa gestão acabou por correr bem. Apesar de haver algum sobe e desce, nesta parte acabou por permitir a corrida de forma frequente, em particular nas descidas.

Aproximei-me depois da parte mais interessante do percurso, acompanhando as ribeiras. Apesar da dificuldade natural em progredir pela água e pelas pedras, a envolvência compensava tudo. Apenas lamentei não ter mais tempo para parar e tirar fotos. Prossegui então para o desejado Vale do Bestança, passei o rio subi para Soutelo. Foi a partir da antiga ponte de fundação romana que fiz a abordagem para as Fragas da Penavilheira, numa outra aventura. Tinha a expetativa que este percurso talvez passasse por lá, mas logo percebi que não. Acho que seria uma ótima mais-valia.

Ao passar no controlo percebi que o chip à cintura estava demasiado longe do chão para registar o tempo e tive de repassar ajoelhado. Segui depois em corrida pelo trilho, numa parte do percurso muito agradável de fazer. Voltando ao rio Bestança, iniciei depois uma fase de progressão com subidas e descidas alternadas e bastante técnicas pelas margens. Apesar de ser a parte mais interessante do percurso, a tecnicidade acabou por provocar algum desgaste natural. Em algumas partes, e também porque o discernimento já não era o melhor, tinha de parar dois ou três segundos para perceber por onde poderia passar sem arriscar uma queda, que poderia ser complicada. E é também isto que me encanta no trail, progredir por trilhos muito técnicos em locais fantásticos. Por outro lado, fico também com algum lamento pela Natureza ter de suportar o impacto da passagem de centenas de pessoas com pressa.

A chegada à última ponte do Bestança antes de encontrar o Douro marcou mais um descanso antes do desafio final. Uma longa subida com cerca de três km até à meta. Com as penas martirizadas, surgiu-me então uma forte dor lombar que me obrigou a algumas paragens, lembrando-me da parvoíce que é participar em provas de esforço com apenas treino de corrida. Pode ser que para a próxima a memória tenha pena dos sofrimentos do corpo.

A descida final para a meta foi uma corrida de objetivo cumprido e expetativas superadas. Vencer o desafio ao som de aplausos é sempre reconfortante. Foi também então que descobri que, oficialmente, não tinha estado na partida, por o chip não ter feito o registo. Porém, bastou uma simples explicação e logo tudo se tornou oficial. Os 40 km foram feitos em cerca de 7h30. Depois de recolher a medalha e de um pequeno descanso, regressei ao carro para descobrir que calor tinha feito rebentar a rolha da garrafa de vinho oferecida pela organização e o banco estava tão encharcado como bêbado.

Concluir uma prova de ultra trail é sempre fantástico, não apenas pelo momento, mas também pela superação de tudo o que necessário para participar nestes desafios. Para quem desconfia que isto pode fazer mal, direi apenas, de forma viciante, que ninguém tem necessidade daquilo que desconhece. Por mim, até para o ano, na Serra d’Arga! Muito obrigado à excelente organização da prova e parabéns a todos!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

Thursday, 04 July 2019 17:00

Dia de vir a correr do emprego para casa

Está cientificamente provado que às vezes tenho ideias parvas. Por ciência entenda-se Ana Valente. No momento não percebi se a ideia formalizar o Dia de Vir a Correr do Emprego para Casa se enquadrava na categoria, mas há vontades que valem a pena ser testadas. Não consigo precisar o instante da inspiração, mas creio que foi quando pensamos em ir morar para a praia de Esmoriz, sobretudo pela excelente paisagem litoral. Como os cerca de 30 km que vão desde o centro do Porto até casa ainda exigem alguma preparação, a ideia foi envelhecendo nas barricas celebrais. A proximidade da participação na prova Ultra Trail Douro Paiva acabou por espevitar a oportunidade, mas o impulso final creio ter sido uma carta de agradecimento enviada por uma criança a contas com um problema de saúde que foi apoiada pela ação social da i2S, na qual contava que imaginava o melhor dia da sua vida a correr à beira mar, num dia cheio de sol. Ser feliz na simplicidade é uma arte que muitas vezes nos escapa por entre os ritos da modernidade.

A corrida ficou marcada para a última terça-feira antes da prova. No final do dia de trabalho equipei-me e sai desvairado pela rua do Zambeze. Lembrei-me quase de imediato porque não gostava de correr naquele ambiente citadino, sobretudo pelo trânsito de pessoas e veículos, assim como pelas sucessivas paragens em semáforos e cruzamentos. Atravessei a rotunda da Boavista e prossegui em direção à ponte da Arrábida. Estava com alguma dúvidas se conseguiria acertar com a entrada pedonal, mas correu tudo bem. A vista desde o tabuleiro da ponte é realmente fantástica! Já em Gaia, desci logo depois da ponte e cheguei à marginal, seguindo para a Afurada. Passei pela festa na rua de relance e foi acompanhando o Douro até à foz. Depois, fez-se o Atlântico, enorme, vasto e com muita praia para galgar.

Os passadiços e as ciclovias iam-se sucedendo em catadupa. O sol empoleirado no horizonte ia servindo de companhia e GPS. Em alguns locais ia fazendo paragens cirúrgicas para captar uma foto ou hidratar um pouco. Cheguei sem problemas ao Senhor da Pedra ao quilómetro 15 km e viagem ia a meio. Aproveitei para comer uma barra e tomar um banho de chuveiro. Em algumas partes, o passadiço já está um pouco maltratado e a corrida é mais difícil, sobretudo pela cedência da madeira ao colocar o pé, o que acaba por testar mais os joelhos. Mas correndo sobre pelas tábuas sobre os barrotes o efeito acaba por ser minimizado.

À passagem por Espinho o cansaço já se ia acumulando. Valeu ter entrado depois naquela que para mim é a zona mais bonita de praia na região, entre Espinho e Esmoriz. Como o sol ia baixando no horizonte a luz tornava a paisagem ainda mais bonita. Assim, a hora mágica da fotografia ia servindo de desculpa para mais algumas paragens de descanso e registo de momentos. Chegado à Barrinha, aproveitei um fantástico e bem suado quase-pôr-do-sol, passei a ponte de madeira sobre o manto de água sereno e convenci-me que o corpo ainda aguentava um pequeno desvio. Mas, chegado ao final, percebi que já não daria para muito mais. Os 30 km fizeram-se em cerca de 3 horas e eu fiz-me ao merecido descanso. Espero repetir o ritual nos anos vindouros. No final, o corpo ficou a queixar-se da ideia, mas a cabeça adorou. Mas, como em muitas outras ocasiões, amanhã deverão concordar. Afinal, devemos sempre seguir as ideias que fazem de nós quem somos, ainda que as ciências deste mundo indiquem o contrário!

 

  

 

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

Monday, 01 July 2019 17:00

sunrise@CântaroMagro_19

À oitava edição, a chuva voltou a abençoar o sunrise@CântaroMagro. Mas este evento, que com o tempo acabou por se tornar numa espécie de segundo nascimento anual, tem muito mais para contar do que devaneios meteorológicos. A caminhada deste ano marcava um regresso à volta dos Cântaros, num “passeio” entre o Magro e o Gordo. Como habitual, chegamos um pouco atrasados ao encontro, mas a tempo do início do percurso. Ao contrário do habitual, troquei a máquina fotográfica por uns bastões, para habituação no trail, e fui com o telemóvel de registo em registo.

A descida pela vertente oeste do Cântaro Magro é desafiante pela inclinação, mas o grupo revelou-se à altura. Após paragem no carro acidentado para rever a história, lá prosseguimos para o Covão Cimeiro, por onde conseguimos passar sem molhar os pés. Sempre que passo por ali sinto-me Frodo a atravessar os Pântanos Mortos. A descida para o Covão d’Ametade fez-se sem problemas, debaixo do olhar perene dos monolíticos irmãos. Durante a estadia neste paraíso serrano aproveitámos para descansar e almoçar, num ambiente bucólico ao som das águas do Zêzere.

Ao início da tarde retomámos o trilho na direção do Vale da Candeeira, invertendo depois a marcha em direção ao Cântaro Gordo. Após algumas paragens pelo meio lá chegamos à icónica Lagoa dos Cântaros, um dos meus locais preferidos da Estrela. A imagem do gigante rochoso sobreposto ao manto solene de água é fantástica! É sempre curioso ver a reação das pessoas quando se revela por onde segue o trilho. À subida técnica pela cumeada do lado direito seguiu-se a ascensão abrupta até ao topo. Aproveitei nesta última para testar os bastões e a ajuda revelou-se notável! É sempre incrível chegar ao topo do Cântaro Gordo, quer pelo desafio superado, como pelas vistas grandiosas para os vales circundantes.

Descendo do Gordo, prosseguimos na direção do Magro, contornando o Covão Cimeiro pela estrada. Entretanto, no céu iam-se acumulando nuvens. Iniciamos depois os preparativos para a longa vigília noturna e lá iniciamos a subida ao Cântaro Magro. Apesar das inúmeras ascensões, é sempre incrível superar a sensação de inacessibilidade que se tem do estacionamento ao contemplar o gigante granítico. Ao chegarmos lá acima aproveitamos para assentar arraiais e preparar o jantar, que como habitualmente foi excelente.

  

Cedo percebemos que a noite não iria ser fácil. Foi, seguramente, a noite mais ventosa que já ali passei. A dado momento cheguei mesmo a questionar se seria possível levantar voo. Também por isso a sensação térmica baixou bastante e conseguir dormir foi mesmo um sonho intangível. Levantei-me por volta das 4h30 e desci ao estacionamento, onde o grupo já estava formado para a subida. Feliz ou infelizmente, foi por essa altura que começou a chuviscar. Como não estavam reunidas as melhores condições, a maioria dos participantes acabou por ficar no carro.

Ainda que o céu estivesse sobretudo negro, havia uma faixa livre no horizonte que começava a enrubescer com o amanhecer. Porém, bastou o tempo da subida para surgir uma nuvem de sul que acabou por tapar o horizonte e suspender o nascer do sol visível. Acho que não adianta falar de sorte ou azar. É apenas a Natureza, que não se compadece com vontades e desejos de criaturas menores. E ainda bem. Depois da difícil foto habitual no sítio de sempre iniciamos a descida. Naquelas condições, sobretudo pelas pedras molhadas, o desafio foi mais exigente, mas o grupo soube superar as dificuldades. Aliás, uma das coisas que ficam desta experiência é precisamente a preparação para as adversidades das pessoas que estiveram no Cântaro Magro neste sunrise. O meu bem-haja por isso.

Após o “sunrise” descemos para Manteigas. Se no planalto o tempo estava terrível, na vila o sol brilhava e o céu estava parcialmente azul. Contentes pela benesse, aproveitamos para descansar um pouco e ultimamos os preparativos para a Rota do Javali. Com uma primeira parte quase sempre a subir e uma segunda parte quase sempre a descer, já sabíamos o que iríamos encontrar. Após um início num contexto urbano, onde ainda deu para apanhar algumas cerejas para ajudar à progressão, rapidamente entramos num troço de estradão que nos guiou pela encosta. À medida que as vistas se foram tornando mais interessantes, o próprio arvoredo ia ficando mais composto, com predominância dos castanheiros. Aliás, se do outro lado do vale existe a Rota das Faias, esta poderia ser perfeitamente a das castanhas.

Apesar de ajudar à progressão, o estradão acaba por tornar-se um pouco desinteressante. Felizmente, logo a seguir, entramos numa zona de trilho que serpentou encosta acima até ao famoso Poço do Inferno. Já por ali havia andado há alguns anos, mas é sempre bom regressar àquelas fragas e cascatas demoníacas. A zona é fantástica e apetece ficar por ali preso em contemplações. Continuamos depois a caminhada e subimos pelo trilho escarpado. Fomos ganhando então vista sobre o vale, que emergia mais inteiro e grandioso, como todas as coisas nascidas e criadas na Estrela.

No final da subida esperava-nos uma caminhada pelo planalto serrado em estradão e iniciámos depois a descida por trilhos. Inicialmente com as vistas desafogadas e depois por entre o arvoredo distinto da encosta do Zêzere. À chegada ao final do trilho ganhamos o merecido descanso, seguindo um maravilhoso repasto no restaurante Vale do Zêzere com as boas iguarias serranas.

No rescaldo de mais um sunrise, para além do lamento natural pelo mau tempo durante o evento principal, fica a felicidade por reencontrar os rascunhos d’O Tempo Inquieto e sobressaem também duas excelentes caminhadas em companhia fantástica. Para o ano lá estaremos novamente, até porque me parece que este evento já ganhou vida própria e reclama por si o direito de existir! Muito obrigado a todos pela presença e parabéns pela preparação e superação dos desafios!

Os trilhos podem ser vistos/descarregados nos seguintes endereços:

As minhas fotos podem ser vistas/descarregadas aqui.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

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