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25 October 2017 Written by 

Era uma vez... a Mata da Penoita

Após o flagelo dos incêndios que assolou o país no passado dia 15 de outubro, fui dar uma volta pela desgraça por terras vouzelenses. Tinha pouca expectativa que a Mata da Penoita tivesse escapado, mas ainda assim resolvi que faria o percurso completo do trilho em corrida. Com o coração nas mãos da tristeza, subi pela Ventosa como um hobbit sem esperança à procura do monte da Perdição. Mesmo preparado para ver o pior, é impressionante notar a destruição. O negro e a cinza estenderam-se pela paisagem e bateram à porta de muitas casas, entrando em algumas. Para além das habitações e dos barracões que se perderam, vi ainda um carro junto à estrada que tinha ardido por completo.

Subindo a encosta, depois de passar as aldeias que tinham sido cercadas pelo fogo e ao cruzar a A25, fiquei com a certeza que nada escapara. A Penoita, verde e bucólica, tornou-se então apenas uma memória. Sempre tive um fascínio por esta zona desde que comecei a fazer viagens habituais para Aveiro, há largos atrás. Quando vim morar para a zona foi com muito prazer que fui descobrindo os recantos desta floresta autóctone, imagem postal do que deveria ter sido a floresta portuguesa séculos antes. A Penoita era um verdadeiro tesouro natural e era particularmente bonita no outono, com o seu tapete de folhas caídas e as cores variadas. Foi com orgulho que ajudei na divulgação da mata e do trilho através do geocaching (GC2J2GJ). Mais recentemente, no ano passado, ao equacionar os locais para tirar a foto para a capa do livro “Sombras de Silêncio”, a escolha tornou-se óbvia.

Estacionei o carro no Parque de Merendas da Penoita, coloquei a melancolia nos ouvidos e fiz-me ao caminho pelo antigo PR 4 – Trilho da Penoita. Pisando as cinzas da desgraça, fiz uma primeira paragem na Pia da Barca. À minha volta resistiam as árvores moribundas; a paisagem estendia-se pelo alcance da visão em sombras de saudade e escuridão. Segui depois pelo caminho, patinando no solo chamuscado e cheguei à Malhada de Cambarinho. Aquelas pedras históricas certamente já sobreviveram a muitos incêndios, mas a panorâmica vai decrepitando de tristeza a cada passagem.

Prosseguindo por campos e casotas agrícolas que passaram do abandono para a negridão, subi a encosta e aproximei-me de Covas, que também ficou cercada pelo fogo. Enquanto as pessoas, impotentes, se vão habituando à mudança, a paisagem parece refugiar-se num silêncio fatídico. Mais acima, Adsamo também está cercada por encostas negras. Depois de passar pela aldeia, de auriculares nos ouvidos, comecei a ouvir gritos. De início pareceu-me desespero, mas depois percebi que era um chamamento sentido. Mais à frente encontrei um pastor e estivemos à conversa sobre a miséria envolvente. Fiquei a saber que os chamamentos eram para o cão, que desde o incêndio andava esquivo com o medo e recusava a voltar para casa.

No estradão para Joana Martins, enquanto a Marisa cantava que “o brilho que o sol irradia há de sempre nos iluminar”, o cenário manteve-se. O fogo desceu a montanha até Vasconha, pintando de negro tudo pelo caminho. Ao longe, na planície até Viseu, o verde sobrevivente tentava enganar a deceção. Antes de Joana Martins fiz uma pequena paragem numa pequena capela que ardeu e subi depois a uma pequena elevação sobre a aldeia, de onde se vislumbrava o rasto do monstro até ao monte da Senhora do Castelo. É inimaginável pensar no que deve ter sido o terror para as pessoas daquelas aldeias. Ainda assim, mesmo nas pequenas coisas, nota-se a generosidade destas populações; mais à frente, na estrada, encontrei um saco plástico com comida e um reservatório de água para os animais selvagens sobreviventes.

Entrei depois no bosque da Penoita, onde já tinha começado o trabalho para reconstruir as linhas elétricas. Dali até ao parque de merendas foi um relance de mais alguma melancolia. Pode parecer estranho, mas acho que o facto de ter feito o percurso nestas condições era quase uma necessidade para aceitar a nova realidade. Fica também a vontade de, no futuro e ainda que de forma humilde, contribuir para resgatar a Mata da Penoita destas sombras. Após cerca de sete anos de descobertas, é com alguma tristeza que nos despedimos das caches deste trilho. A quem fez o percurso, obrigado pelas visitas e pelos relatos. Serão não apenas uma recordação, mas também o testemunho daquilo que o trilho deverá voltar a ser.

Depois do que aconteceu, é natural analisar e discutir o que foi feito de errado ou o que faltou fazer, tanto na prevenção como no combate. Não me vou pôr a atribuir culpas e certamente existem opiniões muito mais ajuizadas sobre o que deve ser feito no futuro para mitigar situações semelhantes. Neste caso, fica sobretudo a ideia de impotência face a um cenário de condições excecionais para a ignição e propagação do fogo. Porém, de um modo geral, fica também a certeza que muito precisa de mudar. Mil palavras de agradecimento por todos que, naquela noite, deram o melhor si para combater este e outros incêndios!

Por fim,  gostaria de partilhar e incentivar ao apoio do movimento solidário criado pelo Município de Vouzela para ajudar a reconstruir o futuro no concelho. No imediato, pela subsistência das vidas afetadas. Depois, para reflorestar o coração de Lafões!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt



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