21de Outubro,2017

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23 April 2017 Written by 

Sabor Atlântico

Após vários adiamentos, finalmente fomos percorrer os Passadiços do Atlântico (ver track), entre Gaia e Espinho. Como estávamos a dever quilómetros às pernas, resolvemos aumentar um pouco a distância e começámos o percurso junto à ponte D. Luís. Visto que se trata de um percurso linear, as primeiras decisões prenderam-se com a logística. Optámos por deixar o carro em Espinho e fomos de comboio até Gaia. Passámos à pressa pelas obras do Jardim do Morro e estancámos o olhar sobre as magníficas vistas sobre a paisagem urbana circundante, com o rio Douro a desenhar-nos o destino a jusante.

Iniciámos o percurso na certeza que a proximidade do meio-dia marcava necessidade de seguirmos lestos. Tínhamos mais de 20 km pela frente, mas a planura confortava-nos a esperança de ultrapassarmos o desafio. As primeiras centenas de metros vivem-se com os olhos entre o rio e a Ribeira do Porto. Será, por certo, uma das paisagens urbanas mais interessantes de Portugal. Tal como é cantado de forma sentida, por ruelas e calçadas, num rosto de cantaria e numa luz bela e sombria, o casario estende-se da Ribeira até Foz. Mesmo para quem que, como eu, mói sentimentos a olhar para construções humanas e chama casa à Natureza, é difícil ficar indiferente à paisagem portuense.

Um pouco mais à frente decidimos fazer um pequeno desvio para açambarcar mais uma vista sobre o rio. Os passadiços colocados sobre o rio ajudam a mitigar a ideia de caminhar junto à estrada e a paisagem trata do resto. Mais à frente, alguns barcos rabelos são arranjados para o turismo a haver, que vai crescendo à medida que o Porto é cada vez mais um postal para os visitantes. Apenas entristece a linha de edifícios abandonados que se estendem ao longo da margem de Gaia.

A passagem pela Afurada serviu para reconfortar o estômago e alinhavar as expectativas. Deambulando pela linha da foz, deixámos o Douro e encontrámos o Atlântico. Ali perto, alguns miradouros de aves esperavam os respetivos mirones. Continuando a caminhada, contornando a curva, entrámos nos passadiços da praia e seguimos pela linha de mar. A paisagem torna-se então mais natural, apesar de os sinais do Homem serem uma constante. Os rochedos dão lugar à areia e surgem as proteções de madeira para as dunas. Aqui e além vão-se encontrando riachos tímidos que desaguam no mar.

Quando a fome deu sinal de si resolvemos fazer uma paragem mais prolongada. Acabámos por almoçar no restaurante Mar à Vista, um espaço bastante agradável. Na continuação do percurso, os quilómetros de passadiços foram-se repetindo com sabor a maresia. Para quem gosta de montanha, a visão continuada do mar pode parecer um pouco monótona. De qualquer forma, também sabe bem enganar o corpo com algum conforto de planura.

Em quase todo este caminho Atlântico, a capela do Senhor da Pedra surge como uma espécie de farol. Primeiro, as suas linhas esbatidas despontam ao longe na paisagem. Aos poucos, torna-se um objetivo e o cansaço vai sendo medido pela distância que falta até lá. Quando lá chegamos, o desvio torna-se quase inevitável. E se para quem caminha na terra é um bom abrigo, para quem corre a fazer a vida no mar deve parecer um porto de Deus.

Continuando a caminhada, a linha urbana de Espinho surge na paisagem por conquistar. Aos poucos, as formas vão-se aproximando, tendo sempre como companhia o passadiço, a praia e o mar. Cerca de 22 km depois, a chegada à cidade ofereceu o descanso desejado, enquanto nos despedimos do infinito azul com sabor a maresia.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt.



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