21de Agosto,2019

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04 July 2014 Written by  João Malheiro

Berlengas, por João Malheiro

Este ano resolvi fazer uma semana de férias low-cost.
Eu e a cara-metade, que na comunidade dá pelo nome de GS, fizemos as trouxas, tirámos o pó às tendas e seguimos para o Litoral centro.
Quando terminei esta bela experiência, andava pelo fórum a atualizar-me com o que por cá se vivia, e não pude deixar de comentar: a Berlenga daria um belo artigo!
Com o sentido de oportunidade que lhe reconhecemos, o Prodrive, numa partilha do alinhamento preliminar para esta edição da GeoMagazine, lá infiltrou um tópico: “Berlengas by Pintelho”.

 


Ora pronto. Agora precisava descalçar esta bota. Como vou eu escrever um artigo sobre um arquipélago tão pequeno e tão conhecido, em que as caches são quase todas “normalíssimas”, e as mais diferentes não tiveram sequer a minha visita? Como vou eu interessar leitores que conhecem a Berlenga melhor que eu? Vou tentar ser descritivo, intenso, sensacionalista… Bem, nem preciso ser sensacionalista, que a beleza da ilha chega para, em recordações, nos deixar de sorriso rasgado. Vamos então a isso! Vou, contudo, tentar ser um pouco crítico, que nem tudo são rosas na ilha. Há muitos espinhos. Todos a bordo!
Quinta, 29 de Agosto. O dia fechou com um DNF na Varanda de Pilatos. Nem o Geopt Helpdesk ajudou, e o cerne da questão estava cumprido: ver aquela curiosa e muito bela estrutura. Seguimos em direção a casa de uns amigos, para aquele que foi o jantar mais requintado da semana. Dormimos em Peniche, no conforto de um teto, mas no chão, sobre os colchões tripartidos que viajariam connosco para a ilha.


Acordámos na sexta, e a ansiedade já era muita. “É hoje!”, pensava eu. Ia conhecer, mais, pernoitar, numa das mais selvagens reservas portuguesas.
Já no porto, poucos eram os que levavam a trouxa às costas. Fôramos avisados: sem água potável, com a luz a apagar-se à 1 da manhã, cobertura de rede móvel intermitente e um espaço muito – muito – reduzido para conhecer, pouco poderia atrair nas Berlengas para passar uma noite. Embarcámos, então, decididos!
Já no Cabo Avelar Pessoa, a maior das embarcações que transporta passageiros entre Peniche e a Ilha, foram-nos distribuídos sacos para o enjoo. Mau sinal, pensei.
E assim foi. A viagem de ida foi atribulada. Costuma sê-lo. Vários foram os passageiros que deram uso aos sacos para o enjoo. Da nossa parte, apesar de alguma indisposição, tudo “OK”!

Ao aproximarmo-nos da ilha, a primeira sensação é algo mista: por um lado estamos perante uma pequena multidão, ali, concentrada na “entrada” da ilha. Por outro, basta olhar em volta, além do espaço ocupado pelo bairro, nada mais é propriamente “habitado”.
Pegámos nas “trouxas” e logo demos de caras com alguma falta de dedicação aos turistas que, à partida, mais interessam, por terem que, forçosamente, deixar mais dinheiro na ilha. Enquanto subíamos, com a tenda e os colchões, foi com alguma displicência que fomos abordados pela senhora que “controlava” as pernoitas. Simpatia não era o seu forte. Subimos, ainda meio abananados com a naturalidade com que as gaivotas passeiam por entre as gentes, e no local destinado ao campismo, nova desilusão com a exploração turística. Sujidade. Muita sujidade pautava aqueles socalcos. Os caixotes do lixo estavam estrategicamente colocados… Acima das tendas, para que o vento que, de noite, é forte, o possa dispersar por entre os campistas. De madrugada, alguém iria recolher o lixo, barafustando com os “porcos” que “não sabem manter isto limpo”, sem sequer se questionar sobre a possível ação do vento.
Montámos, com alguma dificuldade, que o terreno não é fácil, a tenda e, com isto, era hora do almoço. Piquenique, claro!


Com o calor a apertar, e a pequena praia cheia que nem um ovo, optámos por nos atirarmos às caches da ilha. E é aqui que a história se torna interessante.
A pequena ilha terá, em trilhos, menos de 3 Km de extensão. Ainda assim, como o objetivo era passear, dividimo-la em dois percursos mais curtos. Se pensarmos no trilho como um “oito” deitado, reservámos para o início de tarde deste primeiro dia o maior 0 do 8. E a coisa não se inicia nada meiga. Com o sol a pique, a subida, curta mas íngreme, até ao farol, não é nada mole. Ao chegar somos, contudo, brindados com fantásticas vistas sobre o bairro dos pescadores, com as únicas casas da ilha, a praia, apinhada, e os socalcos do campismo. Aqui, aproveitamos para observar as curiosas formações geológicas que, apesar dos dejetos dos milhares de gaivotas que aqui habitam, dão origem à única EarthCache da ilha: Pretty in Pink DP/EC 59 (GC2XP0Y) do danieloliveira.


Seguindo, encontrámos o farol que, por vezes, o responsável deixa visitar. Não tivemos sorte, pois não encontrámos ninguém.
Continuando o percurso, deparámo-nos com outro dos ex-libris da ilha, o Forte de S. João Baptista (GC1EDEV, do PLNauta). Dali de cima, a construção, no meio da água, parece impossível. Descemos, mais de 300 degraus, e visitámos a fortaleza. Ainda quis um café, mas a falta de eletricidade, que só seria disponibilizada às 19h, levou-me a optar pela cerveja.
Era, então, hora de subir os degraus e, por esta altura, já eu tinha rogado múltiplas pragas a mim próprio. A cache devia ter sido procurada na subida, e nunca na descida, para aproveitar e descansar.
Nesta altura, nova pausa na beleza natural para falar de mais um dos problemas da ilha: as pragas – ratos, gaivotas e cagarras. Na Reserva Natural, não há concorrentes para estas três espécies, e uma série de decisões questionáveis tomadas há algumas décadas atrás levaram a esta dramática situação. Se as cagarras e as gaivotas não estão a ser controladas, os ratos são alvo de campanhas sazonais, pelo que é frequente cruzarmo-nos com ratoeiras e até mesmo veneno, sobretudo nas zonas em que os turistas pernoitam e na praia. Ali, na subida, um rato envenenado conferia um aspeto depreciativo à paisagem.
Seguiu-se uma curta caminhada até à Ponta de França. À direita de quem caminha, próximas de nós, conseguimos vislumbrar as Estelas, pequenas ilhas selvagens do arquipélago. Mas a grande surpresa está mesmo reservada para a ponta de França, onde diligentemente a Lusitana Paixão escondeu uma cache (GC1EZMV) que serve dois propósitos: levar os geocachers a conhecer este local de rara beleza e, em simultâneo, homenagear o Cabo Avelar Pessoa, a tal embarcação onde, horas antes, dezenas de pessoas enjoaram. Ainda bem que, esta noite, durmo aqui, pensei.

 


De regresso, com a vista cheia de um azul límpido e da paz da ilha, fomos à praia. Por esta altura, já poucas pessoas por lá andavam. Melhor assim.
As águas, particularmente agradáveis nesse dia, foram uma surpresa maravilhosa, e foi com umas braçadas que fechamos o expediente.
Ainda antes de jantar, um pouco às apalpadelas, cirandámos pelo bairro dos pescadores, que agora serve sobretudo como albergue aos que ali trabalham e a uns quantos turistas que lá pernoitam, e demos de caras com a última cache do dia: Reserva Natural da Berlenga (GC29PD9, Team GeocacherZONE).
Mais tarde, ao jantar, as camisolas do Geopt denunciaram-nos, e fomos abordados por uma geocacher penicheira que trabalhava no restaurante da ilha. Segundo ela, uma das caches que estava na lista para o dia seguinte (GC4GDHR, by Team GeocacherZONE) estaria desaparecida, o que nos levou a nem tentar uma das caches mais distintas, pelo acesso difícil. Em contrapartida, foi-nos dito que uma cache estaria inativa, junto ao farol, e que por isso não aparecia na query. Talvez amanhã lá vá.
Deitámo-nos cedo, com as galinhas, que a noite fria a isso convidava, não sem antes olhar o céu estrelado e descobrir um grasnar bastante distinto. Se de dia a banda-sonora era conhecida, sobejamente – as gaivotas – de noite a música era outra. Serão as gaivotas a acasalar? Pensei. Descobriria no dia seguinte, pelas palavras de um sábio guia, que se tratavam das famigeradas cagarras. Que belo grasnar!
Com a primeira luz do dia a entrar pela tenda, era hora de ir ver o sol erguer-se de lá do topo da ilha.


Vesti-me, ainda ao som das cagarras mais retardatárias que, por esta hora passavam o turno às gaivotas mais madrugadoras, e lá subi a pequena encosta. Por entre a neblina, vi o sol erguer-se, espreitei o forte, que com este ambiente se erguia ainda mais mágico, e fui verificar o que me dissera a geocacher na véspera. A cache sempre estaria lá (GC30184). Só mais tarde, já no continente, reparei que estaria arquivada e, portanto, se trata de geolitter. Fica aqui o repto a que quem se deslocar à Berlenga de lá retire o lixo.
Desci e fui ter com a GS, por esta altura também ela acordada. Os planos para o dia incluíam praia logo pela manhã, mas o sol teimava em não furar a neblina, o que levou a que fôssemos, primeiro, visitar as grutas de barco.
Um passeio agradável, por águas límpidas e cristalinas, e por entre formações rochosas sui generis, como a Rocha do Elefante e os Furados. Maravilhoso e recomendável, com a “cereja no topo do bolo” de se visitar o forte por fora, por baixo, por água!


Regressados ao bairro, estendemos a toalha e lá ficámos, a bronzear. Por entre um e outro mergulho acabei por nadar até mais uma cache (GC4GDJ6), à qual acedi por mera sorte. Recordava-me do mapa e, mesmo com o GPSr em terra, decidi nadar até ao local provável. Apareceu facilmente, como se nunca tivesse abandonado o aparelho. Ainda que próxima da praia, ter que nadar até esta cache faz dela, uma das mais especiais da ilha.
Após o piquenique, fomos percorrer o “0” pequeno do 8, mais selvagem que o percurso maior, e durante o qual pudemos encontrar mais duas caches, uma (GCKGCX) com vista para o Cerro da Velha, pequena ilha a oriente da Berlenga, e outra (GC4E7XM) com vista, lá ao longe, para os Farilhões.
Esta parte do percurso, que leva menos de uma hora, é também aquela em que podemos ver mais aves mortas. Algumas serão, certamente, cadáveres de animais vencidos pelo tempo, mas outros, não o duvido, são vítimas de envenenamento acidental.


Na viagem de regresso, após um gelado, imensamente mais tranquila que a de ida, pensei numa cache que, com pena, não visitei, e que será a “jóia da coroa” das Berlengas: o Vapor do Trigo (GC1F4FN). Esta multi, com o ponto final em terra firme, requer, no ponto inicial, um mergulho que não pude realizar por falta de tempo, ainda que o container final esteja já ali.
Regressámos a Peniche, com a sensação de que toda aquela beleza natural, ainda que subaproveitada, enche as medias a qualquer um. E enche! Em Peniche, só pensava em voltar, rapidamente, à ilha! Haverá, contudo, forma de tornar a ilha mais atrativa para os turistas, preservando o seu estado “selvagem”. Fica o apelo às entidades responsáveis.
Visitem. Com tempo, com calma. Pernoitem: a Via Láctea, a reduzida quantidade de pessoas, o grasnar das cagarras e o frio da solidão merecem a pernoita. Usem e abusem da máquina fotográfica, dos cheiros, das vistas. Deixem-se enjoar no Cabo Avelar Pessoa, vejam os ratos, falem mal do lixo, mas vão! As Berlengas merecem!

Publicado em GeoMagazine, Edição #5



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