12de Dezembro,2018

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01 August 2018 Written by  Ricardo Ribeiro

Ásia 2017 – Dia 10 – Rumo a Sur, Omã

O dia 23 de Janeiro, o último a sério no Omã, antes de um de viagem na estrada e outro de repouso em Muscat, foi talvez o melhor, e de forma inesperada, porque o cardápio estava longe de ser o mais prometedor.

Foi também um dia de estrada, vinha-se da região de montanha, da área de Nizwa, até Sur, na costa a sul de Muscat.

Do nosso ponto de acampamento descemos o pouco que faltava das montanhas, até chegar à estrada principal. Rolamos até ao cruzamento onde deveria virar para Sur, correndo sempre paralelo ao deserto de Wahiba Sands. E é aqui que tomamos uma feliz decisão: em vez de seguir directamente para Sur, vamos espreitar as aldeias de Jaalan Bani Bu Hasan e Jalan Bani Bu Ali. Seguindo o GPS perdi um pouco o sentido de orientação, mas sei que foi uma experiência super interessante. Até à primeira seguimos pela estrada principal com muito, mas mesmo muito comércio, uma surpresa para mim que, estudando a região em Google Earth, só via uma estrada e deserto. Pensei que ia encontrar duas pacatas aldeias e afinal a concentração demográfica é grande. Fica a nota para posteriores viajantes: aqui encontrarão tudo… bancos, casas de câmbio, serviços de impressão, padarias… enfim, a imaginação é o limite.

De Jaalan Bani Bu Hasan – onde visitámos mais um castelo – para Jaalan Bani Bu Alli o GPS indicou-me uma rota secundária, e foi ai que as coisas se tornaram mesmo interessantes. Não há é como como colocar por palavras, mas tentarei. O que se passa é que estas aldeias são diferentes das que tinhamos estado a ver desde o primeiro dia. São mais compactas, não se estendem ao longo da estrada durante quilómetros, com espaçamentos entre as casas. Aqui os vizinhos são vizinhos. E há uma ruralidade que ainda não tinha sentido.

O deserto está presente de forma clara. Vêem-se camelos, à solta, pastando, aqui e acolá. Um, está a deliciar-se com o conteúdo de um contentor de lixo. Quem preciso de ursos quando se tem camelos…

Há uma paragem para um chá karak. O último desta viagem, da qual o sabor doce deste tipo de chá com leite ficará na memória.

E depois, subitamente, o oceano aparece no horizonte e num instante chegamos à costa. É um momento marcante, ver este casamento entre realidades paisagisticas que geralmente não associamos: deserto e oceano. Al Ashkarah é uma deliciosa aldeia de pescadores, onde o ocre das casas se mistura com o quase branco do deserto e o azulão do mar.

As mesquitas tocam a praia, as pickups puxam os barcos que regressam da faina, há homens que consertam redes, miúdos que reparam abrigos. A água é tépida e limpida, a areia macia. A paisagem é imensa. E gostaria de entrar naquele emaranhado de ruas, mas sucede algo: um miúdo liderando um pequeno grupo de meninos mais novos dirige-se a nós com um pau e fala em tom ameaçador… algo o incomoda, algo o faz comportar-se assim. Não sei o que é, posso imaginar algumas hipóteses mas nunca saberei. É uma atitude contrária à de toda a gente que por nós passa. E logo um jovem de uns 20 anos grita algo para o rapaz, manda-o afastar-se. E quando umas dezenas de metros depois olho para trás, dois dos miúdos estão a ser levados pelo jovem, cada um por uma orelha, com muita choradeira.

O episódio não estragou o momento, mas de qualquer modo já vinhamos andando para o carro. Esta é a minha parte do Omã que conheci, mas sei que é um sentir pouco comum, a maioria das pessoas há-de se encantar com outras partes. Mas que posso dizer, sempre tive um fraquinho por este universo onde islão e oceano se tocam, é algo que está fundo no meu imaginário, suspeito que por influência de algumas das histórias de Tintim.

Dali, foi correr costa para norte, sempre em direção a Sur, descobrindo recantos mágicos, outras aldeias do mesmo género, praias secretas. A paisagem é agreste. Desértica. E o vento que neste dia se sente acentua a natureza do clima.

Fizemos um pequeno desvio para visitar a terra das tartarugas, Ras Al Hadd, da qual guardo a memória de se parecer com uma cidade de fronteira, não entre dois países, mas entre o mundo dos homens e o da Natureza. Por estranho que pareça, vem-me ao pensamento Vik, na Islândia, outro entreposto entre humanidade e a imensidão.

Sur já não está longe, surge, primeiro à distância e depois, de repente, já aos nossos pés. É uma cidade bem diferente, vista assim. O branco domina-a, e há um braço de mar ou talvez um rio, que a envolve de um lado. Subimos a uma das torres de vigia antigas, a mais alta e a vista é fabulosa. Outro dos momentos gravados na memória desta viagem. A vista e o vento, inclemente. Tinhamos ponderado acampar de novo, mas o cansaço e o jeito de uma ligação à Internet tinham feito pensar num hotelzinho barato (que no Omã significa pelo menos 30 Eur). E agora com este vento? Hotel, sim, hotel, sem dúvida!

Vamos à sua procura o que levanta algumas dificuldades. O trânsito é condicionado por muitos sentidos únicos e na primeira passagem não avistamos o Sur Hotel. Alguém explica como lá chegar mas é um pouco confuso. Bem, logo chegamos às imediações, estacionamos o carro para seguir a pé e afinal está mesmo ali atrás de nós.

Damos entrada no hotel, o quarto valeria uns 5 Eur noutras partes do mundo mas não aqui… 35 Eur. Pelo menos há internet na caminha mas para já vamos explorar um pouco que a noite está a chegar. Da nossa localização até à entrada mais bonita de Sur, precisamente aquela que usámos, passando sobre uma ponte, são cerca de quilómetro e meio.

Há muito, mas mesmo muitos emigrantes em Sur… ou será nesta área, na zona antiga? Seja como for têm semblantes assim um pouco carregados, quase hostis, é um ambiente que não me agrada especialmente, mas por outro lado estou a adorar a cidade. Sem dúvida a não perder numa viagem pelo Omã.

O vento continua, e quando chegamos à beira da água, intensifica-se. Sobre a ponte, é imenso, não me recordo de ter sentido alguma vez um vento tão forte. Quando tiro fotos, não há como evitar, as mãos vibram. Ali por baixo encontra-se um dhow, barco tradicional destas paragens, antes apenas à vela, mas agora já equipados com motor. O cenário é magnífico, especialmente aquela hora, quando tudo se doura com o sol que vai baixando. Na praia mais próxima alinham-se barcos de pesca mais comuns, como os nossos, e a seguir o estaleiro de dhows, sempre um local a visitar e onde, pelo que ouvi dizer, se pode entrar e deambular sem problemas.

Regressamos com um grande sorriso na cara, pela praia de Sur, onde no Verão deverá ser a loucura… em Janeiro não se passa muito. Apenas pessoas que por ali passeiam. Casais de namorados, grupos de homens, nos seus trajes omanis, à conversa. Um ou outro estrangeiro. No areal joga-se à bola. É um cenário muito agradável, que marca o final do dia.

A última parte do percurso até ao hotel faz-se pelo meio da zona comercial, uma zona pedonal, com muito comércio e, aquela hora, muitas pessoas. Finalmente se vêem mulheres, e muitas, às compras.

Jantamos ao lado do Sur Hotel. A comida está deliciosa mas quando chega a conta há um excesso significativo, que logo é retirado depois de um pequeno confronto… “maybe taxes”, dizia ele. Pois, mas não fala aqui em taxas em lado nenhum. Credo, que aldraba!

 

Artigo do blog Cruzamundos. Mais textos em http://www.cruzamundos.com/



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