15de Novembro,2018

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15 May 2018 Written by  Ricardo Ribeiro

Rota Vicentina

A Rota Vicentina

A Rota Vicentina é um trilho de caminhada de média distância que se estende ao longo da costa ocidental do sul de Portugal, entre o Alentejo Litoral e o Algarve, seguindo-se à mais antiga Via Algarviana.

O projecto iniciou-se com o Caminho Histórico, que acompanha a costa a uma certa distância e que na minha opinião não tem grandes atractivos, assim como não o tem a Via Algarviana, pelas mesmas razões: paisagem a cair na monotonia, ausência de troços verdadeiramente belos, enfim, apenas um trilho. É provável que os dinamizadores do projecto tenham acabado por descobrir isto mesmo, porque a adesão do público a este primeiro trilho ficou aquém das expectativas, o que terá levado a uma opção, bem mais atractiva, o chamado Trilho dos Pescadores, que corre bem próximo das falésias e das praias que se sucedem neste segmento da costa portuguesa.

O Trilho dos Pescadores, que em alguns pontos se une ao Caminho Histórico, tem uma extensão de 120 km, distribuídos por quatro etapas, a que se juntam cinco percursos complementares. Já o Caminho Histórico tem doze etapas que totalizam 230 km.

Em Abril o Cruzamundos foi explorar um pouco deste universo maravilhoso que é a Costa Vicentina, percorrendo os 18 km do troço do Trilho dos Pescadores entre Zambujeira do Mar e Odeceixe.

Foi um fim-de-semana encurtado, que deveria ter começado logo na Sexta-feira, com uma dormida no carro algures pela costa do sudoeste, mas que a chuva obrigou a reduzir ao mínimo. Acabei por sair de casa depois do almoço de Sábado para, com grande alívio, ver as condições meteorológicas melhorarem. Mesmo assim foi quase uma tirada directa até à Zambujeira do Mar, onde ficaria alojado para no dia seguinte pela manhã arrancar até Odeceixe.

Fiz contudo uma paragem para apreciar de perto um local que já conhecia, o Moinho do Rogil, localizado junto à estrada principal que passa por Aljezur a caminho de Odeceixe. Está recuperado e os anexos parecem ser agora uma espécie de turismo rural ou algo assim, mas não se via por lá ninguém.

A Zambujeira do Mar

Pouco depois chegava à Zambujeira do Mar. Aproveitei estar ao volante e segui um pouco mais, para dar uma vista de olhos ao bonito porto de abrigo da aldeia, muito pitoresco e de visita recomendada. Desde a localidade até lá existe uma pista de caminhada e ciclismo que pode dar muito jeito a quem quer fazer o passeio de forma mais simples, sem andar pelas falésias.

Feito isto, segui para a aldeia, estacionei o carro sem problemas e fui encontrar o João, rapaz da terra que ali deu um passo no caminho certo e arriscou tudo na abertura de um hostel. Mas sobre isso, já escreverei com mais detalhe.

 

Quando acabei de visitar o Kuna Matata e de me instalar era já meio da tarde. O céu estava fantástico, imprimindo um ambiente místico à paisagem. Apesar de ser Sábado não havia muita gente na Zambujeira do Mar. Enfim, estava a viver um dia em grande.

Passeei pela povoação de mãos dadas pelo mar, essa presença constante na Zambujeira do Mar. Explorei as suas ruas. Apesar do dia algo cinzento e escuro, gostei de revisitar uma aldeia onde só tinha estado uma vez, há muitos anos atrás.

Junto ao mar é onde se está melhor. Há por ali uma série de restaurantes e cafés ideais para beber uma cerveja nos dias mais quentes e apreciar o magnífico pôr-do-sol da Costa Vicentina. Inveja. Inveja de quem tem ali uma casa, um porto de abrigo para onde escapar do bulício da grande cidade e usufruir deste espectáculo continuado.

 

Mais abaixo encontra-se a praia, que parece estar agora mais reduzida. Ou talvez seja só impressão. Mas vejo pouco areal e não era essa a memória que detinha. Do outro lado ergue-se um promontório e, dizem-me, se caminharmos por ali iremos encontrar uma praia ainda melhor.

Nas falésias da Zambujeira do Mar algumas pessoas aguardam já o momento em que o astro-rei tocará as águas distantes do Atlântico. Um grupo de asiáticos, trabalhadores das muitas estufas agrícolas que existem na região, aprecia também o cenário. Vivem por aqui emigrantes de países como as Filipinas, Indonésia, Paquistão e Sri Lanka. Alguns estão estabelecidos para ficar, criaram famílias, há casamentos mistos. Uma face diferente da nova agricultura, feita em estufas, acusada de contaminar os lençóis freáticos da região.

Das ruas da aldeia fica-me a memória de um campo da bola, dos velhotes sentados à porta de casa à conversa, da padaria tradicional onde teria adorado comprar o meu pão, mas que não encontrei aberta. Talvez noutra ocasião…

E chegou o pôr-do-sol, que é magnífico, um dos melhores a que, assim de memória, já assisti, apenas batido pelo espectáculo único de Dili, em Timor Leste, e das praias das Filipinas. Num instante tudo acabou, a escuridão acentua-se e o frio inicia o seu reinado nocturno. Hora de recolher a casa, alinhavar uns escritos, beber um chá e, a seu tempo, passar um bom bocado à conversa com o João.

O troço Zambujeira do Mar – Odeceixe

Um despertar suave que me arrancou a uma noite bem passada. Não tinha muito tempo, a caminhada teria início muito em breve. Comer qualquer coisa, meter um par de laranjas na pequena mochila, meter a bagagem no carro para deixar o quarto livre e arrancar.

Nas ruas vêem-se caminhantes. Todos estrangeiros. A concentração é tal que me leva a pensar se isto da Rota Vicentina teria mesmo sido boa ideia. Há coisas que se perdem com a popularidade, e quase sempre de forma irreversível. Infelizmente neste momento os exemplos abundam no nosso país. Claro que o dinheiro dá jeito, mas já devíamos ter percebido que há valores mais importantes e que o bem-estar e a felicidade que os bens materiais trazem são fugazes. Enfim, chega de filosofia barata. Está na hora de me fazer ao caminho.

O passeio a sério inicia-se na praia da Zambujeira do Mar. Dali entra-se no trilho oficial, quase sempre bem assinalado. Os primeiros quilómetros são feitos em piso de areia, com alguns desníveis, mas como se está a começar o dia o esforço não é elevado.

Caminha-se na companhia do mar, e neste dia o cenário é quase dantesco, com um céu carregado, cinzentos irregulares que em alguns pontos são muito escuros. Até ao fim estará sempre presente a ameaça de chuva que como por milagre não se chega a concretizar.

A distância vai-se acumulando, paulatinamente. Quilómetro atrás de quilómetro, umas vezes mais próximo da margem das falésias, outras, mais para o interior, mas raramente perdendo o mar de vista. Passamos junto a uma primeira praia cujo nome me escapou e depois perto da do Carvalhal.

 

Segue-se a Praia da Amália, que sempre me agradou muito, pelo romantismo associado à propriedade e pelo delicioso caminho que, contornando a propriedade, nos leva de novo até à orla costeira, num pedacinho excepcionalmente verde. Gosto de imaginar que estou a pisar a mesma terra por onde os pés da diva do fado uma vez andaram. Que estou a olhar para o tronco de uma árvore que há umas dezenas de anos viu a face de Amália.

Mais à frente a pequena aldeia de Azenha do Mar, uma comunidade piscatória com pouco mais de duas dúzias de casas. Também ali existe um porto de abrigo. Mais genuína que a Zambujeira do Mar, sem qualquer marca de turismo para além do famoso restaurante que ali existe e para o qual as pessoas já formam uma fila.

O passeio prossegue e por uns instantes penso estar a atravessar o deserto, logo o meu imaginário se inflama, já imagino camelos e tuaregues, os filmes da minha meninice, no qual os heróis eram da Legião Francesa e viviam em fortes rodeados de ululantes árabes vêm-me à ideia. Isso logo acaba quando o trilho regressa às falésias e o bater do mar me enche de novo os sentidos.

 

O fim deste troço está para breve. Logo chego à praia de Odeceixe onde o transporte de volta à Zambujeira me aguarda. Uma inocente batota, porque a caminhada se deveria estender até à localidade, do outro lado, mas a volta é grande e pouco acrescentaria à experiência.

Foi um dia bem passado. Aliás, um fim-de-semana em grande! Adorei revisitar a Zambujeira do Mar, conhecer o João, viver aquele ambiente de litoral invernoso, mesmo em Abril. E, claro, fazer pela primeira vez um troço da Rota Vicentina, mesmo já conhecendo todas estas paragens. Voltarei para mais. Ambiciono percorrer toda a rota, do princípio ao fim, sempre a andar. E antes que o turismo em massa destrua mais esta maravilha de Portugal. Por falar nisso… sabiam que a Costa Vicentina, no seu todo, está na calha para ser incluída na lista de lugares Património Mundial da Humanidade da UNESCO?

O Akuna Matata

Para ficar alojado na Zambujeira do Mar selecionei o Akuna Matata, um simpático hostel com traços de turismo de habitação localizado num dos melhores pontos da aldeia, mesmo junto à linha do mar. Gostei de tudo: o meu quarto era espaçoso (ver fotografia em baixo), com casa de banho privativa e uma agradável varanda com vista lateral para o mar. Os outros hóspedes eram todos caminhantes e todos estrangeiros. E não estou a arredondar: eram mesmo TODOS caminhantes e TODOS estrangeiros. Gente do mundo, ideal para uma conversa de serão na acolhedora sala comum do Akuna Matata.

Os proprietários, o João e a Marisa, são incansáveis, orgulhosos do prestígio que o estabelecimento já alcançou e decididos a manter o terreno conquistado: está sempre tudo num brinco e a funcionar como deve ser e a sua presença é sempre pretexto para dois dedos de conversa. Afinal, não há como as gentes locais para recolher informação de qualidade.

Os preços são muito razoáveis, especialmente considerando a qualidade do hostel, que apresenta uns bonitos 9,3 pontos na média de avaliações de clientes do Booking.com: 18 Euros para uma cama em dormitório e 45 Euros para um belo quarto como aquele onde fiquei.

Se quiser vir para estes lados e desejar reservar alojamento no Akuna Matata através do booking, poderá usar este link. Se preferir acertar as coisas directamente com o João, pode falar com ele através do Facebook, na página do Akuna Matata.

 

 

Artigo do blog Cruzamundos. Mais textos em http://www.cruzamundos.com/

 

 

 



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