25de Janeiro,2021

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Ao contrário dos anteriores artigos por mim publicados na GeoPt, este não é inédito. Foi escrito há quase um ano, para o Papacaches, mas considero a questão tão fascinante e tão raramente abordada, que decidi trazê-lo de volta a uma primeira página.

 

No outro dia, andava eu por Campo de Ourique no cumprimento de obrigações geocachianas, e pus-me a matutar: de entre todas as coisas boas que o jogo me trouxe, entre prazeres puros e habilidades adquiridas ou aperfeiçoadas, uma das mais notáveis é a percepção espacial. Há muitos anos atrás, depois de concluir a licenciatura em História, já tinha experimentado uma sensação idêntica, dessa feita relativamente às noções temporais, à forma como aprendi a encaixar acontecimentos passados de forma impecável numa fita de tempo imaginária, naquilo que se chama a História Comparada. E com o Geocaching desenvolvi uma visão global dos espaços, pelo menos dos espaços que me são mais familiares e onde me movimento com frequência nestas andanças. Note-se que não é a simples familiariedade que implica automaticamente a existência desta capacidade de ver as partes de um todo como… um todo. Muito boa gente haverá que passará toda a vida a apanhar o autocarro em Alvalade para ir trabalhar a Moscavide, atravessando os Olivais no processo, sem nunca suspeitar que se pudessem voar, ou mesmo caminhar em linha recta, a distância a percorrer seria uma brincadeira de crianças.

Apesar de ter vivido em Lisboa durante os primeiros trinta anos da minha vida, o meu conhecimento geográfico da cidade, certamente bem acima da média do comum lisboeta, não passou nunca da observação de peças avulsas desse enorme puzzle urbano. Foi preciso começar a percorrer a cidade em busca de caixinhas para que fossem definitivamente encaixadas essas peças, num processo que ainda hoje decorre, numa fase já de conclusão.

Estou convencido que este dom adquirido é um privilégio de uns poucos; talvez os bons motoristas de táxi sejam capazes de unir mentalmente todas as partes da cidade, assim como alguns profissionais cujo sucesso depende do percorrer constante do traçado urbano. Fora isso, será preciso ser Geocacher calejado para compreender as ligações entre as partes da urbe, para poder fechar os olhos e visualizar um mapa imaginário onde todas os segmentos se tocam. E isso é algo maravilhoso, mais uma benção que este jogo nos oferece.

A fazer Geocaching descobri que a distância entre o ponto Y e o ponto X é infinitamente menor da que supunha. Para chegar a tão douta conclusão foi preciso começar a calcorrear estes pontos a pé, emancipar-me da prisão dos transportes públicos ou das ruas de sentido único e das vias principais, instintivamente utilizadas por quem não se sente familiarizado com as pequenas ruelas que, a pé e com toda a calma do mundo, encurtam distâncias de forma drástica.



2 comments

  • Comment Link prodrive
28 July 2011 prodrive

    Interessante ponto de vista, que partilho, não só em relação a Lisboa, como também outras cidades que já conhecia anteriormente, mas que só graças ao Geocaching consegui praticamente completar o puzzle: Porto, Vila Real, Leiria ou Santarém.

    Gostei particularmente deste pensamento ter ocorrido em Campo de Ourique, o centro do Universo 8)

  • Comment Link Joaquim Safara 28 July 2011 jasafara

    Não tendo a pretensão de ter atingido a capacidade de visualização geográfica atingida pelo Torgut, não há dúvida que o geocaching me tem levado a conhecer Lisboa como nunca conheci embora sempre cá tenha vivido. E também não há dúvidas que a pé se percepcionam os espaços e as distancias de uma forma completamente diferente.

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